Poema Quadragésimo Sexto
Junho 19, 2014

violeta 2

Peço-te. Não pises as violetas
que trago no olhar.

Falemos dos brilhos estilhaçados
desta casa súbita que é o teu corpo
devoluto. A noite devora as palavras possíveis,
o sofrimento que pulsa em tua boca
e torna a minha boca vulnerável.
O amor é um nada que a liberta, uma luz
que desce dos ombros para o ventre
e fecunda as sementes da tua virgindade,
essa que faz agora parte de uma dor quase
amigável, na lividez do tempo,
e que entregas em minhas mãos, beijando-as,
tornando-te parte dos meus versos, da
minha forma mais profunda de gostar
de ti. Amar-te, é escrever-te.
Amar-te é deixar que me toques até ser teu,
até que te deites no meu corpo e adormeças
inteira dentro de mim. Peço-te. Não pises as violetas
que trago no olhar. Cheiram a ti. São para ti.
Um “bouquet” de palavras que floriram
neste tempo de amor..
JOAQUIM PESSOA,   em   GUARDAR O FOGO

Chorosos versos meus
Maio 13, 2014

Chorosos versos meus desentoados,

sem arte, sem beleza e sem brandura,

urdidos pela mão da Desventura,

pela baça tristeza envenenados.

.

Vede a luz, não busqueis, desesperados,

no mundo esquecimento, a sepultura;

se os ditosos vos lerem sem ternura,

ler-vos-ão com ternura os desgraçados.

.

Não vos inspire, ó versos, cobardia

da sátira mordaz o furor louco,

da maldizente voz a tirania.

.

Desculpa tendes, se valeis tão pouco;

que não pode cantar com melodia

um peito, de gemer cansado e rouco.

Bocage

Bocage

A espantosa realidade das cousas
Março 12, 2014

A espantosa realidade das cousas
é a minha descoberta de todos os dias.
Cada cousa é o que é,
e é difícil explicar a alguém quanto isso me alegra,
e quanto isso me basta.

Basta existir para se ser completo.

Tenho escrito bastantes poemas.
Hei de escrever muitos mais. Naturalmente.

Cada poema meu diz isto,
e todos os meus poemas são diferentes,
porque cada cousa que há é uma maneira de dizer isto.

Às vezes ponho-me a olhar para uma pedra.
Não me ponho a pensar se ela sente.
Não me perco a chamar-lhe minha irmã.
Mas gosto dela por ela ser uma pedra,
Gosto dela porque ela não sente nada.
Gosto dela porque ela não tem parentesco nenhum comigo.

Outras vezes oiço passar o vento,
e acho que só para ouvir passar o vento vale a pena ter nascido.

Eu não sei o que é que os outros pensarão lendo isto;
mas acho que isto deve estar bem porque o penso sem estorvo,
nem idéia de outras pessoas a ouvir-me pensar;
porque o penso sem pensamentos
porque o digo como as minhas palavras o dizem.

Uma vez chamaram-me poeta materialista,
e eu admirei-me, porque não julgava
que se me pudesse chamar qualquer cousa.
Eu nem sequer sou poeta: vejo.
Se o que escrevo tem valor, não sou eu que o tenho:
o valor está ali, nos meus versos.
Tudo isso é absolutamente independente da minha vontade.

Alberto Caeiro,  em  “Poemas Inconjuntos”
Heterónimo de Fernando Pessoa

Fernando Pessoa

Quando eu morrer
Fevereiro 20, 2014

Quando eu morrer, não digas a ninguém que foi por ti.

