A Memória
Setembro 16, 2020

Por entre vendavais desfeitos,

procuro no antro da memória,

procuro por sítios inóspitos,

porque nos perdemos no fundir do tempo!

.

Arrastam-se máscaras, esfinges,

que não consigo decifrar,

mas tu és a mesma menina que sempre foste,

o passar dos anos fez-te ainda mais bonita,

fez-te sedutora.

.

Queria perder-me nos teus braços,

acordar e renascer das cinzas,

todo eu ainda tremo ao ouvir os teus passos!

.

Por entre muralhas e sombras que nos enlaçam no nevoeiro,

duas faces, olhos nos olhos,

os meus aproximam-se dos teus,

os meus lábios secam as tuas lágrimas,

beijo-te os olhos,

acabam as tuas mágoas prisioneiras do passado!

meu príncipe

Daniel  Dias

Não te rendas
Agosto 31, 2020

Não te rendas, ainda estás a tempo

de alcançar e começar de novo,

aceitar as tuas sombras

enterrar os teus medos,

largar o lastro,

retomar o voo.

Não te rendas que a vida é isso,

continuar a viagem,

perseguir os teus sonhos,

destravar os tempos,

arrumar os escombros,

e destapar o céu.

Não te rendas, por favor, não cedas,

ainda que o frio queime,

ainda que o medo morda,

ainda que o sol se esconda,

e se cale o vento:

ainda há fogo na tua alma

ainda existe vida nos teus sonhos.

Porque a vida é tua, e teu é também o desejo,

porque o quiseste e eu te amo,

porque existe o vinho e o amor,

porque não existem feridas que o tempo não cure.

Abrir as portas,

tirar os ferrolhos,

abandonar as muralhas que te protegeram,

viver a vida e aceitar o desafio,

recuperar o riso,

ensaiar um canto,

baixar a guarda e estender as mãos,

abrir as asas

e tentar de novo

celebrar a vida e relançar-se no infinito.

Não te rendas, por favor, não cedas:

mesmo que o frio queime,

mesmo que o medo morda,

mesmo que o sol se ponha e se cale o vento,

ainda há fogo na tua alma,

ainda existe vida nos teus sonhos.

Porque cada dia é um novo início,

porque esta é a hora e o melhor momento.

Porque não estás só, porque eu te amo.

despertares

Mário Benedetti

A Celebração do Pó
Agosto 12, 2020

O silêncio
abre
o coração das sombras.
Por tal sossego, as árvores
caminham. Mas são as mulheres quem lhes assegura
a elegância do porte.

A harmonia vem do peso da luz
sob a cabeça. Das mãos em arco: os ramos seguram.
Altas são as folhas. Simples.
Lisa a copa.

Não há rumor na terra.
As feras não nasceram ainda. Apenas os peixes.
Fora de água
respiram.

Sim.
O mundo pode ser belo,
apesar de só.

Basta-lhe o fulgor no mais escalvado da noite
e meninos esbeltos e
gelados no sol.
E uma beleza dificílima. E um cauteloso
azul nas garças abatidas pelo céu.
E um primeiro espanto,
uma primeira alegria nas fendas
em direcção
ao pó.

novembro2

Eduarda Chiote

No teu rosto
Julho 16, 2020

No teu rosto
competem mil madrugadas
Nos teus lábios
a raiz do sangue
procura suas pétalas
A tua beleza
é essa luta de sombras
é o sobressalto da luz
num tremor de água
é a boca da paixão
mordendo o meu sossego
.
laetitia_casta_9-1024x768
.
Mia Couto

a rosa, timbres
Maio 19, 2020

e o outro silêncio enquanto o som repousa:

desfez-se o seu rebordo numa espuma.

de que sombra dos sons se faz a rosa?

da matéria das sombras? de nenhuma?

.

de que fosco murmúrio, cristal, bruma?

de que espirais de noite vagarosa?

do coração desfeito? ou não costuma

a luz gravar-se em sombras numa lousa?

