Livro de Horas
Maio 7, 2017

Aqui, diante de mim,
eu, pecador, me confesso
de ser assim como sou.
Me confesso o bom e o mau
que vão ao leme da nau
nesta deriva em que vou.

Me confesso
possesso
de virtudes teologais,
que são três,
e dos pecados mortais,
que são sete,
quando a terra não repete
que são mais.

Me confesso
o dono das minhas horas.
O das facadas cegas e raivosas,
e o das ternuras lúcidas e mansas.
E de ser de qualquer modo
andanças
do mesmo todo.

Me confesso de ser charco
e luar de charco, à mistura.
De ser a corda do arco
que atira setas acima
e abaixo da minha altura.

Me confesso de ser tudo
que possa nascer em mim.
de ter raízes no chão
esta minha condição.
Me confesso de Abel e de Caim.

Me confesso de ser Homem.
De ser um anjo caído
do tal Céu que Deus governa;
de ser um monstro saído
do buraco mais fundo da caverna.

Me confesso de ser eu.
Eu, tal e qual como vim
para dizer que sou eu
aqui, diante de mim!


Miguel Torga
, em ‘O Outro Livro de Job’

X
Março 21, 2013

Bravo pássaro que passaste e passarás

azul, a sul, sob o sólido sol da solidão.

Pássaro dos sentidos, do sentido da vida,

para todo o sempre não é para ti mais que a travessia da noite ao amanhecer.

Mas eu sigo-te, ó senhor de nada, tu que te alimentas de pedacinhos de céu,

irmão de tudo o que em mim também voa e também canta,

timidez emplumada onde brilham as cores dos frutos e do mundo.

.

Aparece, ó pássaro de mim, em mim, poisa

no que resta da minha alegria, nos ramos da minha carne,

e canta, canta de uma forma irreparável

o meu canto e o canto alheio,

o meu grito e a vontade que tenho de chorar.

Com uma força destruidora da virtude,

ultrapassa a luz, ultrapassa o pensamento,

inscreve as minhas interrogações, as minhas dúvidas

na fadiga das horas, escreve com o teu bico celeste

o meu epitáfio, um poema

de amor para a mulher que me prendeu e me fez livre,

a que vive em mim, a que acredita em mim,

a que como tu desafia as manhãs e surpreende a noite,

a minha amada, pássaro, a mulher que eu amo

como os poetas amam a liberdade de alguns pássaros

e de todos os pobres.

.

Joaquim  Pessoa

Saudade
Julho 14, 2012

Magoa-me a saudade
… do sobressalto dos corpos
ferindo-se de ternura
dói-me a distante lembrança
do teu vestido
caindo aos nossos pés

Magoa-me a saudade
do tempo em que te habitava
como o sal ocupa o mar
como a luz recolhendo-se
nas pupilas desatentas

Seja eu de novo a tua sombra, teu desejo,
tua noite sem remédio,
tua virtude, tua carência
eu, que longe de ti sou fraco
eu, que já fui água, seiva vegetal
sou agora gota trémula, raiz exposta

Traz
de novo, meu amor,
a transparência da água
dá ocupação à minha ternura vadia
mergulha os teus dedos
no feitiço do meu peito
e espanta na gruta funda de mim,
os animais que atormentam o meu sono

MIA COUTO, em  RAIZ DE ORVALHO E OUTROS POEMAS