Archive for Setembro, 2016

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Setembro 30, 2016

Muito obrigada aos que por aqui passaram, sobretudo aos que deixaram o seu comentário!

Poemas - pássaros

E viva a Poesia!

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Já me disseste tanta coisa
Setembro 26, 2016

Já me disseste tanta coisa!

Já me disseste que tiveste uma infância infeliz,

já me disseste que o teu grande amor te tinha desiludido.

Já me disseste que a solidão mata mais depressa do que um tiro.

Já me disseste que não ouvias ninguém,

que querias que te deixassem em paz!

Eu disse-te que visses o pôr-do-sol.

Disse-te para te rires às gargalhadas do absurdo da vida.

Já te disse que te comovesses com o sorriso duma criança.

Já te disse que é um milagre a vida e estar vivo,

e devemos agradecer esta dádiva.

Já não sei o que te dizer mais, meu amor!

sorriso 2

Daniel  Dias

Soneto VIII
Setembro 20, 2016

Amo-te muito, meu amor, e tanto
que, ao ter-te, amo-te mais, e mais ainda
depois de ter-te, meu amor. Não finda
com o próprio amor o amor do teu encanto.
.
Que encanto é o teu? Se continua enquanto
sofro a traição dos que, viscosos, prendem,
por uma paz de guerra a que se vendem
a pura liberdade do meu canto,
.
um cântico de terra e do seu povo,
nesta invenção da humanidade inteira
que a cada instante há que inventar de novo,
.
tão quase é coisa ou sucessão que passa…
Que encanto é o teu? Deitado à tua beira,
sei que se rasga, eterno, o véu da graça.

serena

Jorge de Sena

Namorados no mirante
Setembro 14, 2016

Eles eram mais antigos que o silêncio
a perscrutar-se intimamente os sonhos
tal como duas súbitas estátuas
em que apenas o olhar restasse humano.
Qualquer toque, por certo, desfaria
os seus corpos sem tempo em pura cinza.
Remontavam às origens – a realidade
neles se fez, de substância, imagem.
Dela a face era fria, a que o desejo
como um hictus, houvesse adormecido.
Dele apenas restava o eterno grito
da espécie – tudo mais tinha morrido.
Caíam lentamente na voragem
como duas estrelas que gravitam
juntas para, depois, num grande abraço
rolarem pelo espaço e se perderem
transformadas no magma incandescente
que milênios mais tarde explode em amor
e da matéria reproduz o tempo

nas galáxias da vida no infinito.

Eles eram mais antigos que o silêncio…

Vinicius de Moraes in “P’ra viver um grande amor”
Rio de Janeiro, 1960

Ad usum
Setembro 8, 2016

O meu ofício é de palavras
que só estremecem ao rumor
do amor.
.
O meu ofício é de missão
secreta, sob a capa do ar:
Lembrar.
.
O meu ofício desconhece
qualquer das formas de folgar:
sonhar?
.
No meu ofício é que se aprende
por dentro – terra e ultramar –
a olhar.
.
Sua alegria é de um minuto
e nada a pode compensar:
cantar.
.
Entre um minuto e outro perpassam
nuvens de tamanho esperar:
durar.
.
O meu ofício é de saber
morrer, de nas pedras gravar:
passar.

natureza31

Lélia Coelho Frota

Medo
Setembro 2, 2016

Tu tens um medo:
acabar.
Não vês que acabas todo o dia.
Que morres no amor.
Na tristeza.
Na dúvida.
No desejo.
Que te renovas todo o dia.
No amor.
Na tristeza. Na dúvida.
No desejo.
Que és sempre outro.
Que és sempre o mesmo.
Que morrerás por idades imensas.
Até não teres medo de morrer.

E então serás eterno.

Dandelion --- Image by © Dave Michaels/zefa/Corbis

Dandelion — Image by © Dave Michaels/zefa/Corbis

Cecília Meireles