Sete anos de pastor Jacob servia
Abril 2, 2018

Sete anos de pastor Jacob servia

Labão, pai de Raquel, serrana bela:

mas não servia ao pai, servia a ela,

que a ela só por prémio pretendia.

.

Os dias, na esperança de um só dia,

passava, contentando-se com vê-la,

porém o pai, usando de cautela,

em lugar de Raquel lhe dava Lia.

.

Vendo o triste pastor que, com enganos,

assim lhe era negada a sua pastora,

como se a não tivera merecida,

.

começou a servir outros sete anos,

dizendo: Mais servira se não fora

para tão grande amor tão curta a vida.

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Luiz de Camões

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Morrer dentro de ti
Fevereiro 28, 2018

Morar dentro de ti como eu gostava
dormir sempre em teu peito bom seria
fazer da tua boca a minha casa
com varandas suspensas de alegria

Morar dentro de ti já me bastava
para esquecer o mundo num só dia

Fazer das tuas mãos essa passagem
que me leva num sonho sobre a água
Dos teus olhos de luz fazer a margem
onde possa ancorar a minha mágoa

Fazer das tuas mãos essa viagem
que mora além da dor, além da mágoa

Sós, na asa dum céu que nos abrace
Sós, na vida dos sonhos mais ardentes
Sem que ninguém amor nos alcançasse
onde os lábios se queimem inocentes

Quero morar amor dentro de ti
onde somente nós dois nos entendemos
para morrer amor dentro de ti
bem lá longe do mundo onde vivemos
mulher 1

Fernando Campos de Castro

Estrada
Fevereiro 10, 2018

A tua história entristece-me…

À luz do que sei hoje,

a sombra de uma censura escurece

o longo rol de problemas

que vivemos há uma eternidade.

Desconheci-a muito tempo.

Não entendia o teu rancor.

Depois, que fazer da estrada rota

que vai de mim a ti?

.

Como posso mostrar-te o que me aflige

se as minhas tentativas acabam

numa parede de aço

erguida entre nós?

Navego às cegas entre ondas vigorosas

e vagas de calmaria.

Não consigo avaliar se

e quanto precisas de mim.

Ajudas-me?

nevoeiro

Diana Sá

Marco
Janeiro 28, 2018

Na rua escondida

o marco do correio

há muitos anos recebe

as escassas cartas

que mudam a vida.

Há muito que está

fora de serviço

mas a companhia

não informou ninguém.

hug

Pedro Mexia

As Prendas de Natal
Dezembro 25, 2017

Vêm dos tios, dos avós,

em embrulhos coloridos:

são livros e são brinquedos

já há muito prometidos.

.

E nunca mais chega a hora

de serem desembrulhados;

enquanto o momento tarda

há meninos acordados.

.

Ao Natal do presépio

deram os reis os presentes.

Magos, vindos de tão longe,

com túnicas reluzentes.

.

O menino, mal os viu,

logo se pôs a pensar:

“Talvez o melhor presente

seja o amor que vou dar.”

.

Chega embrulhado no sono

o presente mais gostoso:

é o colinho dos pais

abrindo a porta ao repouso.

.

E paira no ar a pergunta

que faz o maior sentido:

para se ter um presente,

há que tê-lo merecido?

.

Seja Jesus ou Pai Natal,

nisto hão de concordar:

o que conta nesta vida

é sabermos partilhar.


José Jorge Letria
    em    O livro do Natal

Chove sempre
Dezembro 12, 2017

Chove sempre quando partes…

Há sempre aviões

que passam por aonde tu vais

Voo para Bruxelas, porta nº 3,

diz a voz

em línguas diferentes,

sucessivamente,

a voz tornada europeia

nascida dos sítios

p’ra onde te levam

aviões de alumínio

.

Chove sempre…

E o motor do carro

que me traz de volta

replica na garganta

o motor tremendo

do teu avião

que arranha no chão

como unha em parede

sentida sem corpo,

na respiração,

no cerne incorpóreo

da vida que oscila e suspende,

que acende e apaga

nas luzes que cruzam

na tua figura

.

Na retina, a rodar

em círculo infernal

fica a mesma imagem

das outras partidas

noutros aviões;

de costas, a gabardine,

a pasta na mão,

o chapéu de chuva,

porque chove sempre…

.

Na minha cabeça

vazia, aquática

martela periódico

presente e real,

futuro e destino:

o limpa pára-brisas

porque chove sempre

quando partes sempre

chuva

Manuela Morgado

Balada dos Amigos Separados
Dezembro 5, 2017

Onde estais vós Alberto Henrique
João Maria Pedro Ana?
Onde anda agora a vossa voz?
Que ruas escutam vossos passos?
Ao norte? ao sul? aonde? aonde?
José António Branca Rui
E tu Joana de olhos claros
E tu Francisco E tu Carlota
E tu Joaquim?
Que estradas colhem vosso olhar?
Onde anda agora a vossa vida repartida?
A oeste? A leste? Aonde? aonde?
Olho prà frente prà cidade
e pràs outras cidades por trás dela
onde se agitam outras gentes
que nunca ouviram vosso nome
e vejo em tudo a vossa cara
e oiço em tudo o som amigo
a voz de um a voz de outro
e aquele fio de sol que se agitava
sempre
em todos nós
Dançam as casas nesta noite
ébrias de sombra nesta noite
que se prolonga em plena angústia
aos solavancos do destino
e não consegue estrangular-nos
Sigo e pergunto ao vento à rua
e a esta ânsia inviolável
que embebe o ar de calafrios
Onde estais vós? onde estais vós?
E por detrás de cada esquina
e por detrás de cada vulto
o vento traz-me a vossa voz
a rua traz-me a vossa voz
a voz de um a voz de outro
toada amiga que me banha
tão confiante tão serena
Aqui aqui em toda a parte
Aqui aqui E tu? aonde?

amigos

Mário Dionísio   em    ‘As Solicitações e Emboscadas’

apenas um soneto
Outubro 26, 2017

chuva-casal4

 

O delicado desejo que te doura
e nos dura na pele quando anoitece
é contra a nossa vida que se tece
e é no verso que vive e se demora.

Amor que não tivémos nem nos teve
veio-nos chamar agora. De repente
fez-se névoa à palavra do presente
e luz teu corpo que toquei de leve.

Mas se arde na memória da canção
o corpo que me deste e me fugiste,
o verso é outro modo de traição

por que minto ao que nunca tu mentiste.
E enganamos assim o coração,
disfarçando de mitos o que existe.

Luís Filipe de Castro Mendes

Poesia
Outubro 6, 2017

 

Gastei uma hora pensando um verso

que a pena não quer escrever,

no entanto ele está cá dentro

inquieto, vivo.

Ele está cá dentro

e não quer sair.

Mas a poesia deste momento

inunda minha vida inteira.

escrita

Carlos Drummond de Andrade

Pavio
Setembro 28, 2017

cora

 

És uma candeia ao canto do quarto
às vezes longe, às vezes perto.
Trazes o brilho e a coragem,
demonstras a fé nesta viagem…

– E eu estou aqui deitado,
às vezes ao frio, às vezes tapado
(cresce em mim a tempestade)
– Aqueço assim a saudade.

E no frio desta caverna
húmida e teimosamente eterna,
pingo a pingo, hoje, amanhã e depois,
lembro as vidas que não tivemos os dois.
Apenas este pavio
veio acalmar este frio
nas mãos, na mente e na alma.
Uma voz suave que acalma…

Cêra.
Quimera.
Sonho.
Coração tamanho.

António