.

coração rouco, o coração, falhada,

a voz vinda do vento se desate

num ramo de penumbras, descontínuo,

.

o mundo passe a ser feito de nada,

só de efémeras rosas a rebate,

como gritos de sangue no destino.

rosas fogo

Vasco Graça Moura

Destino 4
Outubro 22, 2019

Não te amei sob as árvores.

Nem bebi a tua boca ao pé das fontes.

Respirei-te, na tarde,

quando as sombras do outono

desciam, rápidas, sobre mim.

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Luísa Dacosta

Balança
Junho 7, 2019

Com pesos duvidosos me sujeito
à balança até hoje recusada.
É tempo de saber o que mais vale:
se julgar, assistir, ou ser julgado.

Ponho no prato raso quanto sou,
matérias, outras não, que me fizeram,
o sonho fugidiço, o desespero
de prender violento ou descuidar

a sombra que me vai medindo os dias;
ponho a vida tão pouca, o ruim corpo,
traições naturais e relutâncias,
ponho o que há de amor, a sua urgência

o gosto de passar entre as estrelas,
a certeza de ser que só teria
se viesses pesar-me, poesia.

escultura-em-papel

José Saramago   em   Os Poemas Possíveis

Os ombros suportam o mundo
Novembro 18, 2018

anjo

Os ombros suportam o mundo.
Chega um tempo em que não se diz mais: meu Deus.
Tempo de absoluta depuração.
Tempo em que não se diz mais: meu amor.
Porque o amor resultou inútil.
E os olhos não choram.
E as mãos tecem apenas o rude trabalho.
E o coração está seco.

Em vão mulheres batem à porta, não abrirás.
Ficaste sozinho, a luz apagou-se,
mas na sombra teus olhos resplandecem enormes.
És todo certeza, já não sabes sofrer.
E nada esperas de teus amigos…

…Chegou um tempo em que não adianta morrer.
Chegou um tempo que a vida é uma ordem.
A vida apenas, sem mistificação.

Carlos Drummond de Andrade

Dorme, meu amor
Setembro 22, 2018

Dorme, meu amor, que o mundo já viu morrer mais

este dia e eu estou aqui, de guarda aos pesadelos.

Fecha os olhos agora e sossega o pior já passou

há muito tempo: e o vento amaciou: e a minha mão

desvia os passos do medo. Dorme, meu amor –

.

a morte está deitada sob o lençol da terra onde nasceste

e pode levantar-se como um pássaro assim que

adormeceres. Mas nada temas: as suas asas de sombra

não hão-de derrubar-me eu já morri muitas vezes

e é ainda da vida que tenho mais medo. Fecha os olhos

.

agora e sossega a porta está trancada: e os fantasmas

da casa que o jardim devorou andam perdidos

nas brumas que lancei ao caminho. Por isso, dorme,

.

meu amor, larga a tristeza à porta do meu corpo e

nada temas: eu já ouvi o silêncio, já vi a escuridão, já

olhei a morte debruçada nos espelhos e estou aqui

de guarda aos pesadelos a noite é um poema

que conheço de cor e vou cantar-to até adormecer

dreaming_myself_away_by_bellatina

Mª  Rosário  Pedreira

Mundo das Ideias
Setembro 10, 2018

Se a minha luz não te possui ao meio-dia,

também não tem a tua sombra,

é este o momento

em que mais te procuram

os cavalos intrépidos,

e eu nem tenho um poema.

.

Sem amor,

vemos apenas as sombras das outras pessoas,

só o amante vê a sua amada

ao meio-dia,

ma hora do esquecimento,

e eu vi-te a ti

com o sol no seu zénite.

.

Não tenhas medo do amor,

minha amada,

não temas a impulsividade

dos cavalos intrépidos,

a única luz que não traz sofrimento

é a do sol no seu zénite,

porque a estrela íntima

não se reflecte em sombras

ao meio-dia.

sol 1

Joel  Henriques