Se a desgraça chegar
Janeiro 20, 2016

Um homem só é homem se persiste,
se luta, se contesta, se ultrapassa
a angústia agreste do minuto triste
que traz a solidão e a desgraça.
.
Eu que conheço tudo quanto existe
e por tudo passei (e a gente passa),
acredito naquele que conquiste
no sofrimento a força de uma raça.
.
A minha raça. Raça destroçada
mas corajosa, que tem tudo e nada,
o mar e a areia dos desertos.
.
Homem, aconteça o que aconteça,
se a desgraça chegar, ergue a cabeça
e vai em frente, de olhos bem abertos.

homem-tristeza

Sidónio Muralha

Poema Quadragésimo Sexto
Junho 19, 2014

violeta 2

Peço-te. Não pises as violetas
que trago no olhar.

Falemos dos brilhos estilhaçados
desta casa súbita que é o teu corpo
devoluto. A noite devora as palavras possíveis,
o sofrimento que pulsa em tua boca
e torna a minha boca vulnerável.
O amor é um nada que a liberta, uma luz
que desce dos ombros para o ventre
e fecunda as sementes da tua virgindade,
essa que faz agora parte de uma dor quase
amigável, na lividez do tempo,
e que entregas em minhas mãos, beijando-as,
tornando-te parte dos meus versos, da
minha forma mais profunda de gostar
de ti. Amar-te, é escrever-te.
Amar-te é deixar que me toques até ser teu,
até que te deites no meu corpo e adormeças
inteira dentro de mim. Peço-te. Não pises as violetas
que trago no olhar. Cheiram a ti. São para ti.
Um “bouquet” de palavras que floriram
neste tempo de amor..
JOAQUIM PESSOA,   em   GUARDAR O FOGO

Ao amor antigo
Julho 15, 2013

O amor antigo vive de si mesmo,

não de cultivo alheio ou de presença.

Nada exige nem pede. Nada espera,

mas do destino vão nega a sentença.

.

O amor antigo tem raízes fundas,

feitas de sofrimento e de beleza.

Por aquelas mergulha no infinito,

e por estas suplanta a natureza.

.

Se em toda parte o tempo desmorona

aquilo que foi grande e deslumbrante,

a antigo amor, porém, nunca fenece

e a cada dia surge mais amante.

.

Mais ardente, mas pobre de esperança.

Mais triste? Não. Ele venceu a dor,

e resplandece no seu canto obscuro,

tanto mais velho quanto mais amor.

mandala-amor

Carlos Drummond de Andrade

Poema primeiro
Novembro 28, 2012


Gosto-te. E desta certeza
se abre a manhã como uma imensa
rosa de desejo indestrutível. O futuro
é o próximo minuto, para além
da infatigável religião dos meus versos,
em cuja luz me acendo, feliz e nu.
O meu sorriso conhece a bondade
dos animais, o poder frágil das corolas,
e repete o nome feminino dos arcanjos de
peitos redondos, perfumados
pelas giestas dos caminhos
do céu.

Gosto-te. Amarrado
pelos meus braços de beduíno do sol,
pobre senhor dos desertos,
profeta da distância que há dentro das palavras,
onde se alongam sombras
e o sofrimento se estende até à orla
da mais inquieta serenidade.

Gosto-te. E tenho sido
feliz, por nunca ter seguido os trilhos
que me quiseram destinar. Aqui
e ali me pergunto, despudoradamente. E sei
que não sei mentir. É por isso,
que recolho na face a luz imprescindível
ao orgulho dos peixes
e dos frutos.

Gosto-te. Na-na-na, na-ô…
Na-na-na, na-ô… na-nô…
Canta o espírito do caminho,
canta para mim e canta para ti, eleva
o coração das grandes árvores, coração
de seiva e de coragem,
sangue fresco e verde, apaixonado
e doce,
de tanto contemplar o perfil das tardes.

Gosto-te. Mas “longe”
é uma palavra húmida, grávida,
onde os sinos da erva tocam
para convocar as sílabas. E,
ao procurar-te, tremo apenas
de ternura
para que nem mesmo a inteligente brisa
da manhã
possa dar por mim.
Mais discreto que isto
é impossível.

*

JOAQUIM PESSOA,  em  GUARDAR O FOGO

Amor combate
Abril 25, 2012

Meu amor que eu não sei.

Amor que eu canto. Amor que eu digo.

Teus braços são a flor do aloendro.

Meu amor por quem parto.

Por quem fico. Por quem vivo.

Teus olhos são da cor do sofrimento.

Amor – país.

Quero cantar-te. Como quem diz:

O nosso amor é sangue.

É seiva. É sol. É Primavera.

Amor intenso. Amor imenso. Amor instante.

O nosso amor é uma arma. É uma espera.

O nosso amor é um cavalo alucinante.

O nosso amor é pássaro voando. Mas à toa.

Rasgando o céu azul-coragem de  Lisboa.

Amor partindo. Amor sorrindo. Amor doendo.

O nosso amor é como a flor do aloendro.

Deixa-me soltar estas palavras amarradas

para escrever com sangue o nome que inventei.

Romper. Ganhar a voz duma assentada.

Dizer de ti as coisas que eu não sei.

Amor. Amor. Amor.

Amor de tudo ou nada.

Amor-verdade. Amor-cidade.

Amor-combate. Amor-abril.

Este amor de  liberdade.

Joaquim  Pessoa

Dia 46
Março 12, 2012

São as pessoas como tu que fazem com que o nada queira dizer-nos algo, as coisas vulgares se tornem coisas importantes e as preocupações maiores sejam de facto mais pequenas.

