As agonias do desejo
Janeiro 26, 2015

o dia a dia aperta aperta que nem

cordas cordéis ou outras mortas

coisas espertas não apertam

.

o dia a dia devolve-nos ao nada

sem metas físicas sem algas de conserva

somos servos do seu apertar

.

e tão estreito fica no cotovelo o

aperto do peito que não há jeito

de um dia o dia a dia adiar o

.

nó que nos lançou o laço que

no esófago afoga o coração pulmões

sem vento e os olhos sem invento

.

o dia a dia é noite noite sem

noite má maré sem mar

bardies

vamos ver que nos reserva o ver

quando amanhece noite e em verdade

nada se vislumbra

.

vamos a encontrar que nos reserva

o encontro vamos no contra ver

a ver que tem a ver o olhar

.

vamos andando como quem tacteia

o tom do tacto com o tecto baixo

destas nuvens caindo no contacto

.

das mãos das coisas e dos casos

vamos regressar lentamente ao

encanto de não saber sobreviver

.

descobrindo o que recobre o ar

o que cobre o contacto do voar

E. M. de Melo e Castro