Abraça-me
Agosto 8, 2018

Abraça-me.

Quero ouvir o vento que vem da tua pele,

e ver o sol nascer do intenso calor dos nossos corpos.

Quando me perfumo assim, em ti,

nada existe a não ser este relâmpago feliz,

esta maçã azul que foi colhida na palidez de todos os caminhos,

e que ambos mordemos para provar

o sabor que tem a carne incandescente das estrelas.

.

Abraça-me.

Veste o meu corpo de ti,

para que em ti eu possa buscar o sentido dos sentidos,

o sentido da vida.

Procura-me com os teus antigos braços de criança,

para desamarrar em mim a eternidade,

essa soma formidável de todos os momentos livres

que a um e a outro pertenceram.

.

Abraça-me.

Quero morrer de ti em mim, espantado de amor.

Dá-me a beber, antes, a água dos teus beijos,

para que possa levá-la comigo

e oferecê-la aos astros pequeninos. 
Só essa água fará reconhecer o mais profundo,

o mais intenso amor do universo,

e eu quero que delem fiquem a saber

até as estrelas mais antigas e brilhantes. 

.
Abraça-me.

Uma vez mais. Uma vez só.

.

Uma vez que nem sei se tu existes.

 


Joaquim Pessoa    em   Ano Comum

Da mais alta janela da minha casa
Julho 31, 2018

Da mais alta janela da minha casa
com um lenço branco digo adeus
aos meus versos que partem para a Humanidade.

E não estou alegre nem triste.
Esse é o destino dos versos.
Escrevi-os e devo mostrá-los a todos
porque não posso fazer o contrário
Como a flor não pode esconder a cor,
nem o rio esconder que corre,
nem a árvore esconder que dá fruto.

Ei-los que vão já longe como que na diligência
e eu sem querer sinto pena
como uma dor no corpo.

Quem sabe quem os terá?
Quem sabe a que mãos irão?

Flor, colheu-me o meu destino para os olhos.
Árvore, arrancaram-me os frutos para as bocas.
Rio, o destino da minha água era não ficar em mim.
Submeto-me e sinto-me quase alegre,
quase alegre como quem se cansa de estar triste.

Ide, ide de mim!
Passa a árvore e fica dispersa pela Natureza.
Murcha a flor e o seu pó dura sempre.
Corre o rio e entra no mar e a sua água é sempre a que foi sua.

Passo e fico, como o Universo.

Alberto Caeiro    em    “O Guardador de Rebanhos

Sou isso, enfim
Fevereiro 7, 2017

Começo a conhecer-me. Não existo.

Sou o intervalo entre o que desejo ser e os outros me fizeram,

Ou metade desse intervalo, porque também há vida…

Sou isso, enfim…

Apague a luz, feche a porta e deixe de ter barulho de chinelas no corredor.

Fique eu no quarto só com o grande sossego de mim mesmo.

É um universo barato.

fernpessoa1

s.d.

Poesias de Álvaro de Campos    em    Fernando Pessoa. Lisboa: Ática, 1944 (imp. 1993).

Finalmente vivo
Abril 3, 2012

Vivamos cada instante com profunda intensidade.

Se a vida é uma verdadeira dádiva do Universo,

quem somos nós para abreviá-la com infelicidade?

.

Pela manhã levantemo-nos em paz com as nossas dores.

Fiquemos em paz e harmonia com o espelho,

sem nos culparmos pela vaidade ferida.

Fiquemos em paz com os nossos valores,

exorcizando todas as angústias e mágoas.

.

Para que os outros nos aceitem como somos,

nós é que temos de nos aceitar primeiro,

naquilo que temos de imperfeito.

Amando e curando as nossas feridas,

aquelas bem fundas, onde só nós lá chegamos.

.

Mesmo que a vida se mostre vazia de significados,

e que tudo à nossa volta pareça conspirar contra nós.

Fundamental é mesmo não esquecer e ter presente,

que só nós somos os juízes das nossas vidas.

Da minha parte confesso já ter perdido a pressa,

que foi preciso passar pela dor do orgulho ferido,

para descobrir o verdadeiro significado da minha vida.

Finalmente sou coerente quando digo que vivo!

Luís Pedro Proença   em   Alma Zen

 

Difícil é …
Março 30, 2011

É fácil trocar as palavras,

difícil é interpretar os silêncios !

É fácil caminhar lado a lado,

difícil é saber como se encontrar !

É fácil beijar o rosto,

difícil é chegar ao coração !

É fácil apertar as mãos,

difícil é reter o calor !

É fácil sentir o amor,

difícil é conter sua corrente !

 

Como é por dentro de outra pessoa ?

Quem é que o saberá sonhar?

A alma de outrém é outro universo

com que não há comunicação possível,

com que não há verdadeiro entendimento.

 

Nada sabemos da alma

senão da nossa ;

a dos outros são olhares,

são gestos, são palavras,

com a suposição

de qualquer semelhança no fundo.

Fernando  Pessoa

Amostra sem valor
Março 15, 2011

Eu  sei  que  o  meu desespero não interessa a ninguém.

Cada um tem o seu, pessoal e intransmissível;

com ele se entretém

e  se  julga  intangível.

 

Eu  sei  que a Humanidade é mais  gente do que eu,

sei  que o mundo é maior do que o bairro onde habito,

que o respirar de um só, mesmo que seja o meu,

não pesa num total que tende para infinito.

 

Eu  sei  que as dimensões impiedosas da Vida

ignoram todo o homem, dissolvem-no, e, contudo,

nesta  insignificância, gratuita e desvalida,

universo sou eu, com nebulosas e tudo.

 

António Gedeão

Difícil é…
Novembro 9, 2009

É fácil trocar as palavras,

difícil é interpretar os silêncios!

É fácil caminhar lado a lado,

difícil é saber como se encontrar!

É fácil beijar o rosto,

difícil é chegar ao coração!

É fácil apertar as mãos,

difícil é reter o calor!

É fácil sentir o amor,

difícil é conter sua torrente!

Como é por dentro de outra pessoa?

Quem é que o saberá sonhar?

A alma de outrém é outro universo

com que não há comunicação possível,

com que não há verdadeiro entendimento.

Nada sabemos da alma

senão da nossa;

a dos outros são olhares,

são gestos, são palavras,

com a suposição

de qualquer semelhança no fundo.

fernpessoa1

Autor
Junho 30, 2008

O autor deve dizer o menos possível da sua obra, pois, de outra forma, não valerá a pena escrever romances, que são engrenagens destinadas a gerar interpretações.

É a descoberta de pistas em que ele nem sequer pensou, sugeridas pelos leitores, que faz de cada obra um fascinante universo em perpétua reformulação.

Como a vida de cada um.

  Fernando Namora