… São as pessoas como tu que dão outra dimensão aos dias, transformando a chuva em delirante orvalho e fazendo do inverno uma estação de rosas rubras.

As pessoas como tu possuem não uma, mas todas as vidas.
Pessoas que amam e se entregam porque amar é também partilhar as mãos e o corpo.
Pessoas que nos escutam e nos beijam e sabem transformar o cansaço numa esperança aliciante, tocando-nos o rosto com dedos de água pura, soltando-nos os cabelos com a leveza do pássaro ou a firmeza da flecha.

São as pessoas como tu que nos respiram e nos fazem inspirar com elas o azul que há no dorso das manhãs, e nos estendem os braços e nos apertam até sentirmos o coração transformar o peito numa música infinita.

São as pessoas como tu que nunca nos pedem nada mas têm sempre tudo para dar, e que fazem de nós nem ícaros nem prisioneiros, mas homens e mulheres com a estatura da vida, capazes da beleza e da justiça, do sofrimento e do amor.

São as pessoas como tu que, interrogando-nos, se interrogam, e encontram respostas para todas as perguntas nos nossos olhos e no nosso coração.

As pessoas que por toda a parte deixam uma flor para que ela possa levar beleza e ternura a outras mãos.
Essas pessoas que estão sempre ao nosso lado para nos ensinar em todos os momentos, ou em qualquer momento, a não sentir o medo, a reparar num gesto, a escutar um violino.

São as pessoas como tu que ajudam a transformar o mundo.

couple2
Joaquim  Pessoa  em  Ano Comum

Afirmação triste
Fevereiro 21, 2012

Já fiz as pazes contigo ;

e se algum ressentimento

entre nós, pode surgir,

a culpa –

não será do que fizermos

de hoje em diante

– apenas, possivelmente,

do que os nossos corações

teimarem

muito em silêncio sentir.

.

Contudo,

não podemos protestar:

o sofrimento passa, meu amor ;

mas a lembrança de ter sofrido

quem é que a pode arrancar?

António  Botto

Lembro-me bem do seu olhar
Novembro 26, 2011

Lembro-me bem do seu olhar.
Ele atravessa ainda a minha alma,
como um risco de fogo na noite.
Lembro-me bem do seu olhar. O resto…
Sim, o resto parece-se apenas com a vida.

Ontem, passei nas ruas como qualquer pessoa.
Olhei para as montras despreocupadamente
e  não encontrei amigos com quem falar.
De repente vi que estava triste, mortalmente triste,
tão triste que me pareceu que me seria impossível
viver amanhã, não porque morresse ou me matasse,
mas porque seria impossível viver amanhã e mais nada.

Fumo, sonho, recostado na poltrona.

Dói-me viver como uma posição incómoda.
Deve haver ilhas lá para o sul das coisas
onde sofrer seja uma coisa mais suave,
onde viver custe menos ao pensamento,
e onde a gente possa fechar os olhos e adormecer ao sol
e acordar sem ter que pensar em responsabilidades sociais
nem no dia do mês ou da semana que é hoje.

Abrigo no peito, como a um inimigo que temo ofender,
um coração exageradamente espontâneo,
que sente tudo o que eu sonho como se fosse real,
que bate com o pé a melodia das canções que o meu pensamento canta,
canções tristes, como as ruas estreitas quando chove.

Fernando Pessoa

Quando eu me amei de verdade
Setembro 29, 2011


Quando eu me amei de verdade,

compreendi que em qualquer circunstância,

eu estava no lugar no lugar certo e na hora certa

e então pude ficar tranquilo.

Hoje sei que a isso se chama Auto-estima.

Quando eu me amei de verdade,

pude perceber que a minha angústia e sofrimento

não passam de um sinal de que estou a contrariar a minha verdade.

Hoje sei que a isso se chama Autenticidade.

Quando eu me amei de verdade,

parei de desejar que a vida fosse diferente,

e comecei a ver que tudo contribui para o crescimento.

Hoje sei que a isso se chama Amadurecimento.

Quando eu me amei de verdade,

percebi que é ofensivo forçar algo ou alguém a uma situação.

Hoje sei que a isso se chama Respeito.

Quando eu me amei de verdade,

comecei a livrar-me de tudo o que me diminuísse.

De início pensei que fosse egoísmo.

Hoje sei que a isso se chama Amor-próprio.

Quando eu me amei de verdade,

deixei de fazer grandes planos.

Hoje faço o que gosto, quando quero e no meu ritmo.

Hoje sei que a isso se chama Simplicidade.

Quando eu me amei de verdade,

desisti de querer ter sempre razão,

e com isso errei menos vezes.

Hoje sei que a isso se chama Humildade.

Quando eu me amei de verdade,

desisti de ficar só no passado e de me preocupar tanto com o futuro.

Agora mantenho-me mais no presente.

Hoje sei que a isso se chama Plenitude.

Charlie Chaplin

A uma mulher
Maio 18, 2011

Quando a madrugada entrou eu estendi o meu peito nu sobre o teu peito
estavas trémula e teu rosto pálido e tuas mãos frias
e a angústia do regresso morava já nos teus olhos.
Tive piedade do teu destino que era morrer no meu destino
quis afastar por um segundo de ti o fardo da carne
quis beijar-te num vago carinho agradecido.
Mas quando meus lábios tocaram teus lábios
eu compreendi que a morte já estava no teu corpo
e que era preciso fugir para não perder o único instante
em que foste realmente a ausência de sofrimento
em que realmente foste a serenidade.

 

Vinicius  de  Moraes