Abraça-me
Agosto 8, 2018

Abraça-me.

Quero ouvir o vento que vem da tua pele,

e ver o sol nascer do intenso calor dos nossos corpos.

Quando me perfumo assim, em ti,

nada existe a não ser este relâmpago feliz,

esta maçã azul que foi colhida na palidez de todos os caminhos,

e que ambos mordemos para provar

o sabor que tem a carne incandescente das estrelas.

.

Abraça-me.

Veste o meu corpo de ti,

para que em ti eu possa buscar o sentido dos sentidos,

o sentido da vida.

Procura-me com os teus antigos braços de criança,

para desamarrar em mim a eternidade,

essa soma formidável de todos os momentos livres

que a um e a outro pertenceram.

.

Abraça-me.

Quero morrer de ti em mim, espantado de amor.

Dá-me a beber, antes, a água dos teus beijos,

para que possa levá-la comigo

e oferecê-la aos astros pequeninos. 
Só essa água fará reconhecer o mais profundo,

o mais intenso amor do universo,

e eu quero que delem fiquem a saber

até as estrelas mais antigas e brilhantes. 

.
Abraça-me.

Uma vez mais. Uma vez só.

.

Uma vez que nem sei se tu existes.

 


Joaquim Pessoa    em   Ano Comum

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Explicação
Julho 13, 2018

Só isto : trouxeste sol e calor

quando fazia frio…

.

Agora, de novo

alguém para se querer, para se chamar

de querida.

.

Só isto : trouxeste uma flor

e a fizeste crescer e desabrochar

neste ramo vazio

que era a minha vida.

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J. G. Araújo Jorge

Ninguém
Junho 24, 2018

Ninguém, meu amor,
ninguém como nós conhece o sol.
Podem utilizá-lo nos espelhos,
apagar com ele
os barcos de papel nos nossos lagos,
podem obrigá-lo a parar
à entrada das casas mais baixas,
podem ainda fazer
com que a noite gravite
hoje do mesmo lado.
.
Mas ninguém, meu amor,
ninguém como nós conhece o sol.
Até que o sol degole
o horizonte em que um a um
nos deitam
vendando-nos os olhos.

sol nas mãos

Sebastião da Gama

Ergo uma rosa
Maio 16, 2018

Ergo uma rosa, e tudo se ilumina
como a lua não faz nem o sol pode:
cobra de luz ardente e enroscada
ou ventos de cabelos que sacode.

.
Ergo uma rosa, e grito a quantas aves
o céu pontua de ninhos e de cantos,
bato no chão a ordem que decide
a união dos demos e dos santos.

.
Ergo uma rosa, um corpo e um destino
contra o frio da noite que se atreve,
e da seiva da rosa e do meu sangue

.
construo perenidade em vida breve.
Ergo uma rosa, e deixo, e abandono
quanto me dói de mágoas e assombros.

.
Ergo uma rosa, sim, e ouço a vida
neste cantar das aves nos meus ombros.

rosa

 

José Saramago 

Porque a recusas.
Janeiro 8, 2018

Porque a recusas, esta cidade despovoa-se, o granito
torna-se subitamente uma resina pegajosa e hostil.

As gaivotas fogem para o mar com gritos roucos, um
arrepio atravessa as ruas como sinal de inverno.

Encontro as portas fechadas ao longo das paredes; um
curto circuito acaba de apagar o sol, a lua vazia ergue
uma maré que escava furiosamente as praias.

O espaço minga, as folhas secas tombam com um riso
grato: sabem que foram nas árvores a última primavera.

Um coração está pousado no solo e eu tropeço na sua
derradeira pulsação. Já o vi algures, creio, antes do medo.

Foz

Egito Gonçalves    em    Luz Vegetal

O Vento
Agosto 15, 2017

O cipreste inclina-se em fina reverência
e as margaridas estremecem, sobressaltadas.

A grande amendoeira consente que balancem
suas largas folhas transparentes ao sol.

Misturam-se uns aos outros, rápidos e frágeis,
os longos fios da relva, lustrosos, lisos cílios verdes.

Frondes rendadas de acácias palpitam inquietantemente
com o mesmo tremor das samambaias
debruçadas nos vasos.

Fremem os bambus sem sossego,
num insistente ritmo breve.

O vento é o mesmo:
mas sua resposta é diferente, em cada folha.

Somente a árvore seca fica imóvel,
entre borboletas e pássaros.

Como a escada e as colunas de pedra,
ela pertence agora a outro reino.
Se movimento secou também, num desenho inerte.
Jaz perfeita, em sua escultura de cinza densa.

O vento que percorre o jardim
pode subir e descer por seus galhos inúmeros:

ela não responderá mais nada,
hirta e surda, naquele verde mundo sussurrante.

Cecília Meireles    em     “Mar Absoluto”

Poema sobre nada
Janeiro 26, 2017

Por vezes a Primavera é um pássaro que atravessa o Inverno,

não há o calor do sol

ou a brisa tépida que sopra por entre as folhas,

por vezes um olhar é o único aceno.

.

Há dias em que a única certeza da vida

é a tua leve presença

sobre o abismo da ignorância,

há dias em que nem a morte está garantida.

.

Um pássaro de luz corta as nuvens de sombra,

desde a claridade e as trevas

do princípio,

um pássaro de luz da tua íris irrompe.

.

Os teus braços não provarão que estou vivo,

são efémeros

mas deixei de parte a memória,

os teus braços nada provam e cinjo-os.

passaroverde

Joel Henriques

Tes yeux
Dezembro 3, 2016

Tes yeux sont si profonds qu’en me penchant pour boire
j’ai vu les soleils y venir se mirer
s’y jeter à mourir tous les désespérés.
Tes yeux sont si profonds que j’y perds la mémoire.

Louis Aragon

momentos de mar
Agosto 15, 2016

 

a espuma adormece na areia
o cansaço de tanto andado

uma gaivota deixa o bando
primeiro passo para a liberdade

ao longe um barco acena
promessas de viagens a fazer

no céu uma nuvem brinca com o sol
e eu perco-me de tanto infinito

A.H. Cravo

gaivotas 3

Forma
Agosto 9, 2016

Procurava um estilo – algo que se pusesse no

poema como um chapéu para a chuva ou para o

sol. Queria vestir a linguagem, a estrofe, o verso

com a insólita elegância do equilibrista. Lia

em voz alta os poemas dos outros como se fossem

seus; e, no entanto, não conseguia sair da

“aurea mediocritas”, do tom baixo que caracteriza

os simples imitadores, Uma noite, aproveitou

o isolamento da rua para se observar a si

próprio no reflexo de uma porta de vidro. “Quem

és?”, perguntou à sua imagem; e não se espantou

com o silêncio que lhe respondeu. Não era ele,

afinal, incapaz de explicar fosse o que fosse

da vida ? Construía ilusões e deixava que elas

se esfumassem sem se preocupar em fixar a

sua imagem – afinal, aquilo de que os poemas são

feitos. E o inverno passou, com o fogo das suas

águas; uma primavera trouxe-lhe o nome que há

muito se desabituara de chamar; julho e agosto

prostraram-no na hesitação das tardes. Para quê

escrever? Porém, as nuvens do outono desceram ao

nível dos telhados; os dias ficavam mais curtos;

o vento do norte chegava com uma dicção de

antigas folhas. Pensa que os mortos te visitam;

abre-lhes a página; e descobre que és um deles,

envolto num lençol de névoa e de retórica.

Moon and cloud.

Nuno Júdice