Erros meus, má Fortuna, Amor ardente
Setembro 28, 2018

Erros meus, má Fortuna, Amor ardente

em minha perdição se conjuraram:

os erros e a Fortuna sobejaram,

que para mim bastava Amor somente.

.

Tudo passei, mas tenho tão presente

a grande dor das coisas que passaram,

que já as frequências suas me ensinaram

a desejos deixar de ser contente.

.

Errei todo o discurso dos meus anos,

dei causa a que a Fortuna castigasse

as minhas mal fundadas esperanças;

.

de Amor não vi senão breves enganos.

Oh quem tanto pudesse que fartasse

este meu duro Génio de vinganças!

rosto1

Bocage

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Todo o tempo é de poesia
Março 5, 2014

Todo  o tempo é de poesia,
desde a névoa da manhã
à névoa do outro dia.
Desde a quentura do ventre
à frigidez da agonia

todo o tempo é de poesia.
Entre bombas que deflagram,
corolas que se desdobram,
corpos que em sangue soçobram,
vidas que a amar se consagram.
Sob a cúpula sombria
das mãos que pedem vingança.
Sob o arco da aliança
da celeste alegoria.

 Todo o tempo é de poesia.

Desde a arrumação ao caos
à confusão da harmonia.

plumaAntónio  Gedeão

Acusam-me de mágoa e desalento
Maio 1, 2013

Acusam-me de mágoa e desalento,

como se toda a pena dos meus versos

não fosse carne vossa, homens dispersos,

e a minha dor a tua, pensamento.

.

Hei-de cantar-vos a beleza um dia,

quando a luz que não nego abrir o escuro

da noite que nos cerca como um muro,

e chegares a teus reinos, alegria.

.

Entretanto, deixai que não me cale:

até que o muro fenda, a treva estale,

seja a tristeza o vinho da vingança.

.

A minha voz de morte é a voz da luta:

se quem confia a sua dor perscruta,

maior glória tem em ter esperança.

anoitecer

Luís de Camões

Tempo de Poesia
Dezembro 13, 2012

Todo o tempo é de poesia.

Desde a névoa da manhã
à névoa de outro dia.

Desde a quentura do ventre
à frigidez da agonia.

Todo o tempo é de poesia.

Entre bombas que deflagram.
Corolas que se desdobram.
Corpos que em sangue soçobram
Vidas que a amar se consagram.

Sob a cúpula sombria
das mãos que pedem vingança.
Sob o arco da aliança
da celeste alegoria.

Todo o tempo é de poesia.

Desde a arrumação do caos
à confusão da harmonia.

ANTÓNIO GEDEÃO,  em  “POESIA COMPLETA

Soneto
Dezembro 21, 2011

Acusam-me de mágoa e desalento,

como se toda a pena dos meus versos

não fosse carne vossa, homens dispersos,

e a minha dor a tua, pensamento.

.

Hei-de cantar-vos a beleza um dia,

quando a luz que não nego abrir o escuro

da noite que nos cerca como um muro,

e chegares a teus reinos, alegria.

.

Entretanto, deixai que me não cale

até que o mundo funda, a treva estale,

seja a tristeza o vinho da vingança.

.

A minha voz de morte é a voz da luta:

se quem confia a própria dor prescruta,

maior glória tem em ter esperança.

Carlos de Oliveira