Cobre o meu corpo frio com um desses lençóis

que alagámos de beijos quando eram outras horas

nos relógios do mundo e não havia ainda quem soubesse

de nós; e leva-o depois para junto do mar, onde possa

ser apenas mais um poema – como esses que eu escrevia

assim que a madrugada se encostava aos vidros e eu

tinha medo de me deitar só com a tua sombra. Deixa

.

que nos meus braços pousem então as aves (que, como eu,

trazem entre as penas a saudade de um verão carregado

de paixões). E planta à minha volta uma fiada de rosas

brancas que chamem pelas abelhas, e um cordão de árvores

que preferem a noite – porque a morte deve ser clara

com o sal na bainha das ondas, e a cegueira sempre

me assustou (e eu já ceguei de amor, mas não contes

a ninguém que foi por ti). Quando eu morrer, deixa-me

.

a ver o mar do alto de um rochedo e não chores, nem

toques com os teus lábios a minha boca fria. E promete-me

que rasgas os meus versos em pedaços tão pequenos

como pequenos foram sempre os meus ódios; e que depois

os lanças na solidão de um arquipélago e partes sem olhar

para trás nenhuma vez: se alguém os vir de longe brilhando

na poeira, cuidará que são flores que o vento despiu, estrelas

que se escaparam das trevas, pingos de luz, lágrimas de sol,

as penas de um anjo que perdeu as asas por amor.

large

Maria do Rosário  Pedreira

Acusam-me de mágoa e desalento
Maio 1, 2013

Acusam-me de mágoa e desalento,

como se toda a pena dos meus versos

não fosse carne vossa, homens dispersos,

e a minha dor a tua, pensamento.

.

Hei-de cantar-vos a beleza um dia,

quando a luz que não nego abrir o escuro

da noite que nos cerca como um muro,

e chegares a teus reinos, alegria.

.

Entretanto, deixai que não me cale:

até que o muro fenda, a treva estale,

seja a tristeza o vinho da vingança.

.

A minha voz de morte é a voz da luta:

se quem confia a sua dor perscruta,

maior glória tem em ter esperança.

anoitecer

Luís de Camões

Soneto
Dezembro 21, 2011

Acusam-me de mágoa e desalento,

como se toda a pena dos meus versos

não fosse carne vossa, homens dispersos,

e a minha dor a tua, pensamento.

.

Hei-de cantar-vos a beleza um dia,

quando a luz que não nego abrir o escuro

da noite que nos cerca como um muro,

e chegares a teus reinos, alegria.

.

Entretanto, deixai que me não cale

até que o mundo funda, a treva estale,

seja a tristeza o vinho da vingança.

.

A minha voz de morte é a voz da luta:

se quem confia a própria dor prescruta,

maior glória tem em ter esperança.

Carlos de Oliveira

A condenação
Dezembro 16, 2011

Cansado da poesia,

o poeta levou os seus poemas

para junto de um rio.

.

Queria rasgar os versos

um por um,

dilacerar a palavra,

truncar a ideia,

desfibrar o coração.

.

Para o fim da poesia,

procurou um rio que não tivesse nome.

Teria que ser assim :

junto a um  rio sem nome.

.

Nele afogaria a letra,

dissolveria a tinta,

liquefaria rima e metáfora.

.

Andou, cirandou : mas onde quer

que corresse um fio de água

fluía junto um nome

como se toda a água nascesse da palavra.

.

Deu volta ao mundo,

chegou onde não havia mais mundo :

em nenhum lado

figurava o inominado riachinho.

.

Cansado,

regressou à sua aldeia

e reincidiu na sua inicial angústia.

Ali, no pequeno ribeiro de sua terra natal,

ele sentou o seu desespero

e decepou os cadernos,

desmembrou a escrita

e afogou os papéis

até que deixaram de respirar.

.

Chegou-se um peixe

e, de um golpe, comeu um verso.

No seguinte instante,

lhe cresceram asas

e o peixe soltou um voo de garça

para ganhar os vastos céus.

.

Dos papéis que restavam em suas mãos

emergiu um braço de mulher

que, em dissolvente carícia,

por sonhos o fez viajar.

.

