Motivo
Novembro 10, 2019

Eu canto porque o instante existe

e a minha vida está completa.

Não sou alegre nem sou triste

sou poeta.
.
.
Irmão das coisas fugidias,

não sinto gozo nem tormento.

Atravesso noites e dias

no vento.
.
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Se desmorono ou se edifico,

se permaneço ou me desfaço,

– não sei, não sei. Não sei se fico

ou passo.
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Sei que canto. E a canção é tudo.

Tem sangue eterno a asa ritmada.

E um dia sei que estarei mudo:

– mais nada.
.

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Cecília Meireles

Não
Novembro 3, 2019

Não dançarei ao ritmo do seu tambor de guerra.
Não entregarei a minha alma e os meus ossos ao tambor da guerra.
Não dançarei ao seu ritmo.
Conheço esse ritmo, é um ritmo sem vida.

Conheço muito bem essa pele que vocês golpeiam.
Ainda fiquei viva depois de perseguida, roubada, expandida.
Não dançarei ao ritmo do seu tambor de guerra.
Não vou odiar por vossa conta, nem sequer vos vou odiar.

Não vou matar por vossa conta. E não vou morrer por vocês.
Não vou chorar a morte com assassínios nem suicídio.
Não dançarei com bombas só porque os outros estão a dançar.
Podem estar todos enganados.

A vida é um direito, não um dano colateral ou casual.
Não me esquecerei de onde venho, tocarei o meu tambor.
Reunirei os meus amados e o nosso canto será dança.
O nosso zumbido será o ritmo. Não serei enganada.

Não emprestarei o meu nome nem o meu ritmo ao vosso som
Dançarei e resistirei, dançarei e continuarei e dançarei
Este bater do meu coração soa mais forte do que a morte
O vosso tambor de guerra não soará mais forte do que o meu alento.

Suheir Hammad

Canção da breve serenidade
Outubro 10, 2019

chuva

Ouço a chuva cair. Olho as ruas molhadas.

Penso nas violetas e nos jardins em flor.

Desce ao meu coração uma paz sem memória.

Desce ao meu coração uma doçura imensa…

.

Lembro o amor a dormir tranquilo e sossegado

A rua esquiva e sem pregões, a rua pobre,

a rua humilde e a casa pequenina, em que se abriga

Lembro a infância que foi e outras manhãs já longe.

.

Sinto a vida como a chuva descendo

sobre os quietos beirais, sobre as ruas, descendo.

Sinto que o tempo é bom porque não pára nunca.

.

Um ritmo de abrigo envolve as coisas, tudo,

vontade de dormir o grande sono calmo

ouvindo a chuva triste e mansa a descer sobre mim.

Augusto Frederico Schmidt

Soneto do Corifeu
Julho 25, 2019

São demais os perigos desta vida
para quem tem paixão, principalmente,
quando uma lua surge de repente
e se deixa no céu, como esquecida.
.
E se ao luar que atua desvairado
vem se unir uma música qualquer,
aí então é preciso ter cuidado
porque deve andar perto uma mulher.
.
Deve andar perto uma mulher que é feita
de música, luar e sentimento
e que a vida não quer, de tão perfeita.
.
Uma mulher que é como a própria Lua:
tão linda que só espalha sofrimento,
tão cheia de pudor que vive nua.

Vinicius de Moraes

Mecânica de um abraço
Julho 11, 2019

O que encerras num abraço quando
abraças alguém não é
um corpo: é o tempo. Nesse demorar suspenso
(enquanto deténs outra vida) há
um corpo que é teu enquanto o reténs
nos braços
(porquanto o tens para ti
suspendendo o movimento)
enquanto páras o tempo pelo
tempo
de um abraço. Mas a
força dos teus abraços é mais fraca
que a do tempo e
tens de ser tu a ceder
(tens de ser tu a largar) porque
o tempo não aceita estar parado tanto tempo e
exige que o soltes para
tornar ao movimento.

abraco1

João Luís Barreto Guimarães    em   Nómada

Balança
Junho 7, 2019

Com pesos duvidosos me sujeito
à balança até hoje recusada.
É tempo de saber o que mais vale:
se julgar, assistir, ou ser julgado.

Ponho no prato raso quanto sou,
matérias, outras não, que me fizeram,
o sonho fugidiço, o desespero
de prender violento ou descuidar

a sombra que me vai medindo os dias;
ponho a vida tão pouca, o ruim corpo,
traições naturais e relutâncias,
ponho o que há de amor, a sua urgência

o gosto de passar entre as estrelas,
a certeza de ser que só teria
se viesses pesar-me, poesia.

escultura-em-papel

José Saramago   em   Os Poemas Possíveis

Soneto a Katherine Mansfield
Junho 1, 2019

O teu perfume, amada – em tuas cartas

renasce, azul… – são tuas mãos sentidas!

