Cinzas/ I
Abril 18, 2017

A Poesia tem pés de terra.

.

Quando a atiramos para o céu

fica só e transida

no meio das estrelas

– a chorar com saudades dos homens

e da morte.

dreaming_myself_away_by_bellatina

José Gomes Ferreira

Aquela triste e leda madrugada
Março 17, 2017

Aquela triste e leda madrugada,
cheia toda de mágoa e de piedade,
enquanto houver no mundo saudade,
quero que seja sempre celebrada.

Ela só, quando amena e marchetada
saía, dando ao mundo claridade,
viu apartar-se de uma outra vontade,
que nunca poderá ver-se apartada.

Ela só viu as lágrimas em fio,
que duns e doutros olhos derivadas,
se acrescentaram em grande e largo rio;

Ela viu as palavras magoadas,
que puderam tornar o fogo frio,
e dar descanso as almas condenadas.

Luiz de Camões

Entre o luar e a folhagem
Junho 28, 2016

Entre o luar e a folhagem,
entre o sossego e o arvoredo,
entre o ser noite e haver aragem
passa um segredo.
Segue-o minha alma na passagem.

Ténue lembrança ou saudade,
princípio ou fim do que não foi,
não tem lugar, não tem verdade,
atrai e dói.
Segue-o meu ser em liberdade.

Vazio encanto ébrio de si!
Tristeza ou alegria o traz?
O que sou dele a quem sorri?
Não é nem faz.
Só de segui-lo me perdi.

sonho

Fernando Pessoa
19-8-1933

Conformismo
Fevereiro 1, 2016

Pendurado do resto de um cigarro,
– meio aceso, meio ardido –
desfaço-me na cinza dos dias que passam,
sem que eu passe além de mim,
desenhando saudades na penumbra da memória.
.
Saudades de um futuro que o fumo leva
e que dissolvo neste whisky,
velho de mágoas destiladas
nas altas terras das dores silenciadas.
.
Sentado no silêncio frio da pedra solitária,
rumino o lume brando que me cerca,
enquanto olho o mundo
pelas vidraças da alma embaciada,
e, acomodado, reflicto:
– “as coisas são o que são!”.

© Matt Wisniewski

Vítor Bento

Soneto do Escuro
Março 11, 2015

Amor, tenho saudades de outra vida

feita só de mil dias transparentes :

não te esqueças de mim se vires perdida

esta voz nas palavras mais ausentes.

.

Porque é perto da morte que escrevemos,

cada verso contém uma ameaça :

e a ternura maior que nos dizemos

é feita de penumbra fria e baça.

.

Se a voz se dá no verso e na medida

é o medo, meu amor, mais que a vontade :

o verso nada pode contra a vida ;

.

sabê-lo é a nossa liberdade.

É o medo que nos versos esconjuro

como riso vibrando no escuro.

escuro

Luís Filipe Castro Mendes

Dantes
Julho 28, 2014

Quando ia passear contigo ao campo,
tu ias sempre a rir e a cantar;
e lembra-me até uma cotovia
que um dia se calou pra te escutar,

enquanto eu apanhava os malmequeres
que nos cumprimentavam da estrada,
que, depois esfolhavas, impiedoso,
na eterna pergunta: muito ou nada?

Tu beijavas as f´ridas carminadas
que, em meus dedos, faziam os espinhos
das rosas que coravam, vergonhosas,
zangadas, de nos ver assim sozinhos.

Fitávamos as nuvens do espaço.
Que imensas! Que bonitas e que estranhas!
E ficávamos horas a pensar
se seriam castelos ou montanhas…

Que adoráveis canções de mimo e graça
os teus lábios proferiram a cantar!
tão mimosas, que as relvas da campina
ficavam pensativas a sonhar…

As fontes murmuravam docemente,
os teus beijos cantavam namorados;
cintilavam as pedras do caminho,
sorriam as flores pelos valados…

À hora sonhadora do poente
tinham maiores palpitações os ninhos.
Lembras-te? Íamos lavar as mãos,
vermelhas das amoras dos caminhos.

Eu brincava a correr atrás de ti;
uma sombra perseguindo um clarão…
E no seio da noite, os nossos passos
pareciam encher de sol a ’scuridão!

Olhando tanta estrela, tu dizias:
olha a chuva de prata que nos cobre!
Depois, numa expressão amarga e branda
recitavas, chorando, António Nobre!…

Eu tinha medo, um medo atroz infindo
de passar pelos campos a tal hora,
mas, olhando os teus olhos cintilantes,
a noite semelhava uma aurora!

E já passaram esses áureos tempos,
e já fugiu a nossa mocidade!…
Mas quando penso nesses dias lindos,
que tortura, minh’alma, e que saudade!

