vens
Janeiro 2, 2017

 

vens

caindo

pela dor

acomodando

 

nuas palavras

à ferida de ter

perdido, a face é

pequena para sentir

 

o que em nós sobrevive

no instante em que a voz

desce as sombras desse dia

 

onde voltar já não se escreve

com medo das marés. Podes agora

subir: é como estar (de novo)  na luz

triste

 

João Luís Barreto Guimarães

 

 

 

Epitáfio
Março 5, 2015

eu não deixo nada feito

fica tudo por fazer

que eu passei parte da vida

a tentar sobreviver

a outra parte a dormir

e outra parte a comer

ou então a fazer coisas

que não vou aqui dizer

mas não deixo nada feito

fica tudo por fazer

.

eu não deixo nada escrito

fica tudo por escrever

que eu passei parte da vida

a aprender a saber ler

seria muita arrogância

eu pôr-me agora a escrever

e em verdade se diga

que tive mais que fazer

mas não deixo nada escrito

fica tudo por escrever

.

e até o que foi dito

do que se diz por dizer

às coisas mais delicadas

que põem um tipo a pensar

duvido que alguma coisa

fosse assim tão singular

ou que ainda um dia se diga

sim senhor gostei de ouvir

por isso, p’ra resumir

digo-te sem cortesias

aqui jaz o malaquias

.

viesses mais cedo e ainda o vias

time 2

Pedro Malaquias

As agonias do desejo
Janeiro 26, 2015

o dia a dia aperta aperta que nem

cordas cordéis ou outras mortas

coisas espertas não apertam

.

o dia a dia devolve-nos ao nada

sem metas físicas sem algas de conserva

somos servos do seu apertar

.

e tão estreito fica no cotovelo o

aperto do peito que não há jeito

de um dia o dia a dia adiar o

.

nó que nos lançou o laço que

no esófago afoga o coração pulmões

sem vento e os olhos sem invento

.

o dia a dia é noite noite sem

noite má maré sem mar

bardies

vamos ver que nos reserva o ver

quando amanhece noite e em verdade

nada se vislumbra

.

vamos a encontrar que nos reserva

o encontro vamos no contra ver

a ver que tem a ver o olhar

.

vamos andando como quem tacteia

o tom do tacto com o tecto baixo

destas nuvens caindo no contacto

.

das mãos das coisas e dos casos

vamos regressar lentamente ao

encanto de não saber sobreviver

.

descobrindo o que recobre o ar

o que cobre o contacto do voar

E. M. de Melo e Castro