Lisboa ainda
Março 29, 2020

Lisboa não tem beijos nem abraços

não tem risos nem esplanadas

não tem passos

nem raparigas e rapazes de mão dadas

tem praças cheias de ninguém

ainda tem sol mas não tem

nem gaivota de Amália nem canoa

sem restaurantes sem bares nem cinemas

ainda é fado ainda é poemas

fechada dentro de si mesma ainda é Lisboa

cidade aberta

ainda é Lisboa de Pessoa alegre e triste

e em cada rua deserta

ainda resiste.

Lisboa

Manuel Alegre ( 20/3/20 )

no dia a seguir
Janeiro 29, 2020

não bastava ser inverno
fizeste que o fosse
também dentro de mim
.
o amor por vezes desacontece
devia sabê-lo
.
não sou cínico
não te agradeço a lição
.
invento o sol
vou ver o mar
.
entro em mim
fabrico um verão
.
seara
A H Cravo

Ensaia um sorriso
Janeiro 23, 2020

Ensaia um sorriso 
e oferece-o a quem não teve nenhum. 
Agarra um raio de sol 
e desprende-o onde houver noite. 
Descobre uma nascente 
e nela limpa quem vive na lama. 
Toma uma lágrima 
e pousa-a em quem nunca chorou. 
Ganha coragem 
e dá-a a quem não sabe lutar. 
Inventa a vida 
e conta-a a quem nada compreende. 
Enche-te de esperança 
e vive á sua luz. 
Enriquece-te de bondade 
e oferece-a a quem não sabe dar. 
Vive com amor 
e fá-lo conhecer ao Mundo.

Big heart

. Mahatma Gandhi    em    À Descoberta do Amor .

Germinação
Janeiro 7, 2020

Entre duas ruas paralelas
nossas conexões transversais aproximaram
o contato de nossos lábios e de nossas mãos
que se transformam em uma arte de expressão geométrica
com traços de cubismo:
vários vértices com sensações de infinitude
vários ângulos com encaixe de elevada estruturação

aprofundamos em anestesia
enquanto verticalizávamos nossos sentidos
investindo em uma profundidade de sentimentos superior
aos abismos de corações e mentes distraídas

nossa troca de olhares ficou surrealista:
teu cheiro penetrando em minhas vísceras
depositando em meu tecido adiposo
desregulando minha frequência cardíaca
com a profunda vibração de tuas cordas vocais
abraçando meu miocárdio

nossos corpos em contato se tornaram um único abrigo
nossa confluência de ideias formaram fortalezas de harmonia
nossa taxa metabólica igualou nossas funções vitais
e fomos capazes de rejuvenescer
simultaneamente
lado a lado

enquanto me abraçava revitalizando
cada célula corporal,
aprofundamos
ultrapassando os limites para mergulhos recreacionais

molhamo-nos ao toque do mar
secamo-nos à luz do sol
pulsantes:
amadurecemos em frutos

olhosnosolhos

Larissa Vahia

A um carvalho
Junho 26, 2019

Forte como um destino,

calmo como um pastor,

a sarça ardente é quando o sol a pino

o inunda de seiva e de calor.

Barbas, rugas e veias de gigante,

mas, sobretudo, braços!

Largos e negros, de desmedidos traços,

gestos solenes de uma fé constante.

Árvore e banco

Miguel Torga

Mar adentro
Junho 16, 2019

Deixarei vento trazer areia molhada

moldando dunas sobre a praia peito

lençóis marinhos de bruma salgada

cobrindo-me vagas em húmido leito

.

Deixarei o sol aquecer a azul manta

brilho líquido sobre ninho aquático

cobertas de espuma brancura tanta

onda em fúria doce marear estático

.

Deixarei o céu fazer-se em mim mar

vaga mais rebelde possa acontecer

todos os sentidos me deixe libertar

em onda gigante na praia eu morrer

.

Vento chuva como lágrimas maresia

na morna loucura desta praia deserta

possam murmúrios mar ser sinfonia

.

A praia sentida num olhar imensidão

Vaga uma a uma murmura secreta

Mar adentro em mim húmida solidão

asruasdopensamento

Ana Bárbara de Santo António

 

Abraça-me
Agosto 8, 2018

Abraça-me.

Quero ouvir o vento que vem da tua pele,

e ver o sol nascer do intenso calor dos nossos corpos.

Quando me perfumo assim, em ti,

nada existe a não ser este relâmpago feliz,

esta maçã azul que foi colhida na palidez de todos os caminhos,

e que ambos mordemos para provar

o sabor que tem a carne incandescente das estrelas.

.

Abraça-me.

Veste o meu corpo de ti,

para que em ti eu possa buscar o sentido dos sentidos,

o sentido da vida.

Procura-me com os teus antigos braços de criança,

para desamarrar em mim a eternidade,

essa soma formidável de todos os momentos livres

que a um e a outro pertenceram.

.

Abraça-me.

Quero morrer de ti em mim, espantado de amor.

Dá-me a beber, antes, a água dos teus beijos,

para que possa levá-la comigo

e oferecê-la aos astros pequeninos. 
Só essa água fará reconhecer o mais profundo,

o mais intenso amor do universo,

e eu quero que delem fiquem a saber

até as estrelas mais antigas e brilhantes. 

.
Abraça-me.

Uma vez mais. Uma vez só.

.

Uma vez que nem sei se tu existes.

 


Joaquim Pessoa    em   Ano Comum

Explicação
Julho 13, 2018

Só isto : trouxeste sol e calor

quando fazia frio…

.

Agora, de novo

alguém para se querer, para se chamar

de querida.

.

Só isto : trouxeste uma flor

e a fizeste crescer e desabrochar

neste ramo vazio

que era a minha vida.

SONY DSC

J. G. Araújo Jorge

Ninguém
Junho 24, 2018

Ninguém, meu amor,
ninguém como nós conhece o sol.
Podem utilizá-lo nos espelhos,
apagar com ele
os barcos de papel nos nossos lagos,
podem obrigá-lo a parar
à entrada das casas mais baixas,
podem ainda fazer
com que a noite gravite
hoje do mesmo lado.
.
Mas ninguém, meu amor,
ninguém como nós conhece o sol.
Até que o sol degole
o horizonte em que um a um
nos deitam
vendando-nos os olhos.

sol nas mãos

Sebastião da Gama

Ergo uma rosa
Maio 16, 2018

Ergo uma rosa, e tudo se ilumina
como a lua não faz nem o sol pode:
cobra de luz ardente e enroscada
ou ventos de cabelos que sacode.

.
Ergo uma rosa, e grito a quantas aves
o céu pontua de ninhos e de cantos,
bato no chão a ordem que decide
a união dos demos e dos santos.

.
Ergo uma rosa, um corpo e um destino
contra o frio da noite que se atreve,
e da seiva da rosa e do meu sangue

.
construo perenidade em vida breve.
Ergo uma rosa, e deixo, e abandono
quanto me dói de mágoas e assombros.

.
Ergo uma rosa, sim, e ouço a vida
neste cantar das aves nos meus ombros.

rosa

 

José Saramago