Ergo uma rosa
Maio 16, 2018

Ergo uma rosa, e tudo se ilumina
como a lua não faz nem o sol pode:
cobra de luz ardente e enroscada
ou ventos de cabelos que sacode.

.
Ergo uma rosa, e grito a quantas aves
o céu pontua de ninhos e de cantos,
bato no chão a ordem que decide
a união dos demos e dos santos.

.
Ergo uma rosa, um corpo e um destino
contra o frio da noite que se atreve,
e da seiva da rosa e do meu sangue

.
construo perenidade em vida breve.
Ergo uma rosa, e deixo, e abandono
quanto me dói de mágoas e assombros.

.
Ergo uma rosa, sim, e ouço a vida
neste cantar das aves nos meus ombros.

rosa

 

José Saramago 

Anúncios

Não te amo
Outubro 28, 2016

Não te amo, quero-te: o amor vem da alma.
E eu na alma – tenho a calma,
a calma do jazigo.
Ai, não te amo, não.
.
Não te amo, quero-te: o amor é vida.
E a vida – nem sentida
a trago eu já comigo.
Ai, não te amo, não.
.
Ai, não te amo, não; e só te quero
de um querer bruto e fero
que o sangue me devora,
não chega ao coração.
.
Não te amo. És bela; e eu não te amo, ó bela.
Quem ama a aziaga estrela
que lhe luz na má hora
da sua perdição?
.
E quero-te, e não te amo, que é forçado,
do mau feitiço azado
este indigno furor.
Mas oh, não te amo, não.
.
E infame sou, porque te quero; e tanto
que de mim tenho espanto,
de ti medo e terror…
Mas amar!… não te amo, não.

lonely-742719

Almeida Garrett

Tu vinhas
Dezembro 8, 2015

Não me fizeste sofrer
mas esperar.

Naquelas horas
emaranhadas, cheias
de serpentes,
quando
a alma me caía e eu me afogava,
tu vinhas-te aproximando,
tu vinhas nua e arranhada,
tu chegavas ensanguentada ao meu leito,
noiva minha,
e então
caminhávamos toda a noite dormindo
e, quando acordávamos,
estavas intacta e nova,
como se o vento grave dos sonhos
acendesse de novo
o fogo da tua cabeleira
e em trigo e prata submergisse
teu corpo até torná-lo deslumbrante.

Eu não sofri, meu amor,
esperava-te apenas.
Tu precisavas de mudar de coração
e de olhar
depois de tocares a profunda
zona do mar que meu peito te entregou.
Precisavas de sair da água
pura como uma gota erguida
por uma onda nocturna.

Noiva minha, tu precisaste
de morrer e de nascer, eu esperava-te.
Não sofri a procurar-te,
sabia que virias,
mas outra, com o que adoro
da mulher que não adorava,
com teus olhos, tuas mãos e tua boca,
mas com outro coração,
que amanheceu a meu lado
como se sempre tivesse estado ali
para continuar comigo para sempre.

mulher-caminhar
Pablo Neruda, em “Os Versos do Capitão“.

Natural
Janeiro 8, 2015

Nós vos pedimos com insistência:
Nunca digam – Isso é natural!
Diante dos acontecimentos de cada dia,
numa época em que corre o sangue,
em que o arbitrário tem força de lei,
em que a humanidade se desumaniza,
não digam nunca: Isso é natural.
Para que nada passe por imutável.

Bertolt Brecht

Tradução livre: Chegamos num momento tão sério do mundo que o humor se tornou uma profissão de risco.

É muito sério o que aconteceu. Quando alguém cala uma voz que denuncia, e pior, em nome de uma divindade, há algo de muito errado nesse momento histórico.
A religião vem prezar pelo bem das pessoas, vem dar esperança para perseverar nesse mundo, mas, acima de tudo, vem para denunciar as injustiças para que haja igualdade e amor, para que a “terra seja como o céu”.
Esse grupo radical pode estar vingando o deus deles, mas está a conseguir disseminar a intolerância contra eles mesmos e difamar uma religião (que não conheço mas) que acredito que não seja como vem sendo propagada.
Assim, distorce-se tudo. As missões, as informações, a religião.
O mundo precisa de paz.
“E paz sem voz, é medo.”

É por ti
Junho 5, 2014

É por ti  que eu escrevo que não és musa nem deusa

mas a mulher do meu horizonte

na imperfeição e na incoincidência do dia-a-dia

Por ti desejo o sossego oval

em que possas identificar-te na limpidez de um centro

em que a felicidade se revele como um jardim branco

onde reconheças a dália da tua identidade azul

É porque amo a cálida formosura do teu torso

a latitude pura da tua fronte

o teu olhar de água iluminada

o teu sorriso solar

é porque sem ti não conheceria o girassol do horizonte

nem a túmida integridade do trigo

que eu procuro as palavras fragrantes de um oásis

para a oferenda do meu sangue inquieto

onde pressinto a vermelha trajectória de um sol

que quer resplandecer em largas planícies

sulcado por um tranquilo rio sumptuoso

flor_amarela_43

António Ramos Rosa

Port Wine
Março 28, 2014

V.Porto

O Douro é um rio de vinho
que tem a foz em Liverpool e em Londres
e em Nova-York e no Rio e em Buenos Aires:
quando chega ao mar vai nos navios,
cria seus lodos em garrafeiras velhas,
desemboca nos clubes e nos bares.

O Douro é um rio de barcos
onde remam os barqueiros suas desgraças,
primeiro se afundam em terra as suas vidas
que no rio se afundam as barcaças.

