a rosa, timbres
Maio 19, 2020

e o outro silêncio enquanto o som repousa:

desfez-se o seu rebordo numa espuma.

de que sombra dos sons se faz a rosa?

da matéria das sombras? de nenhuma?

.

de que fosco murmúrio, cristal, bruma?

de que espirais de noite vagarosa?

do coração desfeito? ou não costuma

a luz gravar-se em sombras numa lousa?

.

coração rouco, o coração, falhada,

a voz vinda do vento se desate

num ramo de penumbras, descontínuo,

.

o mundo passe a ser feito de nada,

só de efémeras rosas a rebate,

como gritos de sangue no destino.

rosas fogo

Vasco Graça Moura

Na melancolia de teus olhos
Fevereiro 14, 2020

Na melancolia de teus olhos
eu sinto a noite se inclinar
e ouço as cantigas antigas
do mar.
.
Nos frios espaços de teus braços
eu me perco em carícias de água
e durmo escutando em vão
o silêncio.
.
E anseio em teu misterioso seio
na atonia das ondas redondas.
Náufrago entregue ao fluxo forte
da morte.

Vinicius de Moraes

Não sei
Dezembro 17, 2019

Não sei se a vida é curta

ou longa para nós,

mas sei que nada

do que vivemos tem sentido,

se não tocarmos o coração das pessoas.

Muitas vezes basta ser:

o colo que acolhe,

o braço que envolve,

a palavra que conforta,

o silêncio que respeita,

a alegria que contagia,

a lágrima que corre,

o olhar que acaricia,

o desejo que sacia,

o amor que promove.

E isso não é coisa de outro mundo,

é o que dá sentido à vida.

É o que faz com que ela não

seja nem curta, nem longa demais,

mas que seja intensa, verdadeira,

pura enquanto durar.

abraço

Cora Coralina

Mar
Novembro 23, 2019

Na melancolia de teus olhos

eu sinto a noite se inclinar

e ouço as cantigas antigas

do mar.

.

Nos frios espaços de teus braços

eu me perco em carícias de água

e durmo escutando em vão

o silêncio.

.

E anseio em teu misterioso seio

na atonia das ondas redondas

náufrago entregue ao fluxo forte

da morte.

Mar e rochas

Vinicius de Moraes

E de novo
Outubro 28, 2019

E de novo a armadilha dos abraços.

E de novo o enredo das delícias.

O rouco da garganta, os pés descalços

a pele alucinada de carícias.

.

As preces, os segredos, as risadas

no altar esplendoroso das ofertas.

De novo beijo a beijo as madrugadas

de novo seio a seio as descobertas.

.

Alcandorada no teu corpo imenso

teço um colar de gritos e silêncios

a ecoar no som dos precipícios.

.

E tudo o que me dás eu te devolvo

E fazemos de novo, sempre novo

o amor total dos deuses e dos bichos.

coração 3

Rosa Lobato de Faria

Esperança amorosa
Outubro 16, 2019

Grato silêncio, trémulo arvoredo,
sombra propícia aos crimes e aos amores.
Hoje serei feliz! – Longe, temores,
longe, fantasmas, ilusões do medo.
.
Sabei, amigos Zéfiros, que cedo
entre os braços de Nise, entre estas flores,
furtivas glórias, tácitos favores,
hei-de enfim possuir: porém, segredo!
.
Nas asas frouxos ais, brandos queixumes
não leveis, não façais isto patente,
quem nem quero que o saiba o pai dos numes.
.
Cale-se o caso a Jove omnipotente,
porque, se ele o souber, terá ciúmes,
vibrará contra mim seu raio ardente…

Bocage

Silêncio
Setembro 12, 2019

Sem que eu soubesse,
as coisas não ditas haviam crescido
como cogumelos venenosos
nas paredes do silêncio.

 Lya Luft     em    O Silêncio dos Amantes 

A mulher mais bonita do mundo
Maio 12, 2019

estás tão bonita hoje. quando digo que nasceram
flores novas na terra do jardim, quero dizer
que estás bonita.

entro na casa, entro no quarto, abro o armário,
abro uma gaveta, abro uma caixa onde está o teu fio
de ouro.

entre os dedos, seguro o teu fino fio de ouro, como
se tocasse a pele do teu pescoço.

há o céu, a casa, o quarto, e tu estás dentro de mim.

estás tão bonita hoje.

os teus cabelos, a testa, os olhos, o nariz, os lábios.

estás dentro de algo que está dentro de todas as
coisas, a minha voz nomeia-te para descrever
a beleza.

os teus cabelos, a testa, os olhos, o nariz, os lábios.

de encontro ao silêncio, dentro do mundo,
estás tão bonita é aquilo que quero dizer.

José Luis Peixoto

Entre mim e a vida
Março 8, 2019

Já não escrevo sem algo entre mim e a vida:

olho a paisagem,

há inúmeros campos,

regresso a casa pelas estradas de terra,

tropeço em cada pedra.

O sangue do horizonte circula

nas minhas veias,

mas canto a natureza entre mim e a vida.

.

Se volto ao refúgio das paredes domésticas,

surge o teu semblante

no percurso

(é uma realidade,

esqueci as personagens fictícias).

Quero dizer o rosto do último lugar

habitável

e pronuncio o teu nome, perdido.

.

Quando era menos incompleto

trabalhava os poemas

até ao silêncio,

para que dissessem o rumor inaudito,

agora vêm das nascentes

sem a contagem das sílabas.

Consciente da origem e do fim,

de nada separado,

digo milhares de palavras entre mim e a vida.

natureza_rio

Joel  Henriques

Não sei de onde veio
Fevereiro 24, 2019

“Só sei que o sonho nunca tem pressa.”

Foi nessa idade que a poesia me veio buscar
Não sei de onde veio
do inverno, de um rio
Não sei como nem quando
Não, não eram vozes
não eram palavras
nem silêncio
Mas da rua fui convocado
dos galhos da noite
abruptamente entre outros
Entre fogos violentos
voltando sozinho
lá estava eu sem rosto
E fui tocado.

noite-de-luar


Pablo Neruda