Despojo
Novembro 20, 2010

E, agora, o que faremos?

A quem legar o que resta

Do simulacro de festa

Que tivemos?

 

Quem aproveita os detritos

De uma alegria forçada?

Quem confunde aflitos gritos

Com imposta gargalhada?

 

Iremos por onde alguém

Descubra os nossos farrapos.

Vês flores no jardim de além?

– Vejo sapos.

 

 António Manuel Couto Viana , Voo Doméstico

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Cuéntame como Vives, como vas Muriendo
Agosto 13, 2010

Cuéntame cómo vives;
dime sencillamente cómo pasan tus días,
tus lentísimos odios, tus pólvoras alegres
y las confusas olas que te llevan perdido
en la cambiante espuma de un blancor imprevisto.

Cuéntame cómo vives;
ven a mí, cara a cara;
dime tus mentiras (las mías son peores),
tus resentimientos (yo también los padezco),
y ese estúpido orgullo (puedo comprenderte).

Cuéntame cómo mueres;
nada tuyo es secreto:
la náusea del vacío (o el placer, es lo mismo);
la locura imprevista de algún instante vivo;
la esperanza que ahonda tercamente el vacío.

Cuéntame cómo mueres;
cómo renuncias -sabio-,
cómo -frívolo- brillas de puro fugitivo,
cómo acabas en nada
y me enseñas, es claro, a quedarme tranquilo.

Gabriel Celaya

Despedida 2
Julho 4, 2010

Junho chegara ao fim, a magoada

luz dos jacarandás, que me pousava

nos ombros, era agora o que tinha

para repartir contigo,

e um coração desmantelado

que só aos gatos servirá de abrigo.

                                                      Eugénio de Andrade

Por-do-sol
Junho 26, 2010

Lembra-te que és o meu por-do-sol

mas sou eu que me afasto

enquanto brilhas ainda

amor

mergulho na terra

ouvidos na luz

meus olhos em ti.

Carlos Peres Feio

Pensar em ti
Junho 10, 2010

 

Exactamente como foi, o medo de me enganar
mais tarde na memória – é tudo o que me resta: estar
de noite às escuras a pensar em ti

E se me lembro mal, se troco às vezes, naquela
quinta-feira o dia do amor em vez de ser
na quarta, o erro surge-me gigante,
um peso carregado como Atlas

Por isso é que preciso de lembrar coisas
exactas, como aconteceu tudo; não só
transpor depois na ficção recolhida, sou eu
que te preciso e dos teus dias
que me foram meus

Lembrar-me exactamente como foi, o que usei
nesse dia e o que usei no outro, até que horas
tudo, se havia gente ou não
e em que dia. Porque as palavras depois se
reconstroem

O que se disse então torna-se fácil.
Assim dito parece coisa pouca,
lugar comum e
fácil, mas as noites são grandes

e lembrar-se
exactamente,
de uma forma correcta

é-me tão importante
dentro das noites a pensar em ti
sabendo: não te vejo nunca mais

Ana Luisa Amaral

Ponto brilhante
Junho 6, 2010

És um ponto brilhante

na noite dos meus dias.

Sou o mundo onde tu não estás,

o corpo que a teus olhos não brilha.

Sou um vazio no teu escuro,

uma presença morta.

Sou olhos postos em ti

e entre eles e tu, distância.

Diogo Silva

Gosto de ti…
Abril 16, 2010

Ando às voltas. De ti.

Desbravo atalhos, perco-me em ruelas

e esbarro nas esquinas.

És um roteiro emaranhado.

Inebriante.

Viciante.

Seguro o fôlego e fixo os olhos nos rostos

e nas vozes que me cercam.

E as caras que eu vejo são a tua

e as vozes que ecoam são a tua.

E se o corpo me pesa,

e se as pálpebras me cansam,

é porque procuro com sofreguidão o teu corpo

em lençóis povoados por estranhos,

e nunca, nunca te alcanço…

Luís Pires

Gota de água
Abril 11, 2010

Eu, quando choro, não choro eu.

Chora aquilo que nos homens

em todo o tempo sofreu.

As lágrimas são as minhas,

mas o choro não é meu.

António Gedeão

Como quero amar-te
Dezembro 6, 2009

Não te vou pôr flores de laranjeira no cabelo,

nem fazer explodir a madrugada dos teus olhos.

Eu quero apenas amar-te lentamente

como se todo o tempo fosse nosso,

como se todo o tempo fosse pouco,

como se nem sequer houvesse tempo.

Joaquim Pessoa

Compreender
Junho 19, 2009

É triste não compreender.

Mais triste ainda é não obter uma explicação.

Vida, por que és tão complicada?

Quando escondes as tuas cartas,

imagino histórias e histórias de angústia,

entrego-me ao correr da intuição

transformada em pesadelo…

angústia

Não sei o que se passa.

E tu não queres que eu saiba.

Queres que eu continue a mendigar respostas…

 

Diana Sá