Os dias de Verão
Julho 7, 2018

Os dias de verão vastos como um reino
cintilantes de areia e maré lisa
Os quartos apuram seu fresco de penumbra
Irmão do lírio e da concha é nosso corpo

Tempo é de repouso e festa
O instante é completo como um fruto
Irmão do universo é nosso corpo

O destino torna-se próximo e legível
enquanto no terraço fitamos o alto enigma familiar dos astros
que em sua imóvel mobilidade nos conduzem

como se em tudo aflorasse eternidade

Justa é a forma do nosso corpo

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Sophia de Mello Breyner Andresen    em    Obra Poética

Herança
Outubro 12, 2017

É a minha herança: o sorriso,

o azul de uma pedra branca.

Posso juntar-lhe, ao acaso da memória,

um ramo de madressilva inclinado

para as abelhas que metodicamente fazem

do outono o lugar preferido do verão,

um melro que deixou o jardim público

para fazer ninho num poema meu,

um barco chamado Cavalinho na Chuva

à espera de reparação no molhe da Foz.

Deve haver mais alguma coisa,

não serei tão pobre, cometemos sempre

a injustiça de não referir, por pudor,

coisas mais íntimas: um verso de Safo,

traduzido por Quasimodo, a mão

que por instantes nos pousou no joelho

e logo voou para muito longe,

as cadências do coração,

teimoso em repetir que não envelheceu.

suave

Eugénio de Andrade

Quando está frio
Janeiro 7, 2014

Quando está frio no tempo do frio, para mim é como se estivesse agradável,
porque para o meu ser adequado à existência das cousas
o natural é o agradável só por ser natural.

Aceito as dificuldades da vida porque são o destino,
como aceito o frio excessivo no alto do Inverno —
calmamente, sem me queixar, como quem meramente aceita,
e encontra uma alegria no facto de aceitar —
no facto sublimemente científico e difícil de aceitar o natural inevitável.

Que são para mim as doenças que tenho e o mal que me acontece
senão o Inverno da minha pessoa e da minha vida?
O Inverno irregular, cujas leis de aparecimento desconheço,
mas que existe para mim em virtude da mesma fatalidade sublime,
da mesma inevitável exterioridade a mim,
que o calor da terra no alto do Verão
e o frio da terra no cimo do Inverno.

Aceito por personalidade.
Nasci sujeito como os outros a erros e a defeitos,
mas nunca ao erro de querer compreender demais,
nunca ao erro de querer compreender só com a inteligência,
nunca ao defeito de exigir do Mundo
que fosse qualquer cousa que não fosse o Mundo.

dois_pinguins

Alberto Caeiro

Resgate
Novembro 6, 2013

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Há qualquer coisa aqui de que não gostam

da terra das pessoas ou talvez

deles próprios

cortam isto e aquilo e sobretudo

cortam em nós

culpados sem sabermos de quê

transformados em números estatísticas

défices de vida e de sonho

dívida pública dívida

de alma

há qualquer coisa em nós de que não gostam

talvez o riso esse

desperdício.

.

Trazem palavras de outra língua

e quando falam a boca não tem lábios

trazem sermões e regras e dias sem futuro

nós pecadores do sul nos confessamos

amamos a terra o vinho o sol o mar

amamos o amor e não pedimos desculpa.

.

Por isso podem cortar

punir

tirar a música às vogais

recrutar quem vos sirva

não podem cortar o verão

nem o azul que mora

aqui

não podem cortar quem somos.

Manuel Alegre

Amigos e amantes
Setembro 24, 2013

Os amantes aparecem no verão, quando os amigos partiram
para o sul à sua procura, deixando um lugar vago
à mesa, um bilhete entalado na porta, as plantas,
o canário, um beijo e um livro emprestado: a memória
das suas biografias incompletas. Os amigos
desaparecem em agosto. Consomem-nos as labaredas do sol
e os amantes que chegam ao fim da tarde
jantam e de manhã ajudam a regar as raízes das avencas
que os amigos confiaram até setembro, quando regressam

 trazem saudades e um romance novo debaixo da língua.
Levam um beijo, os vasos, as gaiolas e os amantes
deixam um lugar vago na memória, cabelos na almofada,
uma carta, desculpas, e um livro de cabeceira que os
amigos lêem, pacientes, ocupando o seu lugar à mesa.mar_2

MARIA DO ROSÁRIO PEDREIRA,  em A CASA E O CHEIRO DOS LIVROS (Quetzal, 1996), in POESIA REUNIDA (Quetzal, 2012)

Tempo em que se morre
Agosto 5, 2010

Agora é verão, eu sei.

Tempo de facas, tempo

em que perdem os anéis

as cobras à míngua de água.

Tempo em que se morre

de tanto olhar os barcos.

É no verão, repito.

Estás sentada no terraço

e para ti correm todos os meus rios.

Entraste pelos espelhos :

mal respiras.

Vê-se bem que já não sabes respirar,

que terás de aprender com as abelhas.

Sobre os gerânios

te debruças lentamente.

Com rumor de água

sonâmbula ou de arbusto decepado

dás-me de beber

um tempo assim ardente.

Pousas as mãos sobre o meu rosto,

e vais partir

sem nada me dizer,

pois só quiseste despertar em mim

a vocação do fogo ou do orvalho.

E devagar, sem te voltares,

pelos espelhos entras na noite.

Eugénio de Andrade