Reminiscência
Maio 11, 2012

Os instantes que vivo
… não são a minha vida:
ela voa perdida
no desenho furtivo
de uma breve asa ferida
daquele pássaro esquivo
que anda desaparecido
e continua à deriva
desde que sou crescido
e perdi o sentido
da verdade mais viva.

E por mais que persiga
esse rasto infinito
não há voz que me diga
se a memória de um grito
é tudo o que me liga
ao primeiro suspiro
dessa ave iludida
cujas asas eu firo
sem saber se consigo
descobrir a saída
rumo àquele céu antigo
onde deixei a vida.

FERNANDO PINTO DO AMARAL,  em  “Poemas Escolhidos “

E tudo era possível…
Junho 14, 2010

 

Na minha juventude antes de ter saído

da casa dos meus pais disposto a viajar,

eu conhecia já o rebentar do mar

das páginas dos livros que já tinha lido.

Chegava o mês de maio era tudo florido,

o rolo das manhãs punha-se a circular

e era só ouvir o sonhador falar

da vida como se ela houvesse acontecido.

E tudo se passava numa outra vida

e havia para as coisas sempre uma saída

Quando foi isso? Eu próprio não o sei dizer.

Só sei que tinha o poder duma criança

entre as coisas e mim havia vizinhança

e tudo era possível era só querer.

Ruy Belo

Urgência
Maio 23, 2008

Urge encontrar a saída.

Urge encontrar a saída da máquina.

Urge encontrar a saída da máquina do quotidiano.

Pelo menos aos domingos.

Pelo menos quando estou contigo.

E  depositar em ti, ou nos domingos,

o excesso de mim que ficou do quotidiano.

Repito: urge encontrar a saída.

Urge encontrar a saída da máquina do quotidiano.

 Luís Moniz Pereira