Não te rendas
Agosto 31, 2020

Não te rendas, ainda estás a tempo

de alcançar e começar de novo,

aceitar as tuas sombras

enterrar os teus medos,

largar o lastro,

retomar o voo.

Não te rendas que a vida é isso,

continuar a viagem,

perseguir os teus sonhos,

destravar os tempos,

arrumar os escombros,

e destapar o céu.

Não te rendas, por favor, não cedas,

ainda que o frio queime,

ainda que o medo morda,

ainda que o sol se esconda,

e se cale o vento:

ainda há fogo na tua alma

ainda existe vida nos teus sonhos.

Porque a vida é tua, e teu é também o desejo,

porque o quiseste e eu te amo,

porque existe o vinho e o amor,

porque não existem feridas que o tempo não cure.

Abrir as portas,

tirar os ferrolhos,

abandonar as muralhas que te protegeram,

viver a vida e aceitar o desafio,

recuperar o riso,

ensaiar um canto,

baixar a guarda e estender as mãos,

abrir as asas

e tentar de novo

celebrar a vida e relançar-se no infinito.

Não te rendas, por favor, não cedas:

mesmo que o frio queime,

mesmo que o medo morda,

mesmo que o sol se ponha e se cale o vento,

ainda há fogo na tua alma,

ainda existe vida nos teus sonhos.

Porque cada dia é um novo início,

porque esta é a hora e o melhor momento.

Porque não estás só, porque eu te amo.

despertares

Mário Benedetti

Chove sempre
Dezembro 12, 2017

Chove sempre quando partes…

Há sempre aviões

que passam por aonde tu vais

Voo para Bruxelas, porta nº 3,

diz a voz

em línguas diferentes,

sucessivamente,

a voz tornada europeia

nascida dos sítios

p’ra onde te levam

aviões de alumínio

.

Chove sempre…

E o motor do carro

que me traz de volta

replica na garganta

o motor tremendo

do teu avião

que arranha no chão

como unha em parede

sentida sem corpo,

na respiração,

no cerne incorpóreo

da vida que oscila e suspende,

que acende e apaga

nas luzes que cruzam

na tua figura

.

Na retina, a rodar

em círculo infernal

fica a mesma imagem

das outras partidas

noutros aviões;

de costas, a gabardine,

a pasta na mão,

o chapéu de chuva,

porque chove sempre…

.

Na minha cabeça

vazia, aquática

martela periódico

presente e real,

futuro e destino:

o limpa pára-brisas

porque chove sempre

quando partes sempre

chuva

Manuela Morgado

A hora da alma
Setembro 7, 2014

Esta é a tua hora, ó alma, a do teu livre voo para lá das palavras,

dos livros, da arte, apagado o dia, concluída a lição,

quando tu emerges plenamente, silenciosa, absorta,

meditando sobre os temas que mais amas,

a noite, o sono, a morte e as estrelas.

Blue ridge mountain moon

WALT WHITMAN

Folhas de Erva

(selecção e tradução de José Agostinho Baptista)

Hoje
Novembro 12, 2012

Hoje não sei do que sou capaz.

.

Às vezes não procuramos respostas.

Outras, não conseguimos vê-las.

.

De vez em quando a inteligência deixa-nos

como um cônjuge saturado, incapaz de nos suportar.

Mas temos obrigação de viajar

espreitando pelas janelas da água, pelo postigo da indulgência,

espalhar pela distância o embaraço

de modo a regressar felizes como crianças exibindo

troféus coloridos de algodão de açúcar.

.

Disputamos muitos jogos num estádio vazio

desperdiçando as mais flagrantes oportunidades,

porque aceitamos como normal o medo de vencer.

E no entanto todos os momentos são bons

para escutar o mar ou palmilhar desertos

com uma candeia ou com um sol por companheiros

que possam ajudar-nos a dissipar o conjunto das sombras

e, na dúvida, reconhecer a forma das coisas,

as que nos pertencem e as que nunca serão nossas

mas que queremos nossas por não nos pertencerem.

.

O que puderes tocar, tenta alcançá-lo.

O que não puderes saber, não ignores.

Constrói a casa em pleno mar.

Percorre a estrada em pleno voo.

Joaquim  Pessoa em   O Pouco é para Ontem

Reminiscência
Maio 11, 2012

Os instantes que vivo
… não são a minha vida:
ela voa perdida
no desenho furtivo
de uma breve asa ferida
daquele pássaro esquivo
que anda desaparecido
e continua à deriva
desde que sou crescido
e perdi o sentido
da verdade mais viva.

E por mais que persiga
esse rasto infinito
não há voz que me diga
se a memória de um grito
é tudo o que me liga
ao primeiro suspiro
dessa ave iludida
cujas asas eu firo
sem saber se consigo
descobrir a saída
rumo àquele céu antigo
onde deixei a vida.

FERNANDO PINTO DO AMARAL,  em  “Poemas Escolhidos “

A condenação
Dezembro 16, 2011

Cansado da poesia,

o poeta levou os seus poemas

para junto de um rio.

.

Queria rasgar os versos

um por um,

dilacerar a palavra,

truncar a ideia,

desfibrar o coração.

.

Para o fim da poesia,

procurou um rio que não tivesse nome.

Teria que ser assim :

junto a um  rio sem nome.

.

Nele afogaria a letra,

dissolveria a tinta,

liquefaria rima e metáfora.

.

Andou, cirandou : mas onde quer

que corresse um fio de água

fluía junto um nome

como se toda a água nascesse da palavra.

.

Deu volta ao mundo,

chegou onde não havia mais mundo :

em nenhum lado

figurava o inominado riachinho.

.

Cansado,

regressou à sua aldeia

e reincidiu na sua inicial angústia.

Ali, no pequeno ribeiro de sua terra natal,

ele sentou o seu desespero

e decepou os cadernos,

desmembrou a escrita

e afogou os papéis

até que deixaram de respirar.

.

Chegou-se um peixe

e, de um golpe, comeu um verso.

No seguinte instante,

lhe cresceram asas

e o peixe soltou um voo de garça

para ganhar os vastos céus.

.

Dos papéis que restavam em suas mãos

emergiu um braço de mulher

que, em dissolvente carícia,

por sonhos o fez viajar.

.

Nessa noite,

de regresso a si mesmo,

o poeta

escreveu derradeiros versos

para matar de vez a poesia.

.

Acedeu, por fim,

à pequena morte do sono,

desconhecendo

que, mesmo adormecido,

dentro de si

seguia fluindo

o único rio sem nome.

Mia Couto

Acordar
Novembro 10, 2010

Acordei com a vontade de te envolver
num doce e terno abraço…
De te pintar os traços numa tela de saudade…
De levar-te comigo… como o vento as folhas de Outono.
De beijar-te… como o mar revolto as rochas inertes.
De abrir-te os braços… como o fogo que arde na serra oferecida.
De escrever-te… palavras que o meu coração dita.
E deixá-las voar… como pássaro livre num calmo planar.
Ao teu encontro.
 
Isabel  Villaverde

A meio do caminho
Maio 24, 2010

 

Fico entre o céu e a terra.

Choro só para dentro.

Sou como a árvore nua

que ao alto os ramos indica:

ergue as asas, mas não voa,

tem raizes, mas não desce.

Alberto de Lacerda