Soneto do Corifeu
Julho 25, 2019

São demais os perigos desta vida
para quem tem paixão, principalmente,
quando uma lua surge de repente
e se deixa no céu, como esquecida.
.
E se ao luar que atua desvairado
vem se unir uma música qualquer,
aí então é preciso ter cuidado
porque deve andar perto uma mulher.
.
Deve andar perto uma mulher que é feita
de música, luar e sentimento
e que a vida não quer, de tão perfeita.
.
Uma mulher que é como a própria Lua:
tão linda que só espalha sofrimento,
tão cheia de pudor que vive nua.

Vinicius de Moraes

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Mecânica de um abraço
Julho 11, 2019

O que encerras num abraço quando
abraças alguém não é
um corpo: é o tempo. Nesse demorar suspenso
(enquanto deténs outra vida) há
um corpo que é teu enquanto o reténs
nos braços
(porquanto o tens para ti
suspendendo o movimento)
enquanto páras o tempo pelo
tempo
de um abraço. Mas a
força dos teus abraços é mais fraca
que a do tempo e
tens de ser tu a ceder
(tens de ser tu a largar) porque
o tempo não aceita estar parado tanto tempo e
exige que o soltes para
tornar ao movimento.

abraco1

João Luís Barreto Guimarães    em   Nómada

Balança
Junho 7, 2019

Com pesos duvidosos me sujeito
à balança até hoje recusada.
É tempo de saber o que mais vale:
se julgar, assistir, ou ser julgado.

Ponho no prato raso quanto sou,
matérias, outras não, que me fizeram,
o sonho fugidiço, o desespero
de prender violento ou descuidar

a sombra que me vai medindo os dias;
ponho a vida tão pouca, o ruim corpo,
traições naturais e relutâncias,
ponho o que há de amor, a sua urgência

o gosto de passar entre as estrelas,
a certeza de ser que só teria
se viesses pesar-me, poesia.

escultura-em-papel

José Saramago   em   Os Poemas Possíveis

Soneto a Katherine Mansfield
Junho 1, 2019

O teu perfume, amada – em tuas cartas

renasce, azul… – são tuas mãos sentidas!

Relembro-as brancas, leves, fenecidas,

pendendo ao longo de corolas fartas.

.

Relembro-as, vou… – nas terras percorridas

torno a aspirá-lo, aqui e ali desperto

paro; e tão perto sinto-te, tão perto

como se numa foram duas vidas.

.

Pranto, tão pouca dor! tanto quisera

tanto rever-te, tanto!… e a primavera

vem já tão próxima!… (Nunca te apartas

.

Primavera, dos sonhos e das preces!)

e no perfume preso em tuas cartas

à primavera surges e esvaneces.

primavera.jpg

Vinicius de Moraes

Femme
Março 8, 2019

 

 

 

 

 

 

 

Femme, j’ai tant de choses à te dire,
Qu’il me faudrait un livre pour l’écrire.
Une vie ne suffit pas, et encore plus de temps,
Car tu portes en toi tout ce que je ressens.
Femme tendresse, femme douceur,
Femme tempête, femme douleur,
Il me faudrait tout le dictionnaire
Pour parler de toi, en rimes et en vers.
.
Tu es le commencement et la fin.
Tu es l’aboutissement, soir et matin.
Tu es l’émotion, la finesse, la vie.
Tu es tout ce que je ne suis pas, je t’envie.
Tu es l’avenir de l’humanité,
Car tu portes en toi l’éternité.
.
Femme d’amour, tu donnes la vie.
Femme de cœur, tu donnes l’amour.
Femme sensible, fragile, forte,
J’attends tout de toi, ouvres-moi ta porte.
Fais-moi une place dans ton cœur.
Offre-moi tout de toi et plus encore.
Femme battue, maltraitée,
.
Femme outragée, mal aimée,
J’aimerais tant te protéger,
Pour pouvoir tout te donner.
Femme courage, tu es admirable.
Femme aimable, tu es remarquable.
.
Tu es, parfois, imprévisible, charmante,
Tellement troublante, émouvante.
Femme au regard si doux, si profond,
Je me plonge dans tes yeux jusqu’au fond,
Recherchant l’insondable, l’innommable.
S’il t’arrive de pleurer, je me sens minable.
Femme, ces colères que je redoute
Lorsque tes yeux lancent des éclairs,
.
J’apprécie pourtant, lorsque tu doutes,
Ton émotion, quoi qu’il t’en coute.
Femme, du fond de ma solitude,
J’ai besoin de ta sollicitude,
.
De ta douceur, de tes caresses,
De ton affection et de ta tendresse.
Femme heureuse, complice de mes bonheurs,
Femme amoureuse, tu supportes mes humeurs.
Et lorsque surviennent orage et malheur,
Tu gémis, tu souffres… pire tu pleures.
.
Femme tu me désarmes,
Alors je rends les armes.
Sans toi je l’avoue, je ne suis rien.
Tu le sais, de toi j’ai tant besoin.
Dis-moi encore qui es-tu ?


( auteur inconnu , texte qui traîne sur le net )

Fadette Aiache

 

 

 

Entre mim e a vida
Março 8, 2019

Já não escrevo sem algo entre mim e a vida:

olho a paisagem,

há inúmeros campos,

regresso a casa pelas estradas de terra,

tropeço em cada pedra.

O sangue do horizonte circula

nas minhas veias,

mas canto a natureza entre mim e a vida.