Em “Trocando olhares” 1915-1917
Florbela Espanca

DANTES</p><br />
<p>Quando ia passear contigo ao campo,<br /><br />
Tu ias sempre a rir e a cantar;<br /><br />
E lembra-me até uma cotovia<br /><br />
Que um dia se calou pra te escutar,</p><br />
<p>Enquanto eu apanhava os malmequeres<br /><br />
Que nos cumprimentavam da estrada,<br /><br />
Que, depois esfolhavas, impiedoso,<br /><br />
Na eterna pergunta: muito ou nada?</p><br />
<p>Tu beijavas as f´ridas carminadas<br /><br />
Que, em meus dedos, faziam os espinhos<br /><br />
Das rosas que coravam, vergonhosas,<br /><br />
Zangadas, de nos ver assim sozinhos.</p><br />
<p>Fitávamos as nuvens do espaço.<br /><br />
Que imensas! Que bonitas e que estranhas!<br /><br />
E ficávamos horas a pensar<br /><br />
Se seriam castelos ou montanhas...</p><br />
<p>Que adoráveis canções de mimo e graça<br /><br />
Os teus lábios proferiram a cantar!<br /><br />
Tão mimosas, que as relvas da campina<br /><br />
Ficavam pensativas a sonhar...</p><br />
<p>As fontes murmuravam docemente,<br /><br />
Os teus beijos cantavam namorados;<br /><br />
Cintilavam as pedras do caminho,<br /><br />
Sorriam as flores pelos valados...</p><br />
<p>À hora sonhadora do poente<br /><br />
Tinham maiores palpitações os ninhos.<br /><br />
Lembras-te? Íamos lavar as mãos,<br /><br />
Vermelhas das amoras dos caminhos.</p><br />
<p>Eu brincava a correr atrás de ti;<br /><br />
Uma sombra perseguindo um clarão...<br /><br />
E no seio da noite, os nossos passos<br /><br />
Pareciam encher de sol a ’scuridão!</p><br />
<p>Olhando tanta estrela, tu dizias:<br /><br />
Olha a chuva de prata que nos cobre!<br /><br />
Depois, numa expressão amarga e branda<br /><br />
Recitavas, chorando, António Nobre!...</p><br />
<p>Eu tinha medo, um medo atroz infindo<br /><br />
De passar pelos campos a tal hora,<br /><br />
Mas, olhando os teus olhos cintilantes,<br /><br />
A noite semelhava uma aurora!</p><br />
<p>E já passaram esses áureos tempos,<br /><br />
E já fugiu a nossa mocidade!...<br /><br />
Mas quando penso nesses dias lindos,<br /><br />
Que tortura, minh’alma, e que saudade!</p><br />
<p>In “Trocando olhares” 1915-1917<br /><br />
Editora Martin Claret</p><br />
<p>Florbela Espancaflorbelaespanca.thumbnail

Quando eu morrer
Fevereiro 20, 2014

Quando eu morrer, não digas a ninguém que foi por ti.

Cobre o meu corpo frio com um desses lençóis

que alagámos de beijos quando eram outras horas

nos relógios do mundo e não havia ainda quem soubesse

de nós; e leva-o depois para junto do mar, onde possa

ser apenas mais um poema – como esses que eu escrevia

assim que a madrugada se encostava aos vidros e eu

tinha medo de me deitar só com a tua sombra. Deixa

.

que nos meus braços pousem então as aves (que, como eu,

trazem entre as penas a saudade de um verão carregado

de paixões). E planta à minha volta uma fiada de rosas

brancas que chamem pelas abelhas, e um cordão de árvores

que preferem a noite – porque a morte deve ser clara

com o sal na bainha das ondas, e a cegueira sempre

me assustou (e eu já ceguei de amor, mas não contes

a ninguém que foi por ti). Quando eu morrer, deixa-me

.

a ver o mar do alto de um rochedo e não chores, nem

toques com os teus lábios a minha boca fria. E promete-me

que rasgas os meus versos em pedaços tão pequenos

como pequenos foram sempre os meus ódios; e que depois

os lanças na solidão de um arquipélago e partes sem olhar

para trás nenhuma vez: se alguém os vir de longe brilhando

na poeira, cuidará que são flores que o vento despiu, estrelas

que se escaparam das trevas, pingos de luz, lágrimas de sol,

as penas de um anjo que perdeu as asas por amor.

large

Maria do Rosário  Pedreira

Escrito num livro abandonado em viagem
Dezembro 18, 2013

Venho dos lados de Beja.

Vou para o meio de Lisboa.

Não trago nada e não acharei nada.

Tenho o cansaço antecipado do que não acharei,

e a saudade que sinto não é do passado nem do futuro.

Deixo escrita neste livro a imagem do meu desígnio morto:

fui, como ervas, e não me arrancaram.

Floresta virgem

Álvaro de Campos

Amigos e amantes
Setembro 24, 2013

Os amantes aparecem no verão, quando os amigos partiram
para o sul à sua procura, deixando um lugar vago
à mesa, um bilhete entalado na porta, as plantas,
o canário, um beijo e um livro emprestado: a memória
das suas biografias incompletas. Os amigos
desaparecem em agosto. Consomem-nos as labaredas do sol
e os amantes que chegam ao fim da tarde
jantam e de manhã ajudam a regar as raízes das avencas
que os amigos confiaram até setembro, quando regressam

 trazem saudades e um romance novo debaixo da língua.
Levam um beijo, os vasos, as gaiolas e os amantes
deixam um lugar vago na memória, cabelos na almofada,
uma carta, desculpas, e um livro de cabeceira que os
amigos lêem, pacientes, ocupando o seu lugar à mesa.mar_2

MARIA DO ROSÁRIO PEDREIRA,  em A CASA E O CHEIRO DOS LIVROS (Quetzal, 1996), in POESIA REUNIDA (Quetzal, 2012)

Saudade
Julho 14, 2012

Magoa-me a saudade
… do sobressalto dos corpos
ferindo-se de ternura
dói-me a distante lembrança
do teu vestido
caindo aos nossos pés

Magoa-me a saudade
do tempo em que te habitava
como o sal ocupa o mar
como a luz recolhendo-se
nas pupilas desatentas

Seja eu de novo a tua sombra, teu desejo,
tua noite sem remédio,
tua virtude, tua carência
eu, que longe de ti sou fraco
eu, que já fui água, seiva vegetal
sou agora gota trémula, raiz exposta

Traz
de novo, meu amor,
a transparência da água
dá ocupação à minha ternura vadia
mergulha os teus dedos
no feitiço do meu peito
e espanta na gruta funda de mim,
os animais que atormentam o meu sono

MIA COUTO, em  RAIZ DE ORVALHO E OUTROS POEMAS