Não sei como dizer-te
Março 29, 2017

Não sei como dizer-te que a minha voz te procura
e a atenção começa a florir, quando sucede a noite
esplêndida e casta.
Não sei o que dizer, especialmente quando os teus pulsos

se enchem de um brilho precioso
e tu estremeces como um pensamento chegado. Quando
iniciado o campo, o centeio imaturo ondula tocado
pelo pressentir de um tempo distante,
e na terra crescida os homens entoam a vindima,
– eu não sei como dizer-te que cem ideias,
dentro de mim, te procuram.
Quando as folhas da melancolia arrefecem com astros
ao lado do espaço
o coração é uma semente inventada
em seu ascético escuro e em seu turbilhão de um dia,
tu arrebatas os caminhos da minha solidão
como se toda a minha casa ardesse pousada na noite.
– E então não sei o que dizer
junto à taça de pedra do teu tão jovem silêncio.
Quando as crianças acordam nas luas espantadas
que às vezes caem no meio do tempo,
– não sei como dizer-te que a pureza,
dentro de mim, te procura. Durante a primavera inteira aprendo
os trevos, a água sobrenatural, o leve e abstracto
correr do espaço –
e penso que vou dizer algo cheio de razão,
mas quando a sombra vai cair da curva sôfrega
dos meus lábios, sinto que me falta
um girassol, uma pedra, uma ave – qualquer
coisa extraordinária.
Porque não sei como dizer-te sem milagres
que dentro de mim é o sol, o fruto,
a criança, a água, o deus, o leite, a mãe, o amor,
que te procuram.
margaridas
Herberto Hélder

quando a ternura for a única regra da manhã
Fevereiro 1, 2017

um dia, quando a ternura for a única regra da manhã,
acordarei entre os teus braços.
a tua pele será talvez demasiado bela.
e a luz compreenderá a impossível compreensão do amor.
um dia, quando a chuva secar na memória,
quando o inverno for tão distante,
quando o frio responder devagar com a voz arrastada de um velho, estarei contigo
e cantarão pássaros no parapeito da nossa janela.
sim, cantarão pássaros, haverá flores, mas nada disso será culpa minha,
porque eu acordarei nos teus braços
e não direi nem uma palavra, nem o princípio de uma palavra,
para não estragar
a perfeição da felicidade.

sorriso-cumplice

José Luís Peixoto    em     ‘A Criança em Ruínas’

Tenho fome
Janeiro 19, 2017

Tenho fome da tua boca, da tua voz, do teu cabelo,
e ando pelas ruas sem comer, calado,
não me sustenta o pão, a aurora me desconcerta,
busco no dia o som líquido dos teus pés.
.
Estou faminto do teu riso saltitante,
das tuas mãos cor de furioso celeiro,
tenho fome da pálida pedra das tuas unhas,
quero comer a tua pele como uma intacta amêndoa.
.
Quero comer o raio queimado na tua formosura,
o nariz soberano do rosto altivo,
quero comer a sombra fugaz das tuas pestanas
.
e faminto venho e vou farejando o crepúsculo
à tua procura, procurando o teu coração ardente
como um puma na solidão de Quitratúe.

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Pablo Neruda

vens
Janeiro 2, 2017

 

vens

caindo

pela dor

acomodando

 

nuas palavras

à ferida de ter

perdido, a face é

pequena para sentir

 

o que em nós sobrevive

no instante em que a voz

desce as sombras desse dia

 

onde voltar já não se escreve

com medo das marés. Podes agora

subir: é como estar (de novo)  na luz

triste

 

João Luís Barreto Guimarães

 

 

 

Perfilados de medo
Fevereiro 15, 2016

Perfilados de medo, agradecemos
o medo que nos salva da loucura.
Decisão e coragem valem menos,
e vida sem viver é mais segura.
.
Aventureiros já sem aventura,
perfilados de medo, combatemos
irónicos fantasmas à procura
do que não somos, do que não seremos.
.
Perfilados de medo, sem mais voz,
o coração nos dentes oprimido,
os loucos, os fantasmas somos nós.
.
Rebanho pelo medo perseguido,
já vivemos tão juntos e tão sós
que da vida perdemos o sentido.

