A hora do cansaço
Novembro 16, 2019

As coisas que amamos,

as pessoas que amamos

são eternas até certo ponto.

Duram o infinito variável

no limite de nosso poder

de respirar a eternidade.

.

Pensá-las é pensar que não acabam nunca,

dar-lhes moldura de granito.

De outra matéria se tornam, absoluta,

numa outra (maior) realidade.

.

Começam a esmaecer quando nos cansamos,

e todos nós cansamos, por um outro itinerário,

de aspirar a resina do eterno.

Já não pretendemos que sejam imperecíveis.

Restituímos cada ser e coisa à condição precária,

rebaixamos o amor ao estado de utilidade.

.

Do sonho de eterno fica esse gosto ocre

na boca ou na mente, sei lá, talvez no ar.

eternidade

Carlos Drummond de Andrade

Como na montanha
Julho 3, 2019

Não me perguntes nada. Só teus olhos

olhando-me, respondam confiados.

E tuas mãos, sentindo os meus cuidados,

saibam trazer promessas e consolos.

.

Ou diz, pois oiço tudo. A tua voz

é fluxo mineral, nem é palavras,

tal, na montanha, sebes, trilhos, lavras:

malhas na pele de um ser grande, feroz.

.

Viver é isto, como, na montanha,

o sol, as estações, que vêm, que vão,

um sono onde trabalha mão estranha,

.

urdindo sonhos e destruição.

Por isso, não perguntes. Tua mão

se pouse em mim, com o olhar me banha.

agreste

Ricardo Lima

Balança
Junho 7, 2019

Com pesos duvidosos me sujeito
à balança até hoje recusada.
É tempo de saber o que mais vale:
se julgar, assistir, ou ser julgado.

Ponho no prato raso quanto sou,
matérias, outras não, que me fizeram,
o sonho fugidiço, o desespero
de prender violento ou descuidar

a sombra que me vai medindo os dias;
ponho a vida tão pouca, o ruim corpo,
traições naturais e relutâncias,
ponho o que há de amor, a sua urgência

o gosto de passar entre as estrelas,
a certeza de ser que só teria
se viesses pesar-me, poesia.

escultura-em-papel

José Saramago   em   Os Poemas Possíveis

Soneto a Katherine Mansfield
Junho 1, 2019

O teu perfume, amada – em tuas cartas

renasce, azul… – são tuas mãos sentidas!

Relembro-as brancas, leves, fenecidas,

pendendo ao longo de corolas fartas.

.

Relembro-as, vou… – nas terras percorridas

torno a aspirá-lo, aqui e ali desperto

paro; e tão perto sinto-te, tão perto

como se numa foram duas vidas.

.

Pranto, tão pouca dor! tanto quisera

tanto rever-te, tanto!… e a primavera

vem já tão próxima!… (Nunca te apartas

.

Primavera, dos sonhos e das preces!)

e no perfume preso em tuas cartas

à primavera surges e esvaneces.

primavera.jpg

Vinicius de Moraes

Não sei de onde veio
Fevereiro 24, 2019

“Só sei que o sonho nunca tem pressa.”

Foi nessa idade que a poesia me veio buscar
Não sei de onde veio
do inverno, de um rio
Não sei como nem quando
Não, não eram vozes
não eram palavras
nem silêncio
Mas da rua fui convocado
dos galhos da noite
abruptamente entre outros
Entre fogos violentos
voltando sozinho
lá estava eu sem rosto
E fui tocado.

noite-de-luar


Pablo Neruda

Antítese
Dezembro 17, 2018

Navego num largo mar de enganos,

guiado pela estrela cega do horizonte.

O meu destino está inscrito nestes anos

em que o tempo nasce de uma futura fonte.

.

Assim, o que foi ontem está para ser,

passado que vive num presente sem nós,

como o rio que, para correr, nasce na foz;

e tudo o que vi ainda está para se ver,

.

tal como o silêncio que fala nesta voz.

