Acidentes de Guerra
Junho 7, 2020

Sacudo grão levíssimo
de cima do papel

Não sei se pó,
se uma pequena cinza
que assim se insinuou
neste caderno

a emoção, passado, defesa, antes na prateleira,
preso a outros cadernos, outros livros,
esquecido do olhar
e das pequenas emoções
de dentroÉ livre agora,
e o grão que projectei no ar
entre polegar e dedo médio em riste:
lança-chama de fluídos inflamáveis

com passado a assaltar,
sem defesa possível de vencer,
nem acertado alvo
que resista

livros 1

Ana Luísa Amaral    em    What’s In a Name

Apontamento
Março 13, 2020

Vida – o único meio
de se revestir de folhagem,
recuperar o fôlego na areia,
levantar voo batendo as asas;
.
ser cão
ou afagar-lhe o pêlo quente;
.
distinguir a dor
de tudo o que não a é;
.
caber nos acontecimentos,
perder-se nas paisagens,
procurar o mais ínfimo dos enganos.
.
Ocasião excepcional
para, por um instante, recordar
o que se conversou
junto do candeeiro apagado;
.
pelo menos uma vez,
tropeçar na pedra,
molhar-se na chuva,
perder as chaves na relva;
.
seguir com o olhar uma faísca no vento
.
e sem parar algo de importante
não saber.

Wislawa Szymborska

Germinação
Janeiro 7, 2020

Entre duas ruas paralelas
nossas conexões transversais aproximaram
o contato de nossos lábios e de nossas mãos
que se transformam em uma arte de expressão geométrica
com traços de cubismo:
vários vértices com sensações de infinitude
vários ângulos com encaixe de elevada estruturação

aprofundamos em anestesia
enquanto verticalizávamos nossos sentidos
investindo em uma profundidade de sentimentos superior
aos abismos de corações e mentes distraídas

nossa troca de olhares ficou surrealista:
teu cheiro penetrando em minhas vísceras
depositando em meu tecido adiposo
desregulando minha frequência cardíaca
com a profunda vibração de tuas cordas vocais
abraçando meu miocárdio

nossos corpos em contato se tornaram um único abrigo
nossa confluência de ideias formaram fortalezas de harmonia
nossa taxa metabólica igualou nossas funções vitais
e fomos capazes de rejuvenescer
simultaneamente
lado a lado

enquanto me abraçava revitalizando
cada célula corporal,
aprofundamos
ultrapassando os limites para mergulhos recreacionais

molhamo-nos ao toque do mar
secamo-nos à luz do sol
pulsantes:
amadurecemos em frutos

olhosnosolhos

Larissa Vahia

Não sei
Dezembro 17, 2019

Não sei se a vida é curta

ou longa para nós,

mas sei que nada

do que vivemos tem sentido,

se não tocarmos o coração das pessoas.

Muitas vezes basta ser:

o colo que acolhe,

o braço que envolve,

a palavra que conforta,

o silêncio que respeita,

a alegria que contagia,

a lágrima que corre,

o olhar que acaricia,

o desejo que sacia,

o amor que promove.

E isso não é coisa de outro mundo,

é o que dá sentido à vida.

É o que faz com que ela não

seja nem curta, nem longa demais,

mas que seja intensa, verdadeira,

pura enquanto durar.

abraço

Cora Coralina

Não exijas mais nada
Abril 14, 2019

olhar

Não exijas mais nada. Não desejo

também mais nada, só te olhar, enquanto

a realidade é simples,

e isto apenas.

Mário de Andrade

deixa
Janeiro 17, 2019

deixa que as palavras
te procurem
trazidas pelo sentir
de tudo

será poema se for
que isso te não preocupe

deixa que os olhos poisem
sobre tudo em tudo penetrem
e tragam consigo o seres

nada é novo
senão o teu olhar
o teu sentir

o teu dizer
nada acrescenta
a coisa nenhuma

por isso
deixa que as palavras
sejam em ti

0 ahcravo_DSC_6406 regata moliceiros

A. H. Cravo

Guardar
Outubro 7, 2018

 

 

Guardar uma coisa não é escondê-la ou trancá-la.

Em cofre não se guarda coisa alguma.

Em cofre perde-se a coisa à vista.

Guardar uma coisa é olhá-la, fitá-la, mirá-la por

admirá-la, isto é, iluminá-la ou ser por ela iluminado.

Guardar uma coisa é vigiá-la, isto é, fazer vigília por

ela, isto é, velar por ela, isto é, estar acordado por ela,

isto é, estar por ela ou ser por ela.

Por isso melhor se guarda o voo de um pássaro

do que um pássaro sem voos.

Por isso se escreve, por isso se diz, por isso se publica,

por isso se declara e declama um poema.

Para guardá-lo:

Para que ele, por sua vez, guarde o que guarda:

Guarde o que quer que guarda um poema:

Por isso o lance do poema:

Por guardar-se o que se quer guardar.

Liberte-se

António Cícero     em    Guardar: poemas escolhidos.

Se uma gaivota viesse
Setembro 16, 2018

Se uma gaivota viesse
trazer-me o céu de Lisboa
no desenho que fizesse,
nesse céu onde o olhar
é uma asa que não voa,
esmorece e cai ao mar…
.
Que perfeito coração
no meu peito bateria,
meu amor na tua mão,
nessa mão onde cabia
perfeito o meu coração.
.
Se ao dizer adeus à vida,
as aves todas do céu
me dessem na despedida
o teu olhar derradeiro,
esse olhar que era só teu…
.
Que perfeito coração
no meu peito bateria,
meu amor na tua mão,
nessa mão onde cabia
perfeito o meu coração.
.
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Alexandre O’Neill

Interrogação
Setembro 4, 2018

Não sei se isto é amor. Procuro o teu olhar,
se alguma dor me fere, em busca de um abrigo;
e apesar disso, crê! nunca pensei num lar
onde fosses feliz, e eu feliz contigo.

Por ti nunca chorei nenhum ideal desfeito.
E nunca te escrevi nenhuns versos românticos.
Nem depois de acordar te procurei no leito
como a esposa sensual do Cântico dos cânticos.

Se é amar-te não sei. Não sei se te idealizo
a tua cor sadia, o teu sorriso terno…
Mas sinto-me sorrir de ver esse sorriso
que me penetra bem, como este sol de Inverno.

Passo contigo a tarde e sempre sem receio
da luz crepuscular, que enerva, que provoca.
Eu não demoro a olhar na curva do teu seio
nem me lembrei jamais de te beijar na boca.

Eu não sei se é amor. Será talvez começo…
Eu não sei que mudança a minha alma pressente…
Amor não sei se o é, mas sei que te estremeço,
que adoecia talvez de te saber doente.

© Matt Wisniewski

Camilo  Pessanha

 

espelho
Fevereiro 16, 2018

espelho, és a terra onde as raízes rebentam de mistérios.

repetes as perguntas que te faço, porquê?, repetes

os olhares sem fim das coisas paradas. repetes o meu olhar.

espelho, és a parede e a pele cansada, és um silêncio a morrer a noite,

és o que ninguém quer, a verdade mais triste e cansada por dentro.

repetes as perguntas que te faço, porquê?, repetes

a desgraça, a miséria e o desespero.

espelho, quis conhecer-te e perdi-me de ti.

espelho

José Luís Peixoto