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Alexandre O’Neill

Recuso-me
Outubro 27, 2015

Recuso-me a ficar amolecido,
tragicamente cilindrado,
e, muito antes de lutar – vencido,
e, muito antes de morrer – violado.
.
Recuso-me ao silêncio e à mordaça.
Serei independente, livre e exacto.
A verdade é uma força que ultrapassa
a própria dimensão em que combato.
.
Recuso-me a servir a violência,
embora a minha voz de nada valha,
mas que me fique ao menos a consciência
de que tentei romper esta muralha.
.
Recuso-me a ter medo e a estiolar
na concha dos poetas sem mensagem.
Que me levem o corpo e a coragem
mas que me fique esta voz para cantar.

homem-tristeza

João Apolinário

Luz
Outubro 13, 2015

Eu sinto-te a ferver dentro de mim,

Poesia.

Tu és a voz

resignada, triste, insatisfeita,

sei lá,

de um desejo de plenitude,

de uma espera desesperada,

de um grito no deserto.

.

A luz que procuro foge-me.

Só me deixa ver

as suas cintilações efémeras,

só me deixa imaginar

a sua claridade,

e foge…

.

Até quando?

Até quando esta ausência

premeditada e perversa?

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Diana  Sá

Chuva da tarde
Outubro 7, 2015

Chuva da tarde, – melodia mansa,

desejos vagos de chorar baixinho…

Voltei aos meus caprichos de criança,

– só quero, Amor, saber do teu carinho!

.

Chuva da tarde… Na poeira ardente

cai um frescor inesperado e calmo.

É um frescor que purifica a gente

– como a leitura mística dum Salmo!

.

Floresçam jasmineiros e açucenas,

– acuda-se à tristeza das raízes!

Que tu, Amor, com tuas mãos pequenas,

as guardes da estiagem e as baptizes!

.

Meu coração doente remoçou-se,

quando o tocaram essas mãos piedosas…

Chuva da tarde, – enfermaria doce,

onde vão convalescer as rosas!

.

Chuva da tarde… Ao longo das varandas

reza mistérios lentos a noitinha.

Que bem não é sonhar em coisas brandas,

nas tuas brandas asas de andorinha!

.

Deixa que a sombra te emoldure a face,

– eleva no silêncio a tua voz!

O Cântico dos Cânticos renasce,

– diria até que se escreveu p’ra nós!

chuva

António Sardinha

Passagem do outro lado
Outubro 1, 2015

Somos confusos como as florestas.
.
Tu, e eu (e todos nós),
temos enredos na voz,
armaduras e espessuras
que nos encobrem de nós.
.
Anda.
Percorre-me sem desvios,
inteira, plena, despida,
infância desprevenida
sem roupas e sem atavios.
.
Anda.
Rasga esta verde espessura
com os teus gestos afiados.
Insinua-te, procura,
derrama a tua brancura
nos trilhos enviesados.
Progride e canta. Penetra
neste matagal bravio,
desembrulhada e erecta
como a vela dum navio.
Singra, desliza suave
como gota que escorresses,
como luar que batesses,
penugem que esvoaçasses.
.
Entra e serve-te. Verás,
ou caídos ou suspensos,
frutos de aromas intensos

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que em silêncio morderás.
Teus dentes lhe darão sumo,
teus lábios lhe darão gosto
e o veludo que presumo
macio como o teu rosto.
.
Tuas mãos os farão belos
e alegres como facetas,
verdes, azuis, amarelos,
vermelhos e violetas.
.
De um arrepio, na espessura,
toda a floresta estremece.
Eu dou-te a minha loucura.
Dá-me o canto que a adormece.

António Gedeão

Lágrimas antigas
Setembro 1, 2015

Quando os teus olhos absorvem

todas as cores da minha

mais íntima tristeza,

e compreendes e calas e prometes

um lugar qualquer na tua alma,

e a tua voz demora a regressar

ao neutro compromisso das palavras,

.

sei que as tuas mãos ajudariam

a limpar estas lágrimas antigas

por dentro do meu rosto.

arco-iris

Victor Matos e Sá