Nessa noite,

de regresso a si mesmo,

o poeta

escreveu derradeiros versos

para matar de vez a poesia.

.

Acedeu, por fim,

à pequena morte do sono,

desconhecendo

que, mesmo adormecido,

dentro de si

seguia fluindo

o único rio sem nome.

Mia Couto

Em teu louvor
Setembro 12, 2010

Hoje é que percebi : sigo esquecido e alheio,

e há muito tempo já que não falo de nós.

Não precisas no entanto de ter nenhum receio,

se versos não te dou, é que hoje, em meu enleio,

tudo esqueço por ti… quando estamos a sós…

Ontem, era o começo, era o sonho, ansiedade!

A vida uma esperança a repartir por dois…

Hoje… hoje é tão boa a nossa intimidade

que é bastante viver, e a própria realidade

não nos deixa pensar no que virá depois…

  …

Ontem, fiz do meu verso uma arma de conquista,

e teci confidências preludiando o amor…

Hoje, (perdoa se o homem sobrepuja o artista!),

quando em tua nudez, surge bela e imprevista,

minha alma em minhas mãos tem ânsias de escultor.

Vivamos!.. E prometo então para mais tarde

mil versos,(sabes bem que um dia hei-de fazê-los…).

Agora, basta que te deseje e te ame sem alarde

a mergulhar na sombra o rosto em teus cabelos.

Mais tarde, sim, mais tarde, hás-de tê-los, querida,

ressonâncias de amor, versos puros e francos,

cantos de ave ao sol poente, última ária da vida,

quando a noite cerrar meus olhos, comovida,

e o luar tingir de prata os teus cabelos brancos!…

Agora, não… Agora a vida é bela, é louca,

nos sentidos em festa e em sons primaveris;

é o beijo que procuro e mordo em tua boca!

…é a sombra que se vai… é a noite curta e pouca…

(são tão curtas as noites quando se é feliz!)

Sou assim, quando vivo não escrevo, vivo!

E não brotam meus versos de desejos vãos…

Se tenho em minhas mãos o teu corpo cativo,

é inútil insistir, meu pensamento é esquivo.

Só tu existes, tu! e a ânsia das minhas mãos…

Ontem, dava~te versos, versos que relias

com um estranho langor nos olhos extasiados…

Hoje, encho de beijos tuas mãos vazias,

e esquecidos do tempo, vão rolando os dias

…e as noites vão rolando em teus olhos cerrados!

Hoje é que percebi num segundo de sonho :

já não faço mais versos sobre o nosso amor…

Mas, que importa? Se vejo o teu olhar risonho…

os versos que em silêncio em teu corpo componho

são os mais belos talvez que faço em teu louvor!

J. G. Araújo Jorge

Olhar
Março 25, 2010

Em teu macio olhar repousa o meu.

E na face polida, assim formada,

se reflecte e recria o próprio céu.

Daniel Filipe

Poema da minha natureza
Março 17, 2010

Crescem as flores no seu dever biológico,

e as cores que patenteiam, por sua natureza,

só podem ser aquelas, e não outras.

Vermelhas, amarelas, cinza, fogo,

lilases, carmesins, azuis, violetas, assim, e só assim,

tudo conforme a sua natureza.

Ásperas são as folhas, macias, recortadas

ou não, tudo conforme ;

e o aprumo como tal,

ou rasteiras, ou leves, ou pesadas,

tudo no seu dever,

por sua natureza.

É como os animais.

Em cada qual, por sua natureza,

todo o dever se cumpre.

Comem, dejectam, dormem,

fazem amor nas horas competentes,

lutam, caçam, agridem,

rosnam à lua, trinam, assobiam,

escondem-se, espreitam, fogem, amarinham,

dançam, mudam de pele, agacham-se, disfarçam-se,

tudo conforme a sua natureza.

Assim eu penso, e amo, e sofro, e vou andando.

Tudo conforme a minha natureza.


António Gedeão