O Vento
Agosto 15, 2017

O cipreste inclina-se em fina reverência
e as margaridas estremecem, sobressaltadas.

A grande amendoeira consente que balancem
suas largas folhas transparentes ao sol.

Misturam-se uns aos outros, rápidos e frágeis,
os longos fios da relva, lustrosos, lisos cílios verdes.

Frondes rendadas de acácias palpitam inquietantemente
com o mesmo tremor das samambaias
debruçadas nos vasos.

Fremem os bambus sem sossego,
num insistente ritmo breve.

O vento é o mesmo:
mas sua resposta é diferente, em cada folha.

Somente a árvore seca fica imóvel,
entre borboletas e pássaros.

Como a escada e as colunas de pedra,
ela pertence agora a outro reino.
Se movimento secou também, num desenho inerte.
Jaz perfeita, em sua escultura de cinza densa.

O vento que percorre o jardim
pode subir e descer por seus galhos inúmeros:

ela não responderá mais nada,
hirta e surda, naquele verde mundo sussurrante.

Cecília Meireles    em     “Mar Absoluto”

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Reza da manhã de Maio
Maio 19, 2017

 

Senhor, dai-me a inocência dos animais
para que eu possa beber nesta manhã
a harmonia e a força das coisas naturais.

Apagai a máscara vazia e vã
de humanidade,
apagai a vaidade,
para que eu me perca e me dissolva
na perfeição da manhã
e para que o vento me devolva
a parte de mim que vive
à beira dum jardim que só eu tive.

flor-da-pc3a1scoa11

Sophia de Mello Breyner Andresen.

Horas breves de meu contentamento
Novembro 9, 2016

Horas breves de meu contentamento,

nunca me pareceu, quando vos tinha,

que vos visse mudadas tão asinha

em tão compridos anos de tormento.

.

As altas torres, que fundei no vento,

levou, enfim, o vento que as sustinha:

do mal, que me ficou, a culpa é minha,

pois sobre coisas vãs fiz fundamento.

.

Amor com brandas mostras aparece,

tudo possível faz, tudo assegura;

mas logo no melhor desaparece.

.

Estranho mal! Estranha desventura!

Por um pequeno bem, que desfalece,

um bem aventurar, que sempre dura!

castelo

Luiz de Camões

Forma
Agosto 9, 2016

Procurava um estilo – algo que se pusesse no

poema como um chapéu para a chuva ou para o

sol. Queria vestir a linguagem, a estrofe, o verso

com a insólita elegância do equilibrista. Lia

em voz alta os poemas dos outros como se fossem

seus; e, no entanto, não conseguia sair da

“aurea mediocritas”, do tom baixo que caracteriza

os simples imitadores, Uma noite, aproveitou

o isolamento da rua para se observar a si

próprio no reflexo de uma porta de vidro. “Quem

és?”, perguntou à sua imagem; e não se espantou

com o silêncio que lhe respondeu. Não era ele,

afinal, incapaz de explicar fosse o que fosse

da vida ? Construía ilusões e deixava que elas

se esfumassem sem se preocupar em fixar a

sua imagem – afinal, aquilo de que os poemas são

feitos. E o inverno passou, com o fogo das suas

águas; uma primavera trouxe-lhe o nome que há

muito se desabituara de chamar; julho e agosto

prostraram-no na hesitação das tardes. Para quê

escrever? Porém, as nuvens do outono desceram ao

nível dos telhados; os dias ficavam mais curtos;

o vento do norte chegava com uma dicção de

antigas folhas. Pensa que os mortos te visitam;

abre-lhes a página; e descobre que és um deles,

envolto num lençol de névoa e de retórica.

Moon and cloud.

Nuno Júdice

Quando eu morrer
Julho 4, 2016

Quando eu morrer quero as tuas mãos nos meus olhos:
quero a luz e o trigo das tuas mãos amadas
passando uma vez mais sobre mim sua frescura:
sentir a suavidade que mudou o meu destino.
.
Quero que vivas enquanto eu, adormecido, te espero,
quero que teus ouvidos sigam ouvindo o vento,
que sintas o perfume do mar que amamos juntos
e que sigas pisando a areia que pisamos.
.
Quero que o que amo continue vivo
e a ti amei e cantei sobre todas as coisas,
por isso segue tu florescendo, florida,

para que alcances tudo o que meu amor te ordena,
para que passeie minha sombra por teus cabelos,
para que assim conheçam a razão do meu canto.

Neruda
Pablo Neruda    em  Cem Sonetos de Amor

 

O mais é nada
Março 16, 2016

Navega, descobre tesouros, mas não os tires do fundo do mar, o lugar deles é lá.
Admira a lua, sonha com ela, mas não queiras trazê-la para a terra.
Goza o sol, deixa-te acariciar por ele, mas lembra-te que o calor dele é para todos.
Sonha com as estrelas, sonha apenas, elas só podem brilhar no céu.
Não tentes deter o vento, ele precisa de correr por toda a  parte, ele tem pressa de chegar sabe-se lá onde.
Não segures a chuva, ela quer cair e molhar muitos rostos, não pode molhar só o teu.
As lágrimas? Não as seques, elas precisam correr na minha, na tua, em todas as faces.
O sorriso! Esse tu deves segurar, não deixes-o ir embora, agarra-o!
Quem tu amas? Guarda dentro de um guarda- jóias, tranca, perde a chave!
Quem tu amas é a maior jóia que tu possuis, a mais valiosa.

