O Amor
Julho 14, 2017

 

Quando encontrar alguém e esse alguém fizer seu coração parar de funcionar por alguns segundos, preste atenção. Pode ser a pessoa mais importante da sua vida.
Se os olhares se cruzarem e neste momento houver o mesmo brilho intenso entre eles, fique alerta: pode ser a pessoa que você está esperando desde o dia em que nasceu.

Se o toque dos lábios for intenso, se o beijo for apaixonante e os olhos encherem d’água neste momento, perceba: existe algo mágico entre vocês.

Se o primeiro e o último pensamento do dia for essa pessoa, se a vontade de ficar juntos chegar a apertar o coração, agradeça: Deus te mandou um presente divino: o amor.

Se um dia tiver que pedir perdão um ao outro por algum motivo e em troca receber um abraço, um sorriso, um afago nos cabelos e os gestos valerem mais que mil palavras,entregue-se: vocês foram feitos um pro outro.

Se por algum motivo você estiver triste, se a vida te deu uma rasteira e a outra pessoa sofrer o seu sofrimento, chorar as suas lágrimas e enxugá-las com ternura, que coisa maravilhosa: você poderá contar com ela em qualquer momento de sua vida.

Se você conseguir em pensamento sentir o cheiro da pessoa como se ela estivesse ali do seu lado… se você achar a pessoa maravilhosamente linda, mesmo ela estando de pijamas velhos, chinelos de dedo e cabelos emaranhados..

Se você não consegue trabalhar direito o dia todo, ansioso pelo encontro que está marcado para a noite… se você não consegue imaginar, de maneira nenhuma, um futuro sem a pessoa ao seu lado…

 Se você tiver a certeza que vai ver a pessoa envelhecendo e, mesmo assim, tiver a convicção que vai continuar sendo louco por ela…

Se você preferir morrer antes de ver a outra partindo: é o amor que chegou na sua vida. É uma dádiva.

 Muitas pessoas apaixonam-se muitas vezes na vida, mas poucas amam ou encontram um amor verdadeiro. Ou às vezes encontram e por não prestarem atenção nesses sinais, deixam o amor passar, sem deixá-lo acontecer verdadeiramente. É o livre-arbítrio.

Por isso preste atenção nos sinais, não deixe que as loucuras do dia a dia o deixem cego para a melhor coisa da vida: o amor.

Amar é...

Vinicius  de  Moraes

Poema sobre nada
Janeiro 26, 2017

Por vezes a Primavera é um pássaro que atravessa o Inverno,

não há o calor do sol

ou a brisa tépida que sopra por entre as folhas,

por vezes um olhar é o único aceno.

.

Há dias em que a única certeza da vida

é a tua leve presença

sobre o abismo da ignorância,

há dias em que nem a morte está garantida.

.

Um pássaro de luz corta as nuvens de sombra,

desde a claridade e as trevas

do princípio,

um pássaro de luz da tua íris irrompe.

.

Os teus braços não provarão que estou vivo,

são efémeros

mas deixei de parte a memória,

os teus braços nada provam e cinjo-os.

passaroverde

Joel Henriques

Namorados no mirante
Setembro 14, 2016

Eles eram mais antigos que o silêncio
a perscrutar-se intimamente os sonhos
tal como duas súbitas estátuas
em que apenas o olhar restasse humano.
Qualquer toque, por certo, desfaria
os seus corpos sem tempo em pura cinza.
Remontavam às origens – a realidade
neles se fez, de substância, imagem.
Dela a face era fria, a que o desejo
como um hictus, houvesse adormecido.
Dele apenas restava o eterno grito
da espécie – tudo mais tinha morrido.
Caíam lentamente na voragem
como duas estrelas que gravitam
juntas para, depois, num grande abraço
rolarem pelo espaço e se perderem
transformadas no magma incandescente
que milênios mais tarde explode em amor
e da matéria reproduz o tempo

nas galáxias da vida no infinito.

Eles eram mais antigos que o silêncio…

Vinicius de Moraes in “P’ra viver um grande amor”
Rio de Janeiro, 1960

Meu quase sexto sentido
Junho 16, 2016

Por detrás da névoa incerta,
da bruma desconcertante,
há uma verdade encoberta,
que é, por detrás da névoa incerta,
intemporal e constante.
.
Oh névoa! Oh tempo sem horas!
Oh baça visão instável!
Que mal meus olhos afloras,
em vão transmutas, descoras…
Meu olhar é infatigável.
.
Quero saber-me quem sou
para além do que pareço
enquanto não sei e sou!
Nuvem que a mim me ocultou,
ai! meramente aconteço.
.
Com menos finalidade
do que uma folha caída
na boca da tempestade,
porque ela é, na verdade,
morte a caminho da Vida.
.
E eu não sei donde venho,
nem sei, sequer p´ra onde vou.
Rompa-se a névoa encoberta!
Quero saber-me quem sou!

nevoeiro

Reinaldo Ferreira

Tu vinhas
Dezembro 8, 2015

Não me fizeste sofrer
mas esperar.