.

Se volto ao refúgio das paredes domésticas,

surge o teu semblante

no percurso

(é uma realidade,

esqueci as personagens fictícias).

Quero dizer o rosto do último lugar

habitável

e pronuncio o teu nome, perdido.

.

Quando era menos incompleto

trabalhava os poemas

até ao silêncio,

para que dissessem o rumor inaudito,

agora vêm das nascentes

sem a contagem das sílabas.

Consciente da origem e do fim,

de nada separado,

digo milhares de palavras entre mim e a vida.

natureza_rio

Joel  Henriques

Nenhuma morte apagará
Fevereiro 18, 2019

Eu estava tão perto de ti que tenho frio ao pé dos outros.-  PAUL ÉLUARD

amor

Nenhuma morte apagará os beijos

e por dentro das casas onde nos amámos

ou pelas ruas clandestinas da grande cidade livre

estarão para sempre vivos os sinais de um grande amor,

esses densos sinais do amor e da morte

com que se vive a vida.

.

Aí estarão de novo as nossas mãos

e nenhuma dor será possível onde nos beijámos.

Eternamente apaixonados, meu amor. Eternamente livres.

Prolongaremos em todos os dedos os nossos gestos e,

profundamente, no peito dos amantes,

a nossa alma líquida e atormentada

.

desvendará em cada minuto o seu segredo

para que este amor se prolongue e noutras bocas

ardam violentos de paixão os nossos beijos

e os corpos se abracem mais e se confundam

mutuamente violando-se, violentando a noite

para que outro dia, afinal, seja possível.

Joaquim Pessoa

As coisas que errei na vida
Fevereiro 12, 2019

As coisas que errei na vida
são as que acharei na morte,
porque a vida é dividida
entre quem sou e a sorte.

As coisas que a Sorte deu
levou-as ela consigo,
mas as coisas que sou eu
guardei-as todas comigo.

E por isso os erros meus,
sendo a má sorte que tive,
terei que os buscar nos céus
quando a morte tire os véus
à inconsciência em que estive.

mar_2

 Fernando Pessoa     em    “Novas Poesias Inéditas”

 

Poema do Silêncio
Janeiro 10, 2019

Sim, foi por mim que gritei.
Declamei,
atirei frases em volta.
Cego de angústia e de revolta.

Foi em meu nome que fiz,
a carvão, a sangue, a giz,
sátiras e epigramas nas paredes
que não vi serem necessárias e vós vedes.

Foi quando compreendi
que nada me dariam do infinito que pedi,
– que ergui mais alto o meu grito
e pedi mais infinito!

Eu, o meu eu rico de baixas e grandezas,
eis a razão das épi-trági-cómicas empresas
que, sem rumo,
levantei com sarcasmo, sonho, fumo…

O que buscava
era, como qualquer, ter o que desejava.
Febres de Mais, ânsias de Altura e Abismo,
Tinham raízes banalíssimas de egoísmo.

Que só por me ser vedado
sair deste meu ser formal e condenado,
erigi contra os céus o meu imenso Engano
de tentar o ultra-humano, eu que sou tão humano!

Senhor meu Deus em que não creio!
Nu a teus pés, abro o meu seio
procurei fugir de mim,
mas sei que sou meu exclusivo fim.

Sofro, assim, pelo que sou,
sofro por este chão que aos pés se me pegou,
sofro por não poder fugir.
sofro por ter prazer em me acusar e me exibir!

Senhor meu Deus em que não creio, porque és minha criação!
(Deus, para mim, sou eu chegado à perfeição…)
Senhor dá-me o poder de estar calado,
quieto, maniatado, iluminado.

Se os gestos e as palavras que sonhei,
nunca os usei nem usarei,
se nada do que levo a efeito vale,
que eu me não mova! que eu não fale!

Ah! também sei que, trabalhando só por mim,
era por um de nós. E assim,
neste meu vão assalto a nem sei que felicidade,
lutava um homem pela humanidade.

Mas o meu sonho megalómano é maior
do que a própria imensa dor
de compreender como é egoísta
a minha máxima conquista…

Senhor! que nunca mais meus versos ávidos e impuros
me rasguem! e meus lábios cerrarão como dois muros,
e o meu Silêncio, como incenso, atingir-te-á,
e sobre mim de novo descerá…

Sim, descerá da tua mão compadecida,
meu Deus em que não creio! e porá fim à minha vida.
E uma terra sem flor e uma pedra sem nome
saciarão a minha fome.

José Régio  em  ‘As Encruzilhadas de Deus’

Poema do Amigo aprendiz
Novembro 30, 2018

Quero ser teu amigo.

Nem de mais, nem de menos.

Nem tão longe, nem tão perto.

Na medida mais precisa que eu puder.

.

Mas amar-te como próximo, sem medida

e ficar sempre em tua vida

da maneira mais discreta que eu souber.

.

Sem tirar-te a liberdade.

sem jamais te sufocar.

Sem forçar a tua vontade.

.

Sem falar, quando for hora de calar

e sem calar, quando for hora de falar.

Nem ausente, nem presente por demais,

simplesmente, calmamente, ser-te paz.

.

É bonito ser amigo, mas, confesso,

é tão difícil aprender…

Por isso, eu te peço paciência.

.

Vou encher este teu rosto

de alegrias, lembranças!

Dá-me tempo

de acertar nossas distâncias!!!

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José Fernando de Oliveira