Nas sobremesas finas, as garrafas
assemelham cristais cheios de rubis,
em Cape-Town, em Sidney, em Paris,
tem um sabor generoso e fino
o sangue que dos cais exportamos em barris.

As margens do Douro são penedos
fecundados de sangue e amarguras
onde cava o meu povo as vinhas
como quem abre as próprias sepulturas:
nos entrepostos dos cais, em armazéns,
comerciantes trocam por esterlino
o vinho que é o sangue dos seus corpos,
moeda pobre que são os seus destinos.

Em Londres os lords e em Paris os snobs,
no Cabo e no Rio os fazendeiros ricos
acham no Porto um sabor divino,
mas a nós só nos sabe, só nos sabe,
à tristeza infinita de um destino.

O rio Douro é um rio de sangue,
por onde o sangue do meu povo corre.
Meu povo, liberta-te, liberta-te!
Liberta-te, meu povo! – ou morre.

Joaquim Namorado

Em ti
Setembro 2, 2012

Em ti o chão exausto de meu desejo. A flor aberta
dos sentidos. A calidez do lume. A água. O vinho.
O sangue a estuar em fúria. O grito do sol
que em transe de labareda fulge e irradia.
A extensão de tantos vales


e colinas. Fragrantes. Infinitas.
Os pomos saborosos, repartidos.
Os gomos. Os sumos ardorosos.
Os bosques impregnados de maresia.
A placidez molhada das ervas.
O luzir loiro das searas pelo vento devastadas.
O estio. O seu zénite. A sua vertigem.

Em ti a inclinação dos ramos. A translucidez do verde.
O derrame da seiva. O estremecer das raízes.
O musgo despontando. O aveludado dos troncos.
Os álamos. Os plátanos. E outras núbeis melodias.
O espreguiçar incandescente dos rios.
O êxtase das aves altas anunciando o fervor
de um beijo. De um afago. De uma carícia.
O hálito das corolas. As sépalas. Os estames.
O brilho e o odor silvestre da resina. A relva sedosa.
A primavera inebriada com sua própria brisa.

Em ti o menear da terra. As eiras. O feno flamante.
O irromper dos brotos. O despertar dos cálices.
A embriaguez do nardo. E da acácia, festiva.
O matiz das cores na várzea repercutido.
O som dos mananciais posto a descoberto.
O manar das fontes em euforia.
Os céus azuis a derramarem hinos.
O trinado agudo da andorinha.
O acenar obstinado dos choupos.
As centelhas rubras do crepúsculo.
O perfume juvenil das vinhas.

Em ti o delírio das ondas. Das espumas.
As fogueiras ateadas. Os aromas fulvos.
O sopro das chamas. O pão aceso. As espigas.
Os campos de lilases que se estendem
numa queimadura de aurora.
As pétalas humedecidas.
O incêndio azul do orvalho.
A alvura da açucena na manhã florida.

Em ti, amada, celebro a memória

de todas as coisas vivas.

Gonçalo Salvado

Mulher
Agosto 15, 2012

É por ti que escrevo que não és musa nem deusa
mas a mulher do meu horizonte
na imperfeição e na incoincidência do dia-a-dia
Por ti desejo o sossego oval
em que possas identificar-te na limpidez de um centro
em que a felicidade se revele como um jardim branco
onde reconheças a dália da tua identidade azul
É porque amo a cálida formosura do teu torso
a latitude pura da tua fronte
o teu olhar de água iluminada
o teu sorriso solar
é porque sem ti não conheceria o girassol do horizonte
nem a túmida integridade do trigo
que eu procuro as palavras fragrantes de um oásis
para a oferenda do meu sangue inquieto
onde pressinto a vermelha trajectória de um sol
que quer resplandecer em largas planícies
sulcado por um tranquilo rio sumptuoso

ANTÓNIO RAMOS ROSA, em O TEU ROSTO

Amor combate
Abril 25, 2012

Meu amor que eu não sei.

Amor que eu canto. Amor que eu digo.

Teus braços são a flor do aloendro.

Meu amor por quem parto.

Por quem fico. Por quem vivo.

Teus olhos são da cor do sofrimento.

Amor – país.

Quero cantar-te. Como quem diz:

O nosso amor é sangue.

É seiva. É sol. É Primavera.

Amor intenso. Amor imenso. Amor instante.

O nosso amor é uma arma. É uma espera.

O nosso amor é um cavalo alucinante.

O nosso amor é pássaro voando. Mas à toa.

Rasgando o céu azul-coragem de  Lisboa.

Amor partindo. Amor sorrindo. Amor doendo.

O nosso amor é como a flor do aloendro.

Deixa-me soltar estas palavras amarradas

para escrever com sangue o nome que inventei.

Romper. Ganhar a voz duma assentada.

Dizer de ti as coisas que eu não sei.

Amor. Amor. Amor.

Amor de tudo ou nada.

Amor-verdade. Amor-cidade.

Amor-combate. Amor-abril.

Este amor de  liberdade.

Joaquim  Pessoa

Talvez
Fevereiro 16, 2012

Talvez um destes dias
ao regressar por palavras desertas
de ausentes poemas
não encontre ninguém
real
que me abra a porta.

Talvez essa porta presa por um fio
no limiar do vento
se tenha já desvanecido
entre brumas e cansaços
ou talvez nem tenha existido,
um dia.

Os meus olhos cegos de ver
secarão, talvez.
O meu nome ter-se-á perdido
das vozes dos pássaros e ninguém
mais o pronunciará.

Há nisso um fio de sangue a verter,
uma mancha vermelha em redor de sonhos
desfigurados.
Mas há nisso ainda um leve estremecer,
uma pequena chama
a clamar por um sopro
que a faça incêndio.

LÍDIA BORGES