O caminho faz-se quando se está parado,

barco que anda sem haver vento;

.

e só quem está certo pode ser enganado

quando, ao pensar, perde o pensamento,

e em tudo o que sonha só vê o passado.

barco1-1

Nuno  Júdice

Deito na terra
Novembro 6, 2018

Deito na terra os grãos de sonho

peço-te que os fragmentes

como uma bomba dentro do meu peito.

Assim, sei que te poderei esquecer…

como uma imagem difusa na mente cansada,

ou um aroma indecifrável

adormecido nas mãos enrugadas

de uma espera dorida e milenar.

.

Estou envolvida por esse silêncio dormente

que abre as portas à madrugada

e me encosta dentro dessa cama

cujo saco amarfanho

com os dedos quebrados de tentativas falhadas,

no desespero da insónia.

.

Abraço o vazio com a força do frio

percorre-me o avesso do ser,

lambo as gotas que fervilham na pele despida

e os grãos são sementes por fecundar…

O teu corpo é estéril.

Já não me estremece nem abre os segredos da noite

onde fomos gemido e respiração ofegante.

.

Fechei a concha.

Voei para sul com sonhos na bagagem.

nesse mundo com outros mundos onde só eu pertenço

e onde nós já não temos espaço.

conchas.JPG

Carla Marques

Balada
Junho 18, 2018

Amei-te muito, e eu creio que me quiseste
também por um instante nesse dia
em que tão docemente me disseste
que amavas ‘ma mulher que o não sabia.

Amei-te muito, muito! Tão risonho
aquele dia foi, aquela tarde!…
E morreu como morre todo o sonho
deixando atrás de si só a saudade! …

E na taça do amor, a ambrosia
da quimera bebi aquele dia
a tragos bons, profundos, a cantar…

O meu sonho morreu… Que desgraçada!
E como o rei de Thule da balada
deitei também a minha taça ao mar …
florbelaespanca.thumbnail

Florbela EspancaTrocando olhares – 08/08/1916

barcarola
Maio 10, 2018

quero falar aqui do meu amor, quero falar

quando o silêncio é de oiro ensimesmado,

o tempo é de ferrugem,

e o espaço é de água na longa solidão

riscada pelas aves.

.

pobre relento dos sonhos que sonhámos:

passámos por aqui, os olhos rasos de luz

e o coração embalado por um fio de música

a diluir-se no crepúsculo

com as águas morosas, a

.

sombra a carregar-se ao rés das casas, as

rosas semicerrando-se numa leve respiração.

águas do douro que corriam, para onde

levavam as lembranças como barcos

que se esquecessem do seu rumo?

.

leve brisa do mar que nos chegava,

salina sem sabermos

que anunciava as lágrimas, de que fundo

dos mares atormentados arrancava?

cais humilde das cargas, quem diria

.

que ali só atracavam desventuras?

ali, só quero falar desta golfada a desprender-se

de sonho e oiro a que te misturavas

num ledo encantamento entre rumores

que se apagavam fulvos em surdina

.

e sílabas, sílabas que na alma a pouco e pouco

emudeciam comovidas, noite, ó noite

que cobriste essas horas do teu luto,

quando será manhã para que seja

outra tarde outra vez essa harmonia?

vem

Vasco Graça Moura

Morrer dentro de ti
Fevereiro 28, 2018

Morar dentro de ti como eu gostava
dormir sempre em teu peito bom seria
fazer da tua boca a minha casa
com varandas suspensas de alegria

Morar dentro de ti já me bastava
para esquecer o mundo num só dia

Fazer das tuas mãos essa passagem
que me leva num sonho sobre a água
Dos teus olhos de luz fazer a margem
onde possa ancorar a minha mágoa

Fazer das tuas mãos essa viagem
que mora além da dor, além da mágoa

Sós, na asa dum céu que nos abrace
Sós, na vida dos sonhos mais ardentes
Sem que ninguém amor nos alcançasse
onde os lábios se queimem inocentes

Quero morar amor dentro de ti
onde somente nós dois nos entendemos
para morrer amor dentro de ti
bem lá longe do mundo onde vivemos
mulher 1

Fernando Campos de Castro