Antítese
Dezembro 17, 2018

Navego num largo mar de enganos,

guiado pela estrela cega do horizonte.

O meu destino está inscrito nestes anos

em que o tempo nasce de uma futura fonte.

.

Assim, o que foi ontem está para ser,

passado que vive num presente sem nós,

como o rio que, para correr, nasce na foz;

e tudo o que vi ainda está para se ver,

.

tal como o silêncio que fala nesta voz.

O caminho faz-se quando se está parado,

barco que anda sem haver vento;

.

e só quem está certo pode ser enganado

quando, ao pensar, perde o pensamento,

e em tudo o que sonha só vê o passado.

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Nuno  Júdice

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Deito na terra
Novembro 6, 2018

Deito na terra os grãos de sonho

peço-te que os fragmentes

como uma bomba dentro do meu peito.

Assim, sei que te poderei esquecer…

como uma imagem difusa na mente cansada,

ou um aroma indecifrável

adormecido nas mãos enrugadas

de uma espera dorida e milenar.

.

Estou envolvida por esse silêncio dormente

que abre as portas à madrugada

e me encosta dentro dessa cama

cujo saco amarfanho

com os dedos quebrados de tentativas falhadas,

no desespero da insónia.

.

Abraço o vazio com a força do frio

percorre-me o avesso do ser,

lambo as gotas que fervilham na pele despida

e os grãos são sementes por fecundar…

O teu corpo é estéril.

Já não me estremece nem abre os segredos da noite

onde fomos gemido e respiração ofegante.

.

Fechei a concha.

Voei para sul com sonhos na bagagem.

nesse mundo com outros mundos onde só eu pertenço

e onde nós já não temos espaço.

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Carla Marques

Balada
Junho 18, 2018

Amei-te muito, e eu creio que me quiseste
também por um instante nesse dia
em que tão docemente me disseste
que amavas ‘ma mulher que o não sabia.

Amei-te muito, muito! Tão risonho
aquele dia foi, aquela tarde!…
E morreu como morre todo o sonho
deixando atrás de si só a saudade! …

E na taça do amor, a ambrosia
da quimera bebi aquele dia
a tragos bons, profundos, a cantar…

O meu sonho morreu… Que desgraçada!
E como o rei de Thule da balada
deitei também a minha taça ao mar …
florbelaespanca.thumbnail

Florbela EspancaTrocando olhares – 08/08/1916

barcarola
Maio 10, 2018

quero falar aqui do meu amor, quero falar

quando o silêncio é de oiro ensimesmado,

o tempo é de ferrugem,

e o espaço é de água na longa solidão

riscada pelas aves.

.

pobre relento dos sonhos que sonhámos:

passámos por aqui, os olhos rasos de luz

e o coração embalado por um fio de música

a diluir-se no crepúsculo

com as águas morosas, a

.

sombra a carregar-se ao rés das casas, as

rosas semicerrando-se numa leve respiração.

águas do douro que corriam, para onde

levavam as lembranças como barcos

que se esquecessem do seu rumo?

.

leve brisa do mar que nos chegava,

salina sem sabermos

que anunciava as lágrimas, de que fundo

dos mares atormentados arrancava?

cais humilde das cargas, quem diria

.

que ali só atracavam desventuras?

ali, só quero falar desta golfada a desprender-se

de sonho e oiro a que te misturavas

num ledo encantamento entre rumores

que se apagavam fulvos em surdina

.

e sílabas, sílabas que na alma a pouco e pouco

emudeciam comovidas, noite, ó noite

que cobriste essas horas do teu luto,

quando será manhã para que seja

outra tarde outra vez essa harmonia?

vem

Vasco Graça Moura

Morrer dentro de ti
Fevereiro 28, 2018

Morar dentro de ti como eu gostava
dormir sempre em teu peito bom seria
fazer da tua boca a minha casa
com varandas suspensas de alegria

Morar dentro de ti já me bastava
para esquecer o mundo num só dia

Fazer das tuas mãos essa passagem
que me leva num sonho sobre a água
Dos teus olhos de luz fazer a margem
onde possa ancorar a minha mágoa

Fazer das tuas mãos essa viagem
que mora além da dor, além da mágoa

Sós, na asa dum céu que nos abrace
Sós, na vida dos sonhos mais ardentes
Sem que ninguém amor nos alcançasse
onde os lábios se queimem inocentes

