Poesia
Outubro 6, 2017

 

Gastei uma hora pensando um verso

que a pena não quer escrever,

no entanto ele está cá dentro

inquieto, vivo.

Ele está cá dentro

e não quer sair.

Mas a poesia deste momento

inunda minha vida inteira.

escrita

Carlos Drummond de Andrade

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Pavio
Setembro 28, 2017

cora

 

És uma candeia ao canto do quarto
às vezes longe, às vezes perto.
Trazes o brilho e a coragem,
demonstras a fé nesta viagem…

– E eu estou aqui deitado,
às vezes ao frio, às vezes tapado
(cresce em mim a tempestade)
– Aqueço assim a saudade.

E no frio desta caverna
húmida e teimosamente eterna,
pingo a pingo, hoje, amanhã e depois,
lembro as vidas que não tivemos os dois.
Apenas este pavio
veio acalmar este frio
nas mãos, na mente e na alma.
Uma voz suave que acalma…

Cêra.
Quimera.
Sonho.
Coração tamanho.

António

O Amor
Julho 14, 2017

 

Quando encontrar alguém e esse alguém fizer seu coração parar de funcionar por alguns segundos, preste atenção. Pode ser a pessoa mais importante da sua vida.
Se os olhares se cruzarem e neste momento houver o mesmo brilho intenso entre eles, fique alerta: pode ser a pessoa que você está esperando desde o dia em que nasceu.

Se o toque dos lábios for intenso, se o beijo for apaixonante e os olhos encherem d’água neste momento, perceba: existe algo mágico entre vocês.

Se o primeiro e o último pensamento do dia for essa pessoa, se a vontade de ficar juntos chegar a apertar o coração, agradeça: Deus te mandou um presente divino: o amor.

Se um dia tiver que pedir perdão um ao outro por algum motivo e em troca receber um abraço, um sorriso, um afago nos cabelos e os gestos valerem mais que mil palavras,entregue-se: vocês foram feitos um pro outro.

Se por algum motivo você estiver triste, se a vida te deu uma rasteira e a outra pessoa sofrer o seu sofrimento, chorar as suas lágrimas e enxugá-las com ternura, que coisa maravilhosa: você poderá contar com ela em qualquer momento de sua vida.

Se você conseguir em pensamento sentir o cheiro da pessoa como se ela estivesse ali do seu lado… se você achar a pessoa maravilhosamente linda, mesmo ela estando de pijamas velhos, chinelos de dedo e cabelos emaranhados..

Se você não consegue trabalhar direito o dia todo, ansioso pelo encontro que está marcado para a noite… se você não consegue imaginar, de maneira nenhuma, um futuro sem a pessoa ao seu lado…

 Se você tiver a certeza que vai ver a pessoa envelhecendo e, mesmo assim, tiver a convicção que vai continuar sendo louco por ela…

Se você preferir morrer antes de ver a outra partindo: é o amor que chegou na sua vida. É uma dádiva.

 Muitas pessoas apaixonam-se muitas vezes na vida, mas poucas amam ou encontram um amor verdadeiro. Ou às vezes encontram e por não prestarem atenção nesses sinais, deixam o amor passar, sem deixá-lo acontecer verdadeiramente. É o livre-arbítrio.

Por isso preste atenção nos sinais, não deixe que as loucuras do dia a dia o deixem cego para a melhor coisa da vida: o amor.

Amar é...

Vinicius  de  Moraes

Quantas vezes, Amor, me tens ferido
Junho 12, 2017

Quantas vezes, Amor, me tens ferido?

Quantas vezes, Amor, me tens curado?

Quão fácil de um estado a outro estado

o mortal sem querer é conduzido!

.

Tal, que em grau venerando, alto e luzido,

como que até regia a mão do fado,

onde o sol, bem de todos, lhe é vedado,

depois, com ferros vis se vê cingido:

.

para que o nosso orgulho as asas corte,

que variedade inclui esta medida,

este intervalo da existência à morte!

.

Travam-se gosto, e dor, sossego e lida;

é lei da natureza, é lei de sorte,

que seja o mal e o bem matiz da vida.

amar-o-prc3b3ximo

Bocage

O silêncio
Maio 31, 2017

O silêncio dói como pedra na língua.

A vida por vezes não tem esperança nem sentido,

tudo parece em paz e no entanto o amor

tem sempre uma mais fria recompensa.

Desde a primeira flor, pouco ainda mudou

essa face da noite com a face do Homem.

O rouxinol canta, sim, a dor do Homem canta

e à força de a esquecer aprende-se a esquecer.

O silêncio é de passos que atormentam a noite

e que ao fundo do fogo vão buscar a luz

para fazer arder as horas até ao orvalho

onde a manhã se ri com os dentes da água.

Às vezes vagueia pelo pomar da noite

uma égua perdida numa nesga de luz,

é a dor que pergunta e procura uma casa

junto à erva do peito, sob os olhos calados.

novembro2

Joaquim Pessoa

Nunca serei vencida
Março 23, 2017

Nunca serei vencida.
Não o serei
senão à força de vencer.