Não importa se a estação do ano muda, se o século vira e se o milénio é outro, se a idade aumenta;

conserva a vontade de viver, não se chega a nenhuma parte sem ela.
Abre todas as janelas que encontrares e as portas também.
Persegue um sonho, mas não o deixes viver sozinho.
Alimenta a tua alma com amor, cura as tuas feridas com carinho.
Descobre-te todos os dias, deixa-te levar pelas vontades, mas não enlouqueças por elas.

Procura, procura sempre o fim de uma história, seja ela qual for.
Dá um sorriso a quem esqueceu como se faz isso.
Acelera os teus pensamentos, mas não permita que eles te consumam.
Olha para o lado, alguém precisa de ti.
Abastece o teu coração de fé, não a percas nunca.
Mergulha de cabeça nos teus desejos e satisfá-los.
Agoniza de dor por um amigo, só sai dessa agonia se conseguires tirá-lo também.
Procura os teus caminhos, mas não magoes ninguém nessa procura.
Arrepende-te, volta atrás, pede perdão!
Não te acostumes com o que não te faz feliz, revolta-te quando julgares necessário.
Alaga o teu coração de esperanças, mas não deixes que ele se afogue nelas.
Se achares que precisas voltar, volta!
Se perceberes que precisas de seguir, segue!
Se estiver tudo errado, começa novamente.
Se estiver tudo certo, continua.
Se sentires saudades, mata-as.
Se perderes um amor, não te percas!
Se o  achares, segura-o!
“Circunda-te de rosas, ama, bebe e cala. O mais é nada.”

rosas brancas

Fernando Pessoa

Balada da Neve
Fevereiro 28, 2016

Augusto Gil
Batem leve, levemente,
como quem chama por mim.
Será chuva? Será gente?
Gente não é, certamente
e a chuva não bate assim.

É talvez a ventania:
mas há pouco, há poucochinho,
nem uma agulha bulia
na quieta melancolia
dos pinheiros do caminho…

Quem bate, assim, levemente,
com tão estranha leveza,
que mal se ouve, mal se sente?
Não é chuva, nem é gente,
nem é vento com certeza.

Fui ver. A neve caía
do azul cinzento do céu,
branca e leve, branca e fria,
há quanto tempo a não via…
…e que saudades, Deus meu!
.
Olho-a através da vidraça.
Pôs tudo da cor do linho.
Passa gente e, quando passa,
os passos imprime e traça
na brancura do caminho…

Fico olhando esses sinais
da pobre gente que avança,
e noto, por entre os mais,
os traços miniaturais
duns pezitos de criança…

E descalcinhos, doridos…
a neve deixa inda vê-los,
primeiro, bem definidos,
depois, em sulcos compridos,
porque não podia erguê-los!…

Que quem já é pecador
sofra tormentos, enfim!
Mas as crianças, Senhor,
porque lhes dais tanta dor?!…
Porque padecem assim?!…

E uma infinita tristeza,
uma funda turbação
entra em mim, fica em mim presa.
Cai neve na Natureza
e cai no meu coração.

Augusto Gil

As tuas mãos
Fevereiro 8, 2016

As tuas mãos terminam em segredo.
Os teus olhos são negros e macios
Cristo na cruz os teus seios (?) esguios
e o teu perfil princesas no degredo…

Entre buxos e ao pé de bancos frios
nas entrevistas alamedas, quedo
O vendo põe o seu arrastado medo
Saudoso o longes velas de navios.

Mas quando o mar subir na praia e for
arrasar os castelos que na areia
as crianças deixaram, meu amor,

será o haver cais num mar distante…
Pobre do rei pai das princesas feias
no seu castelo à rosa do Levante !

gaivotas 3

Fernando Pessoa, em ‘Cancioneiro’

Que culpa terão as ondas?
Janeiro 6, 2016

… Que culpa terão as ondas
dos movimentos que façam?
– São os ventos que as impelem
e sulcos profundos traçam.
… Aos ventos quem lhes ordena
que rasguem rugas no mar?
– São as nuvens inquietas
que os não deixam sossegar.
… E as nuvens, almas de névoa,
porque não param, coitadas?
– É que as asas das gaivotas
as trazem desafiadas.
… Mas as asas das gaivotas,
o cansaço há-de detê-las!
– Juraram buscar descanso
nas pupilas das estrelas.
E como as estrelas estão altas
e não tombam nem se alcançam,
as asas das pobrezinhas
baldamente se cansam…
baldamente se cansam,
baldamente palpitam!…
As nuvens, por fatalismo,
logo com elas se agitam;
os impulsos que elas dão
arrastam as ventanias;
as vagas arfam nos mares
em macabras fantasias…
.
… Assim as almas inquietas…
Prisioneiras de ansiedades,
mal que se erguem da terra,
naufragam nas tempestades.

espuma

Reinaldo Ferreira

As palavras que eu digo
Março 17, 2015


As palavras que eu digo
sobre o aroma das flores
são palavras às cores,
que na minha alma respiro
e é nelas que cheiro,
que recordo e que vivo.

Como marinheiro em terra preso,
em minha mente navego
nas memórias agitadas
por vagas de pensamentos
levadas pelos ventos
à terra dos sentimentos
no coração atracado.

Cada porto de abrigo
é uma história que se conta
de um homem nascido,
tendo tudo vivido
que se faz das palavras que eu digo.

José Maria Almeida