Quero morar amor dentro de ti
onde somente nós dois nos entendemos
para morrer amor dentro de ti
bem lá longe do mundo onde vivemos
mulher 1

Fernando Campos de Castro

Vieste como um barco carregado de vento
Novembro 28, 2017

Vieste como um barco carregado de vento, abrindo
feridas de espuma pelas ondas. Chegaste tão depressa
que nem pude aguardar-te ou prevenir-me; e só ficaste
o tempo de iludires a arquitectura fria do estaleiro

onde hoje me sentei a perguntar como foi que partiste,
se partiste,
que dentro de mim se acanham as certezas e
tu vais sempre ardendo, embora como um lume
de cera, lento e brando, que já não derrama calor.

Tenho os olhos azuis de tanto os ter lançado ao mar
o dia inteiro, como os pescadores fazem com as redes;
e não existe no mundo cegueira pior do que a minha:
o fio do horizonte começou ainda agora a oscilar,
exausto de me ver entre as mulheres que se passeiam
no cais como se transportassem no corpo o vaivém
dos barcos. Dizem-me os seus passos

que vale a pena esperar, porque as ondas acabam
sempre por quebrar-se junto das margens. Mas eu sei
que o meu mar está cercado de litorais, que é tarde
para quase tudo. Por isso, vou para casa

e aguardo os sonhos, pontuais como a noite.

mar 4

Maria do Rosário Pedreira    em    ‘O Canto do Vento nos Ciprestes’

Redenção
Novembro 21, 2017

Vozes do mar, das árvores, do vento!

Quando, às vezes, num sonho doloroso,

me embala o vosso canto poderoso,

eu julgo igual ao meu vosso tormento…

.

Verbo crepuscular e íntimo alento

das coisas mudas, salmo misterioso,

não serás tu, queixume vaporoso,

o suspiro do mundo e o seu lamento?

.

Um espírito habita a imensidade:

uma ânsia cruel de liberdade

agita e abala as formas fugitivas.

.

E eu compreendo a vossa língua estranha

vozes do mar, da selva, da montanha…

Almas irmãs da minha, almas cativas!

agreste

Antero de Quental

 

Pavio
Setembro 28, 2017

cora

 

És uma candeia ao canto do quarto
às vezes longe, às vezes perto.
Trazes o brilho e a coragem,
demonstras a fé nesta viagem…

– E eu estou aqui deitado,
às vezes ao frio, às vezes tapado
(cresce em mim a tempestade)
– Aqueço assim a saudade.

E no frio desta caverna
húmida e teimosamente eterna,
pingo a pingo, hoje, amanhã e depois,
lembro as vidas que não tivemos os dois.
Apenas este pavio
veio acalmar este frio
nas mãos, na mente e na alma.
Uma voz suave que acalma…

Cêra.
Quimera.
Sonho.
Coração tamanho.

António

Poema a poema
Junho 19, 2017

Poema a poema escrevo poesia

dia após dia, após noite e sobressalto

cerro e sussurro e de novo tumulto

.

Poema a poema escrevo o desassossego

a translúcida lisura da asa, a harmonia

que deseja o verso no corpo da luz

 .

Poema a poema vou tocando, tomando

o corpo da escrita, afagando a linguagem

num lento e indizível prazer indeterminável

.

Sonho, após símbolo, após metáfora

após sintaxe

Palavra após palavra, após palavra

.

após palavra…

we-are-all-poets

Maria Teresa Horta

 

 

Sete
Junho 6, 2017

Pelas sete da tarde

é que o sonho começa:

a tua mão na minha

e a minha cabeça

encostada ao teu ombro.

Depois é o assombro

do amor reencontrado

a sós no nosso canto.

O silêncio e o espanto

a paixão o segredo

a recusa do medo

o meu falar alegre

o teu livro tão sério

a música tão leve

o instante tão breve

o sono e o mistério.

.

Às sete da manhã

é que o sonho termina.

E afrontamos o dia

a tua mão na minha

um trejeito na alma

um tremido na boca

até que a multidão

me leva e me sufoca

e nos desprende e solta

os meus dedos nos teus.

.

Há um barco que chega

um comboio que chora.

Num mar de gente à deriva

eu náufraga da hora

ergo um braço no ar

p’ra te dizer adeus.

beijinho

Rosa Lobato de Faria