Cada armadilha estendida
fechando-me cada vez mais
no amor
que acabará por ser o meu
túmulo,
acabarei a minha vida numa cela
de vitórias.

Sozinha,
a derrota encontra chaves,
abre portas.

A morte,
para atingir o fugitivo,
tem de se pôr em movimento,
perder essa fixidez
que nos faz reconhecer
que ela é o duro contrário
da vida.

Ela dá-nos o fim do cisne
atingido em pleno voo,
de Aquiles agarrado pelos cabelos
por não sabermos que sombria Razão.

Como a mulher asfixiada no vestíbulo
da sua casa de Pompeia,
a morte não faz mais do que prolongar
no outro mundo os corredores
da fuga.

A minha morte será
de pedra.

Conheço as passagens,
as curvas,
as armadilhas,
todas as minas da Fatalidade.

Não posso perder-me.

A morte,
para me matar,
terá necessidade da minha
cumplicidade.

Foto de Livraria Poetria.
Marguerite Yourcenar

Sou isso, enfim
Fevereiro 7, 2017

Começo a conhecer-me. Não existo.

Sou o intervalo entre o que desejo ser e os outros me fizeram,

Ou metade desse intervalo, porque também há vida…

Sou isso, enfim…

Apague a luz, feche a porta e deixe de ter barulho de chinelas no corredor.

Fique eu no quarto só com o grande sossego de mim mesmo.

É um universo barato.

fernpessoa1

s.d.

Poesias de Álvaro de Campos    em    Fernando Pessoa. Lisboa: Ática, 1944 (imp. 1993).

Poema sobre nada
Janeiro 26, 2017

Por vezes a Primavera é um pássaro que atravessa o Inverno,

não há o calor do sol

ou a brisa tépida que sopra por entre as folhas,

por vezes um olhar é o único aceno.

.

Há dias em que a única certeza da vida

é a tua leve presença

sobre o abismo da ignorância,

há dias em que nem a morte está garantida.

.

Um pássaro de luz corta as nuvens de sombra,

desde a claridade e as trevas

do princípio,

um pássaro de luz da tua íris irrompe.

.

Os teus braços não provarão que estou vivo,

são efémeros

mas deixei de parte a memória,

os teus braços nada provam e cinjo-os.

passaroverde

Joel Henriques

Neste curto espaço entre nós e a morte
Dezembro 27, 2016

Neste curto espaço entre nós e a morte

tão mal gastamos nossa longa despedida!

.

Tu, amor de quem não sei o nome

de onde não sei a sorte,

vais passar além deste poema que era teu

e assim de morte construída,

teus passos vão enchendo a minha vida.

.

Outro nome será flor sobre os teus lábios,

e outros dedos tocarão a límpida frescura

dos teus ombros quase d’ água

e saberão de cor o horizonte branco do teu corpo…

.

E assim iremos de olhos futuros,

tu, envelhecendo na minha ausência,

eu, a erguer-te na curva da esperança,

.

e outra mão vai desmanchar a tua trança

e hei-de beijar teu rosto onde não eras

e serás só o que há antes das horas mais tristes

e será tarde até saber que não existes.

.

Neste curto espaço entre nós e a morte,

onde me vais perdendo,

onde te vou buscando.

nosso amor se vai embora alimentando

de despedida ;

não porque morra o tempo em teus braços,

mas a vida.

Dandelion --- Image by © Dave Michaels/zefa/Corbis

Dandelion — Image by © Dave Michaels/zefa/Corbis

Victor Matos e Sá

O Amor, meu Amor
Novembro 21, 2016

Nosso amor é impuro
como impura é a luz e a água
e tudo quanto nasce
e vive além do tempo.

Minhas pernas são água,
as tuas são luz
e dão a volta ao universo
quando se enlaçam
até se tornarem deserto e escuro.
E eu sofro de te abraçar
depois de te abraçar para não sofrer.

E toco-te
para deixares de ter corpo
e o meu corpo nasce
quando se extingue no teu.

E respiro em ti
para me sufocar
e espreito em tua claridade
para me cegar,
meu Sol vertido em Lua,
minha noite alvorecida.

Tu me bebes
e eu me converto na tua sede.
Meus lábios mordem,
meus dentes beijam,
minha pele te veste
e ficas ainda mais despida.

Pudesse eu ser tu
E em tua saudade ser a minha própria espera.

Mas eu deito-me em teu leito
Quando apenas queria dormir em ti.

E sonho-te
quando ansiava ser um sonho teu.

E levito, voo de semente,
para em mim mesmo te plantar
menos que flor: simples perfume,
lembrança de pétala sem chão onde tombar.

Teus olhos inundando os meus
e a minha vida, já sem leito,
vai galgando margens
até tudo ser mar.
Esse mar que só há depois do mar.

mia_couto1

Mia Couto    em    “idades cidades divindades”