O silêncio
Maio 31, 2017

O silêncio dói como pedra na língua.

A vida por vezes não tem esperança nem sentido,

tudo parece em paz e no entanto o amor

tem sempre uma mais fria recompensa.

Desde a primeira flor, pouco ainda mudou

essa face da noite com a face do Homem.

O rouxinol canta, sim, a dor do Homem canta

e à força de a esquecer aprende-se a esquecer.

O silêncio é de passos que atormentam a noite

e que ao fundo do fogo vão buscar a luz

para fazer arder as horas até ao orvalho

onde a manhã se ri com os dentes da água.

Às vezes vagueia pelo pomar da noite

uma égua perdida numa nesga de luz,

é a dor que pergunta e procura uma casa

junto à erva do peito, sob os olhos calados.

novembro2

Joaquim Pessoa

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Talvez de noite
Novembro 27, 2016

À minha volta tudo envelheceu

como se fosse eu, e no entanto

uma casa, ou um espaço em branco

entre as palavras, ou uma possibilidade de sentido.

Pois nada

surge com a sua própria forma.

Digo ‘casa’, mas refiro-me a luas e umbrais,

a lembranças extenuadas,

às trevas do corpo, lúcidas,

latejando na obscuridade de quartos interiores.

E digo ‘palavras’ porque

não sei que coisa chamar

à mudez do mundo.

E digo  ‘sentido’ sufocado

sob o pensamento

tentando respirar

a golpes de coração,

agora que se desmorona a casa

sobre todas as palavras possíveis.

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Manuel António Pina

Bemol
Maio 9, 2016

acordei bemol
tudo estava sustenido
sol fazia
só não fazia sentido

triste

Paulo Leminski

Perfilados de medo
Fevereiro 15, 2016

Perfilados de medo, agradecemos
o medo que nos salva da loucura.
Decisão e coragem valem menos,
e vida sem viver é mais segura.
.
Aventureiros já sem aventura,
perfilados de medo, combatemos
irónicos fantasmas à procura
do que não somos, do que não seremos.
.
Perfilados de medo, sem mais voz,
o coração nos dentes oprimido,
os loucos, os fantasmas somos nós.
.
Rebanho pelo medo perseguido,
já vivemos tão juntos e tão sós
que da vida perdemos o sentido.

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Alexandre O’Neill

O lado de fora
Setembro 25, 2014

Eu não procuro nada em ti,

nem a mim próprio, é algo em ti

que procura algo em ti

no labirinto dos meus pensamentos.

.

Eu estou entre ti e ti,

a minha vida, os meus sentidos

(principalmente os meus sentidos)

toldam de sombras o teu rosto.

.

O meu rosto não reflecte a tua imagem,

o meu silêncio não te deixa falar,

o meu corpo não deixa que se juntem

as partes dispersas de ti em mim.

.

Eu sou talvez

aquele que procuras,

e as minhas dúvidas a tua voz

chamando do fundo do meu coração.

rosto

Manuel  António  Pina

Contigo
Agosto 8, 2014

Sou eu, sou eu que não durmo,
contigo nos sentidos.
Sinto-te caminhar sobre as águas
do meu corpo – não sejas queimadura
nem boca do deserto.
Nenhum amor é estéril, um filho
pode ser uma estrela ou ser um verso.

we-are-all-poets
Eugénio de Andrade.

Gestos
Junho 25, 2014

Gestos,

apenas gestos. A minuciosa ternura

posta nas coisas imediatas,

nas que duram contra a noite,

nas que acendem lâmpadas precárias

e contêm o silêncio,

como se música fossem

e nela nos viéssemos

perder.

.

Gestos,

tu ouves?

Nem o teu coração pode dar guarida

a tanto silêncio da terra.

.

Se agora mesmo devagar nos anoitecesse

e se, mergulhados numa aguda nostalgia

ou na recordação de um rosto,

nos desencontrássemos do mundo,

só esse gesto viria resgatar-nos,

a nós, feridos de amor e de sentido.

.

Por isso, hoje só posso dizer

o que o teu coração abandonou.

mao1

Luís Filipe Castro Mendes

A perfeição
Outubro 8, 2013

O que me tranquiliza

é que tudo o que existe

existe com uma precisão absoluta.

.

O que for do tamanho de uma cabeça de alfinete

não transborda nem uma fracção de milímetro

além do tamanho de uma cabeça de alfinete.

.

Tudo o que existe é de uma grande exatidão.

Pena é que a maior parte do que existe

com essa exatidão

nos é tecnicamente invisível.

O bom é que a verdade chega a nós

como um sentido secreto das coisas.

.

Nós terminamos adivinhando, confusos,

a perfeição.

cerejeira-em-flor

Clarice  Lispector

X
Março 21, 2013

Bravo pássaro que passaste e passarás

azul, a sul, sob o sólido sol da solidão.

Pássaro dos sentidos, do sentido da vida,

para todo o sempre não é para ti mais que a travessia da noite ao amanhecer.

Mas eu sigo-te, ó senhor de nada, tu que te alimentas de pedacinhos de céu,

irmão de tudo o que em mim também voa e também canta,

timidez emplumada onde brilham as cores dos frutos e do mundo.

.

Aparece, ó pássaro de mim, em mim, poisa

no que resta da minha alegria, nos ramos da minha carne,

e canta, canta de uma forma irreparável

o meu canto e o canto alheio,

o meu grito e a vontade que tenho de chorar.

Com uma força destruidora da virtude,

ultrapassa a luz, ultrapassa o pensamento,

inscreve as minhas interrogações, as minhas dúvidas

na fadiga das horas, escreve com o teu bico celeste

o meu epitáfio, um poema

de amor para a mulher que me prendeu e me fez livre,

a que vive em mim, a que acredita em mim,

a que como tu desafia as manhãs e surpreende a noite,

a minha amada, pássaro, a mulher que eu amo

como os poetas amam a liberdade de alguns pássaros

e de todos os pobres.

.

Joaquim  Pessoa

Carta a Sophia
Outubro 14, 2012

CARTA A SOPHIA
OU
O QUINTO POEMA DO PORTUGUÊS ERRANTE

… Querida Sophia: como os índios do seu poema
também eu procurei o país sem mal.
Em dez anos de exílio o imaginei
como os índios utópicos também eu queria
um outro Portugal em Portugal.
Mas quando regressei eu não o vi
como eles me perdi e nunca achei
o país sem mal.

Talvez a própria vida seja isto
passar montanha e mar sem se dar conta
de que o único sentido é procurar.
Como os índios do seu poema eu não desisto
sou um português errante a caminhar
em busca do país que não se encontra.

MANUEL ALEGRE,  em  LIVRO DO PORTUGUÊS ERRANTE