Relembro-as brancas, leves, fenecidas,

pendendo ao longo de corolas fartas.

.

Relembro-as, vou… – nas terras percorridas

torno a aspirá-lo, aqui e ali desperto

paro; e tão perto sinto-te, tão perto

como se numa foram duas vidas.

.

Pranto, tão pouca dor! tanto quisera

tanto rever-te, tanto!… e a primavera

vem já tão próxima!… (Nunca te apartas

.

Primavera, dos sonhos e das preces!)

e no perfume preso em tuas cartas

à primavera surges e esvaneces.

primavera.jpg

Vinicius de Moraes

Femme
Março 8, 2019

 

 

 

 

 

 

 

Femme, j’ai tant de choses à te dire,
Qu’il me faudrait un livre pour l’écrire.
Une vie ne suffit pas, et encore plus de temps,
Car tu portes en toi tout ce que je ressens.
Femme tendresse, femme douceur,
Femme tempête, femme douleur,
Il me faudrait tout le dictionnaire
Pour parler de toi, en rimes et en vers.
.
Tu es le commencement et la fin.
Tu es l’aboutissement, soir et matin.
Tu es l’émotion, la finesse, la vie.
Tu es tout ce que je ne suis pas, je t’envie.
Tu es l’avenir de l’humanité,
Car tu portes en toi l’éternité.
.
Femme d’amour, tu donnes la vie.
Femme de cœur, tu donnes l’amour.
Femme sensible, fragile, forte,
J’attends tout de toi, ouvres-moi ta porte.
Fais-moi une place dans ton cœur.
Offre-moi tout de toi et plus encore.
Femme battue, maltraitée,
.
Femme outragée, mal aimée,
J’aimerais tant te protéger,
Pour pouvoir tout te donner.
Femme courage, tu es admirable.
Femme aimable, tu es remarquable.
.
Tu es, parfois, imprévisible, charmante,
Tellement troublante, émouvante.
Femme au regard si doux, si profond,
Je me plonge dans tes yeux jusqu’au fond,
Recherchant l’insondable, l’innommable.
S’il t’arrive de pleurer, je me sens minable.
Femme, ces colères que je redoute
Lorsque tes yeux lancent des éclairs,
.
J’apprécie pourtant, lorsque tu doutes,
Ton émotion, quoi qu’il t’en coute.
Femme, du fond de ma solitude,
J’ai besoin de ta sollicitude,
.
De ta douceur, de tes caresses,
De ton affection et de ta tendresse.
Femme heureuse, complice de mes bonheurs,
Femme amoureuse, tu supportes mes humeurs.
Et lorsque surviennent orage et malheur,
Tu gémis, tu souffres… pire tu pleures.
.
Femme tu me désarmes,
Alors je rends les armes.
Sans toi je l’avoue, je ne suis rien.
Tu le sais, de toi j’ai tant besoin.
Dis-moi encore qui es-tu ?


( auteur inconnu , texte qui traîne sur le net )

Fadette Aiache

 

 

 

Entre mim e a vida
Março 8, 2019

Já não escrevo sem algo entre mim e a vida:

olho a paisagem,

há inúmeros campos,

regresso a casa pelas estradas de terra,

tropeço em cada pedra.

O sangue do horizonte circula

nas minhas veias,

mas canto a natureza entre mim e a vida.

.

Se volto ao refúgio das paredes domésticas,

surge o teu semblante

no percurso

(é uma realidade,

esqueci as personagens fictícias).

Quero dizer o rosto do último lugar

habitável

e pronuncio o teu nome, perdido.

.

Quando era menos incompleto

trabalhava os poemas

até ao silêncio,

para que dissessem o rumor inaudito,

agora vêm das nascentes

sem a contagem das sílabas.

Consciente da origem e do fim,

de nada separado,

digo milhares de palavras entre mim e a vida.

natureza_rio

Joel  Henriques

Nenhuma morte apagará
Fevereiro 18, 2019

Eu estava tão perto de ti que tenho frio ao pé dos outros.-  PAUL ÉLUARD

amor

Nenhuma morte apagará os beijos

e por dentro das casas onde nos amámos

ou pelas ruas clandestinas da grande cidade livre

estarão para sempre vivos os sinais de um grande amor,

esses densos sinais do amor e da morte

com que se vive a vida.

.

Aí estarão de novo as nossas mãos

e nenhuma dor será possível onde nos beijámos.

Eternamente apaixonados, meu amor. Eternamente livres.

Prolongaremos em todos os dedos os nossos gestos e,

profundamente, no peito dos amantes,

a nossa alma líquida e atormentada

.

desvendará em cada minuto o seu segredo

para que este amor se prolongue e noutras bocas

ardam violentos de paixão os nossos beijos

e os corpos se abracem mais e se confundam

mutuamente violando-se, violentando a noite

para que outro dia, afinal, seja possível.

Joaquim Pessoa