Eu queria
Agosto 21, 2020

Eu queria ter o tempo e sossego suficientes

para não pensar em coisa nenhuma,

para nem me sentir viver,

para só saber de mim nos olhos dos outros.

mulherrosa

Alberto Caeiro   em   Poemas Inconjuntos

deixa
Janeiro 17, 2019

deixa que as palavras
te procurem
trazidas pelo sentir
de tudo

será poema se for
que isso te não preocupe

deixa que os olhos poisem
sobre tudo em tudo penetrem
e tragam consigo o seres

nada é novo
senão o teu olhar
o teu sentir

o teu dizer
nada acrescenta
a coisa nenhuma

por isso
deixa que as palavras
sejam em ti

0 ahcravo_DSC_6406 regata moliceiros

A. H. Cravo

Suavidade
Janeiro 22, 2018

Não digas nada!
Nem mesmo a verdade
Há tanta suavidade em nada se dizer
e tudo se entender —
tudo metade
de sentir e de ver…
Não digas nada.
Deixa esquecer.

Talvez que amanhã
em outra paisagem
digas que foi vã
toda essa viagem
até onde quis
ser quem me agrada…
Mas ali fui feliz.
Não digas nada!

Fernando Pessoa    em    “Cancioneiro”

Se eu pudesse
Julho 22, 2016

Se eu pudesse trincar a terra toda
e sentir-lhe um paladar
seria mais feliz um momento
mas eu nem sempre quero ser feliz.

E preciso ser de vez em quando infeliz
para poder ser natural…
Nem tudo são dias de sol
e a chuva, quando falta muito, pede-se.
Por isso tomo a infelicidade com a felicidade
naturalmente, como quem não estranha
que haja montanhas e planícies
e que haja rochedos e erva…

O que é preciso é ser-se natural e calmo
na felicidade ou infelicidade.
Sentir como quem olha.
Pensar como quem anda.
E quando se vai morrer, lembrar-se que o dia morre,
e que o poente é belo e é bela a noite que fica.
Assim é e assim seja…

arame

Alberto Caeiro

Segredo
Fevereiro 25, 2015

(…)

Tens um segredo? Dize-mo, que eu sei tudo

de ti, quando m’o digas com a alma.

Em palavras estranhas que mo fales,

eu compreenderei só porque te amo.

Se o teu segredo é triste, eu saberei

chorar contigo até que o esqueças todo.

Se o não podes dizer, dize que me amas,

e eu sentirei sem qu’rer o teu segredo.

Quando eu era pequena, sinto que eu

amava-te já hoje, mas de longe,

como as coisas se podem ver de longe,

e ser-se feliz só por se pensar

em chegar onde ainda não se chega.

Amor, diz qualquer coisa que eu te sinta!

Amar é...

Fernando Pessoa

escrevo-te a sentir tudo isto
Janeiro 21, 2014

escrevo-te a sentir tudo isto
e num instante de maior lucidez poderia ser o rio
as cabras escondendo o delicado tilintar dos guizos nos sais de prata da
fotografia
poderia erguer-me como o castanheiro dos contos sussurrados junto
ao fogo
e deambular trémulo com as aves
ou acompanhar a sulfúrica borboleta revelando-se na saliva do lábios
poderia imitar aquele pastor
ou confundir-me com o sonho de cidade que a pouco e pouco morde a
sua imobilidade

habito neste país de água por engano
são-me necessárias imagens radiografias de ossos
rostos desfocados
mãos sobre corpos impressos no papel e nos espelhos
repara
nada mais possuo
a não ser este recado que hoje segue manchado de finos bagos de romã
repara
como o coração de papel amareleceu no esquecimento de te amar.

let it go

AL BERTO, em O MEDO (1987)

Dizem que finjo ou minto
Março 18, 2012

Dizem que finjo ou minto 
tudo que escrevo. Não. 
Eu simplesmente sinto 
com a imaginação. 
Não uso o coração. 

Tudo o que sonho ou passo, 
o que me falha ou finda, 
é como que um terraço 
sobre outra coisa ainda. 
Essa coisa é que é linda. 

Por isso escrevo em meio 
do que não está ao pé, 
Livre do meu enleio, 

sério do que não é, 
Sentir, sinta quem lê! 

Fernando Pessoa,   em “Cancioneiro”

Afirmação triste
Fevereiro 21, 2012

Já fiz as pazes contigo ;

e se algum ressentimento

entre nós, pode surgir,

a culpa –

não será do que fizermos

de hoje em diante

– apenas, possivelmente,

do que os nossos corações

teimarem

muito em silêncio sentir.

.

Contudo,

não podemos protestar:

o sofrimento passa, meu amor ;

mas a lembrança de ter sofrido

quem é que a pode arrancar?

António  Botto