Breve poema da hora vã
Maio 1, 2017

Que poderei cantar-te nesta hora?

O século esgotou sua guitarra.

Não há surpresas nas sílabas de Abril.

Nem histórias para dizer.

.

Ainda se chovesse ou se caíssem rosas

para dentro do verbo

acontecer.

rosa gelada

Manuel  Alegre

A Festa do Silêncio
Outubro 1, 2013

Escuto na palavra a festa do silêncio.
Tudo está no seu sítio. As aparências apagaram-se.
As coisas vacilam tão próximas de si mesmas.
Concentram-se, dilatam-se as ondas silenciosas.
É o vazio ou o cimo? É um pomar de espuma.

Uma criança brinca nas dunas, o tempo acaricia,
o ar prolonga. A brancura é o caminho.
Surpresa e não surpresa: a simples respiração.
Relações, variações, nada mais. Nada se cria.
Vamos e vimos. Algo inunda, incendeia, recomeça.

Nada é inacessível no silêncio ou no poema.
É aqui a abóbada transparente, o vento principia.
No centro do dia há uma fonte de água clara.
Se digo árvore a árvore em mim respira.
Vivo na delícia nua da inocência aberta.

espuma
António  Ramos  Rosa

Soneto da 4ª feira de Cinzas
Março 9, 2011

Por seres quem me foste, grave e pura

em tão doce surpresa conquistada,

por seres uma branca criatura

de uma brancura de manhã raiada ;

 

por seres de uma rara formosura

malgrado a vida dura e atormentada,

por seres mais que a simples aventura

e menos que a constante namorada ;

 

porque te vi nascer, de mim sozinha

como a noturna flor desabrochada

a uma fala de amor, talvez perjura ;

 

por não te possuir, tendo-te minha,

por só quereres tudo, e eu dar-te nada,

hei-de lembrar-te sempre com ternura.

 

Vinicius  de  Moraes