Dorme, meu amor
Setembro 22, 2018

Dorme, meu amor, que o mundo já viu morrer mais

este dia e eu estou aqui, de guarda aos pesadelos.

Fecha os olhos agora e sossega o pior já passou

há muito tempo: e o vento amaciou: e a minha mão

desvia os passos do medo. Dorme, meu amor –

.

a morte está deitada sob o lençol da terra onde nasceste

e pode levantar-se como um pássaro assim que

adormeceres. Mas nada temas: as suas asas de sombra

não hão-de derrubar-me eu já morri muitas vezes

e é ainda da vida que tenho mais medo. Fecha os olhos

.

agora e sossega a porta está trancada: e os fantasmas

da casa que o jardim devorou andam perdidos

nas brumas que lancei ao caminho. Por isso, dorme,

.

meu amor, larga a tristeza à porta do meu corpo e

nada temas: eu já ouvi o silêncio, já vi a escuridão, já

olhei a morte debruçada nos espelhos e estou aqui

de guarda aos pesadelos a noite é um poema

que conheço de cor e vou cantar-to até adormecer

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Mª  Rosário  Pedreira

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Mundo das Ideias
Setembro 10, 2018

Se a minha luz não te possui ao meio-dia,

também não tem a tua sombra,

é este o momento

em que mais te procuram

os cavalos intrépidos,

e eu nem tenho um poema.

.

Sem amor,

vemos apenas as sombras das outras pessoas,

só o amante vê a sua amada

ao meio-dia,

ma hora do esquecimento,

e eu vi-te a ti

com o sol no seu zénite.

.

Não tenhas medo do amor,

minha amada,

não temas a impulsividade

dos cavalos intrépidos,

a única luz que não traz sofrimento

é a do sol no seu zénite,

porque a estrela íntima

não se reflecte em sombras

ao meio-dia.

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Joel  Henriques

Escrevo-te
Agosto 16, 2018

 Escrevo-te com o fogo e a água.

 Escrevo-te no sossego feliz das folhas e das sombras.

Escrevo-te quando o saber é sabor, quando tudo é surpresa.

Vejo o rosto escuro da terra em confins indolentes.

 Estou perto e estou longe num planeta imenso e verde.

 O que procuro é um coração pequeno, um animal perfeito e suave.

 Um fruto repousado, uma forma que não nasceu, um torso ensanguentado,

 uma pergunta que não ouvi no inanimado,

 um arabesco talvez de mágica leveza.

Quem ignora o sulco entre a sombra e a espuma?

 Apaga-se um planeta, acende-se uma árvore.

 As colinas inclinam-se na embriaguez dos barcos.

 O vento abriu-me os olhos, vi a folhagem do céu,

 o grande sopro imóvel da primavera efémera.

.

 António Ramos Rosa

(Volante Verde – 1986)

barcarola
Maio 10, 2018

quero falar aqui do meu amor, quero falar

quando o silêncio é de oiro ensimesmado,

o tempo é de ferrugem,

e o espaço é de água na longa solidão

riscada pelas aves.

.

pobre relento dos sonhos que sonhámos:

passámos por aqui, os olhos rasos de luz

e o coração embalado por um fio de música

a diluir-se no crepúsculo

com as águas morosas, a

.

sombra a carregar-se ao rés das casas, as

rosas semicerrando-se numa leve respiração.

águas do douro que corriam, para onde

levavam as lembranças como barcos

que se esquecessem do seu rumo?

.

leve brisa do mar que nos chegava,

salina sem sabermos

que anunciava as lágrimas, de que fundo

dos mares atormentados arrancava?

cais humilde das cargas, quem diria

.

que ali só atracavam desventuras?

ali, só quero falar desta golfada a desprender-se

de sonho e oiro a que te misturavas

num ledo encantamento entre rumores

que se apagavam fulvos em surdina

.

e sílabas, sílabas que na alma a pouco e pouco

emudeciam comovidas, noite, ó noite

que cobriste essas horas do teu luto,

quando será manhã para que seja

outra tarde outra vez essa harmonia?

vem

Vasco Graça Moura

Paisagem
Agosto 9, 2017

Cega-me a distância azul sem par
o gesto bondoso da sombra sobre o banco
a presença de algum deus sobre a paisagem
o silêncio íntimo da lonjura
um poema em estado bruto
na curva da viagem.

Maria Isabel Fidalgo

Poema sobre nada
Janeiro 26, 2017

Por vezes a Primavera é um pássaro que atravessa o Inverno,

não há o calor do sol

ou a brisa tépida que sopra por entre as folhas,

por vezes um olhar é o único aceno.

.

Há dias em que a única certeza da vida

é a tua leve presença

sobre o abismo da ignorância,

há dias em que nem a morte está garantida.

.

Um pássaro de luz corta as nuvens de sombra,

desde a claridade e as trevas

do princípio,

um pássaro de luz da tua íris irrompe.

.

Os teus braços não provarão que estou vivo,

são efémeros

mas deixei de parte a memória,

os teus braços nada provam e cinjo-os.

passaroverde

Joel Henriques

Tenho fome
Janeiro 19, 2017

Tenho fome da tua boca, da tua voz, do teu cabelo,
e ando pelas ruas sem comer, calado,
não me sustenta o pão, a aurora me desconcerta,
busco no dia o som líquido dos teus pés.
.
Estou faminto do teu riso saltitante,
das tuas mãos cor de furioso celeiro,
tenho fome da pálida pedra das tuas unhas,
quero comer a tua pele como uma intacta amêndoa.
.
Quero comer o raio queimado na tua formosura,
o nariz soberano do rosto altivo,
quero comer a sombra fugaz das tuas pestanas
.
e faminto venho e vou farejando o crepúsculo
à tua procura, procurando o teu coração ardente
como um puma na solidão de Quitratúe.

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Pablo Neruda

Quando eu morrer
Julho 4, 2016

Quando eu morrer quero as tuas mãos nos meus olhos:
quero a luz e o trigo das tuas mãos amadas
passando uma vez mais sobre mim sua frescura:
sentir a suavidade que mudou o meu destino.
.
Quero que vivas enquanto eu, adormecido, te espero,
quero que teus ouvidos sigam ouvindo o vento,
que sintas o perfume do mar que amamos juntos
e que sigas pisando a areia que pisamos.
.
Quero que o que amo continue vivo
e a ti amei e cantei sobre todas as coisas,
por isso segue tu florescendo, florida,

para que alcances tudo o que meu amor te ordena,
para que passeie minha sombra por teus cabelos,
para que assim conheçam a razão do meu canto.

Neruda
Pablo Neruda    em  Cem Sonetos de Amor

 

Toda a minh’alma
Dezembro 26, 2015

Toda a minh’Alma se prende
naquella forma de graça;
mas não é na forma viva
mas sim na Linha que passa.
.
Toda a minh’Alma se prende,
bate as asas, esvoaça…
E é como a sombra distante
d’aquella Linha que passa.
.
A vida é só o Espaço
que vai da própria Linha
à sombra d’ella num traço.
.
Quando a Morte for vizinha,
fundidas no mesmo Espaço
será tudo a mesma Linha.

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Violante de Cysneiros (1915)

IX
Novembro 8, 2015

De tanto te imaginar de olhos fechados,
sei lá se te perdi!
E se esta sombra com quem voo nos telhados
és tu em vez de ti.
.
Só sei que quando vieres, real,
a cheirar a pele e a punhal,
com entranhas e caveira…
.
…terei de coser a tua sombra à minha,
atar o rio à nuvem da tardinha,
a labareda ao fumo da fogueira.

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José Gomes Ferreira