Sede de água
Setembro 5, 2019

Em vez da morna crisálida

num casulo apoquentado,

antes ser canteiro regado

ao fim de uma tarde cálida.

.

Num sereno estar profundo,

empapado em poças de água.

Que esta sede imensa trago-a

desde o princípio do mundo.

campo-de-flores

António Gedeão

As Coisas
Agosto 3, 2019

Por aqui, por ali, à minha volta,

sobem montanhas de coisas antigas,

são quadros, são caixinhas, e das vigas

balançam fardas velhas de uma escolta.

.

Bengalas bem talhadas, uma ânfora,

trazem letras trançando-se sem nome,

nomes voam sem dono e a hora some

de um pêndulo em que o dobre cheira a cânfora.

.

Caveiras de marfim, pequenas tíbias,

ossinhos despojados de oratórios,

cachinhos e navetas e ostensórios,

tapetes que suspiram poeiras líbias,

.

junto a um nobre enrolado numa toga

cujo pano desfez-se em bronze velho

e que canta sem voz num vão de espelho

à luz de um castiçal de sinagoga,

.

enquanto um buda branco brilha e ri

e os meus olhos que bóiam numa taça

vão colhendo na sede do que passa

as flores que eu sonhei que já perdi.

intuition

Alexei Bueno

 

Ascensão
Abril 14, 2019

Beijava-te como se sobe uma escadaria:
pedra a pedra, do luminoso para o obscuro,
do mais visível para o mais recôndito
– até que os lábios fossem
não o ardor da sede, nem sequer a magia
da subida,
mas o tremor que é pétala do êxtase,
o lento desprender do sol do corpo
com o feliz quebranto dos meus dedos.

espiral

João Rui de Sousa

Podia ter sido
Julho 1, 2017

Podia ter sido o amor se não tivesse vindo
tão directamente da sede
um duplo rosto de enganos e os braços
que saíram desertos
o eco da morte reverbera na pele
com que vejo a tua ausência encher as ruas
um choro de papel cai pela terra
e nunca foi tão tarde ser depois.

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Pedro Sena-Lino

A verdadeira liberdade
Novembro 15, 2016

A liberdade, sim, a liberdade!
A verdadeira liberdade!
Pensar sem desejos nem convicções.
Ser dono de si mesmo sem influência de romances!
Existir sem Freud nem aeroplanos,
sem cabarets, nem na alma, sem velocidades, nem no cansaço!

A liberdade do vagar, do pensamento são, do amor às coisas naturais
a liberdade de amar a moral que é preciso dar à vida!
Como o luar quando as nuvens abrem
a grande liberdade cristã da minha infância que rezava
estende de repente sobre a terra inteira o seu manto de prata para mim…
A liberdade, a lucidez, o raciocínio coerente,
a noção jurídica da alma dos outros como humana,
a alegria de ter estas coisas, e poder outra vez
gozar os campos sem referência a coisa nenhuma
e beber água como se fosse todos os vinhos do mundo!

Passos todos passinhos de criança…
Sorriso da velha bondosa…
Apertar da mão do amigo [sério?]…
Que vida que tem sido a minha!
Quanto tempo de espera no apeadeiro!
Quanto viver pintado em impresso da vida!

Ah, tenho uma sede sã. Dêem-me a liberdade,
dêem-ma no púcaro velho de ao pé do pote
da casa do campo da minha velha infância…
Eu bebia e ele chiava,
Eu era fresco e ele era fresco,
E como eu não tinha nada que me ralasse, era livre.
Que é do púcaro e da inocência?
Que é de quem eu deveria ter sido?
E salvo este desejo de liberdade e de bem e de ar, que é de mim?”

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Álvaro de Campos   em   “Poemas (Inéditos)

Caminho sem regresso
Maio 16, 2016

Meus, perdidos, horizontes de lonjura e água,

bebedouro de sonhos, na antemanhã,

onde estais?

.

Tenho sede.

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Luísa  Dacosta

Poesia
Outubro 19, 2015

Onde a poesia se exibe como um espectáculo espectacular
não é poesia
onde a audácia do poema não é única
não é poesia
onde a poesia não é inocência de natureza fluvial
não é poesia
onde a poesia não é escandalosamente pura
não é poesia
onde a poesia não é filha do deserto nem da sede
não é poesia
onde a poesia não é presença viva que nasce da solidão e da ausência
não é poesia
onde a poesia não se oferece no seu abandono
não é poesia

.
Onde a poesia não é poesia
não é poesia

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António Ramos Rosa

Outro Poema de Natal
Dezembro 24, 2014

A alegria permanece incompleta

enquanto os anos te vincam a face,

mas não existe um único dia de Natal

em que ela não nasça.

.

O horizonte esplêndido mata a nossa sede

de um outro horizonte,

e o meu grande amor à alegria renova-se

com um fio de água no teu rosto.

Natal

Joel  Henriques

Quatro estações
Julho 2, 2014

Há uma impressão de cinza nas mãos

que aperto, com a força do vento, como

se não tivesse passado a sombra que as

anima, levando com ela o sonho em que a vi.

.

E sinto ainda um fulgor de lume nos

meus dedos, como se tivesse voltado

a quente ansiedade de outrora, e a sede

em que o desejo encontrava a sua fonte.

.

Um corpo que passou por mim, e me

esgotou a alma, perpassa na inspiração

em que a vida reencontra um rumo de campo:

.

com a melancolia do outono, a corrupção

do inverno, a maré florida da primavera,

e o êxtase dos frutos na colheita do verão.

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Nuno  Júdice

Nós somos
Julho 25, 2012

Como uma pequena lâmpada subsiste
… e marcha no vento, nestes dias,
na vereda das noites, sob as pálpebras do tempo,

caminhamos, um país sussurra,
dificilmente nas calçadas, nos quartos,
um país puro existe, homens escuros,
uma sede que arfa, uma cor que desponta no muro,
uma terra existe nesta terra,
nós somos, existimos.

Como uma pequena gota às vezes no vazio,
como alguém só no mar, caminhando esquecidos,
na miséria dos dias, nos degraus desconjuntados,
subsiste uma palavra, uma sílaba de vento,
uma pálida lâmpada ao fundo do corredor,
uma frescura de nada, nos cabelos nos olhos,
uma voz num portal e a manhã é de sol,
nós somos, existimos.

Uma pequena ponte, uma lâmpada, um punho,
uma carta que segue, um bom dia que chega,
hoje, amanhã, ainda, a vida continua,
no silêncio, nas ruas, nos quartos, dia a dia,
nas mãos que se dão, nos punhos torturados,
nas frontes que persistem,
nós somos,
existimos.

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ANTÓNIO RAMOS ROSA,  em  SOBRE O ROSTO DA TERRA (1961)