Naquelas horas
emaranhadas, cheias
de serpentes,
quando
a alma me caía e eu me afogava,
tu vinhas-te aproximando,
tu vinhas nua e arranhada,
tu chegavas ensanguentada ao meu leito,
noiva minha,
e então
caminhávamos toda a noite dormindo
e, quando acordávamos,
estavas intacta e nova,
como se o vento grave dos sonhos
acendesse de novo
o fogo da tua cabeleira
e em trigo e prata submergisse
teu corpo até torná-lo deslumbrante.

Eu não sofri, meu amor,
esperava-te apenas.
Tu precisavas de mudar de coração
e de olhar
depois de tocares a profunda
zona do mar que meu peito te entregou.
Precisavas de sair da água
pura como uma gota erguida
por uma onda nocturna.

Noiva minha, tu precisaste
de morrer e de nascer, eu esperava-te.
Não sofri a procurar-te,
sabia que virias,
mas outra, com o que adoro
da mulher que não adorava,
com teus olhos, tuas mãos e tua boca,
mas com outro coração,
que amanheceu a meu lado
como se sempre tivesse estado ali
para continuar comigo para sempre.

mulher-caminhar
Pablo Neruda, em “Os Versos do Capitão“.

XV
Maio 4, 2015

 

Estamos todos cansados de esperar
o que nunca virá,
de subir às ameias e espreitar,
de nos deitarmos no chão para escutar
a voz que ainda não esteve nem estará
junto de nós para nos consolar.

À volta só o silêncio e a solidão
respondem ao nosso olhar que não descansa
e ao nosso sequioso coração
a quem disseram que tivesse esperança.

solidao4

Maria Judite de Carvalho
a flor que havia na água parada”, pág. 33

As agonias do desejo
Janeiro 26, 2015

o dia a dia aperta aperta que nem

cordas cordéis ou outras mortas

coisas espertas não apertam

.

o dia a dia devolve-nos ao nada

sem metas físicas sem algas de conserva

somos servos do seu apertar

.

e tão estreito fica no cotovelo o

aperto do peito que não há jeito

de um dia o dia a dia adiar o

.

nó que nos lançou o laço que

no esófago afoga o coração pulmões

sem vento e os olhos sem invento

.

o dia a dia é noite noite sem

noite má maré sem mar

bardies

vamos ver que nos reserva o ver

quando amanhece noite e em verdade

nada se vislumbra

.

vamos a encontrar que nos reserva

o encontro vamos no contra ver

a ver que tem a ver o olhar

.

vamos andando como quem tacteia

o tom do tacto com o tecto baixo

destas nuvens caindo no contacto

.

das mãos das coisas e dos casos

vamos regressar lentamente ao

encanto de não saber sobreviver

.

descobrindo o que recobre o ar

o que cobre o contacto do voar

E. M. de Melo e Castro

Caminhante
Agosto 3, 2014

Caminhante, são teus rastos
o caminho e nada mais;
caminhante, não há caminho
faz-se o caminho ao andar.
Ao andar faz-se o caminho,
e ao olhar-se para trás
vê-se a senda que jamais
se voltará a pisar.
Caminhante, não há caminho,
somente sulcos no mar.

caminho 4

António  Machado

Poema Quadragésimo Sexto
Junho 19, 2014

violeta 2

Peço-te. Não pises as violetas
que trago no olhar.

Falemos dos brilhos estilhaçados
desta casa súbita que é o teu corpo
devoluto. A noite devora as palavras possíveis,
o sofrimento que pulsa em tua boca
e torna a minha boca vulnerável.
O amor é um nada que a liberta, uma luz
que desce dos ombros para o ventre
e fecunda as sementes da tua virgindade,
essa que faz agora parte de uma dor quase
amigável, na lividez do tempo,
e que entregas em minhas mãos, beijando-as,
tornando-te parte dos meus versos, da
minha forma mais profunda de gostar
de ti. Amar-te, é escrever-te.
Amar-te é deixar que me toques até ser teu,
até que te deites no meu corpo e adormeças
inteira dentro de mim. Peço-te. Não pises as violetas
que trago no olhar. Cheiram a ti. São para ti.
Um “bouquet” de palavras que floriram
neste tempo de amor..
JOAQUIM PESSOA,   em   GUARDAR O FOGO

É por ti
Junho 5, 2014

É por ti  que eu escrevo que não és musa nem deusa

mas a mulher do meu horizonte

na imperfeição e na incoincidência do dia-a-dia

Por ti desejo o sossego oval

em que possas identificar-te na limpidez de um centro

em que a felicidade se revele como um jardim branco

onde reconheças a dália da tua identidade azul

É porque amo a cálida formosura do teu torso

a latitude pura da tua fronte

o teu olhar de água iluminada

o teu sorriso solar

é porque sem ti não conheceria o girassol do horizonte

nem a túmida integridade do trigo

que eu procuro as palavras fragrantes de um oásis

para a oferenda do meu sangue inquieto

onde pressinto a vermelha trajectória de um sol

que quer resplandecer em largas planícies

sulcado por um tranquilo rio sumptuoso

flor_amarela_43

António Ramos Rosa