Horas breves de meu contentamento
Novembro 9, 2016

Horas breves de meu contentamento,

nunca me pareceu, quando vos tinha,

que vos visse mudadas tão asinha

em tão compridos anos de tormento.

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As altas torres, que fundei no vento,

levou, enfim, o vento que as sustinha:

do mal, que me ficou, a culpa é minha,

pois sobre coisas vãs fiz fundamento.

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Amor com brandas mostras aparece,

tudo possível faz, tudo assegura;

mas logo no melhor desaparece.

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Estranho mal! Estranha desventura!

Por um pequeno bem, que desfalece,

um bem aventurar, que sempre dura!

castelo

Luiz de Camões

Metamorfose
Março 14, 2013

fondo-bosque-de-secuoyas

Para a minha alma eu queria uma torre como esta
assim alta ,
assim de névoa acompanhando o rio.
Estou tão longe da margem que as pessoas passam
e as luzes se reflectem na água.

E contudo, a margem não pertence ao rio
nem o rio está em mim como a chuva estaria
se eu soubesse ter…
na luz desce o rio
gente passa e não sabe
que eu quero uma torre tão alta que as aves não passem
as nuvens não passem
tão alta tão alta
que a solidão possa tornar-se humana.

Jorge de Sena

A maior solidão
Outubro 10, 2008

A maior solidão é a do ser que não ama.

A maior solidão é a dor do ser que se ausenta,

que se defende, que se fecha,

que se recusa a participar da vida humana.

A maior solidão é a do homem encerrado em si mesmo,

no absoluto de si mesmo,

o que não dá a quem pede

o que ele pode dar de amor,

de amizade, de socorro.

O  maior solitário é o que tem medo de amar,

o que tem medo de ferir e ferir-se,

o ser casto da mulher, do amigo, do povo, do mundo.

Esse queima como uma lâmpada triste,

cujo reflexo entristece também tudo em torno.

Ele é a angústia do mundo que o reflete.

Ele é o que se recusa às verdadeiras fontes de emoção,

as que são o património de todos, e,

encerrado em seu duro privilégio,

semeia pedras do alto de sua fria e desolada torre.

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 Vinicius de Moraes