As minhas mãos
Dezembro 15, 2016

As minhas mãos procuram o teu rosto
e perdem-se no ar, desesperadas;
percorrem o caminho do desgosto
e caem a teus pés, extenuadas.
.
Os teus olhos ardentes, de sol-posto,
reacendem as brasas desmaiadas
que jazem no meu peito, encantadas,
à espera de um beijo, de um gosto.
.
Eu quero-te, amor, como tu queres
o calor dos meus lábios, se puderes
ajudar-me a vencer o desafio.
.
As minhas mãos procuram-te, esperam.
Em todos os castelos que fizeram,
tu vives como um sonho, e eu confio.
tempo 3

Diana Sá

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O mais é nada
Março 16, 2016

Navega, descobre tesouros, mas não os tires do fundo do mar, o lugar deles é lá.
Admira a lua, sonha com ela, mas não queiras trazê-la para a terra.
Goza o sol, deixa-te acariciar por ele, mas lembra-te que o calor dele é para todos.
Sonha com as estrelas, sonha apenas, elas só podem brilhar no céu.
Não tentes deter o vento, ele precisa de correr por toda a  parte, ele tem pressa de chegar sabe-se lá onde.
Não segures a chuva, ela quer cair e molhar muitos rostos, não pode molhar só o teu.
As lágrimas? Não as seques, elas precisam correr na minha, na tua, em todas as faces.
O sorriso! Esse tu deves segurar, não deixes-o ir embora, agarra-o!
Quem tu amas? Guarda dentro de um guarda- jóias, tranca, perde a chave!
Quem tu amas é a maior jóia que tu possuis, a mais valiosa.

Não importa se a estação do ano muda, se o século vira e se o milénio é outro, se a idade aumenta;

conserva a vontade de viver, não se chega a nenhuma parte sem ela.
Abre todas as janelas que encontrares e as portas também.
Persegue um sonho, mas não o deixes viver sozinho.
Alimenta a tua alma com amor, cura as tuas feridas com carinho.
Descobre-te todos os dias, deixa-te levar pelas vontades, mas não enlouqueças por elas.

Procura, procura sempre o fim de uma história, seja ela qual for.
Dá um sorriso a quem esqueceu como se faz isso.
Acelera os teus pensamentos, mas não permita que eles te consumam.
Olha para o lado, alguém precisa de ti.
Abastece o teu coração de fé, não a percas nunca.
Mergulha de cabeça nos teus desejos e satisfá-los.
Agoniza de dor por um amigo, só sai dessa agonia se conseguires tirá-lo também.
Procura os teus caminhos, mas não magoes ninguém nessa procura.
Arrepende-te, volta atrás, pede perdão!
Não te acostumes com o que não te faz feliz, revolta-te quando julgares necessário.
Alaga o teu coração de esperanças, mas não deixes que ele se afogue nelas.
Se achares que precisas voltar, volta!
Se perceberes que precisas de seguir, segue!
Se estiver tudo errado, começa novamente.
Se estiver tudo certo, continua.
Se sentires saudades, mata-as.
Se perderes um amor, não te percas!
Se o  achares, segura-o!
“Circunda-te de rosas, ama, bebe e cala. O mais é nada.”

rosas brancas

Fernando Pessoa

Balada da Neve
Fevereiro 28, 2016

Augusto Gil
Batem leve, levemente,
como quem chama por mim.
Será chuva? Será gente?
Gente não é, certamente
e a chuva não bate assim.

É talvez a ventania:
mas há pouco, há poucochinho,
nem uma agulha bulia
na quieta melancolia
dos pinheiros do caminho…

Quem bate, assim, levemente,
com tão estranha leveza,
que mal se ouve, mal se sente?
Não é chuva, nem é gente,
nem é vento com certeza.

Fui ver. A neve caía
do azul cinzento do céu,
branca e leve, branca e fria,
há quanto tempo a não via…
…e que saudades, Deus meu!
.
Olho-a através da vidraça.
Pôs tudo da cor do linho.
Passa gente e, quando passa,
os passos imprime e traça
na brancura do caminho…

Fico olhando esses sinais
da pobre gente que avança,
e noto, por entre os mais,
os traços miniaturais
duns pezitos de criança…

E descalcinhos, doridos…
a neve deixa inda vê-los,
primeiro, bem definidos,
depois, em sulcos compridos,
porque não podia erguê-los!…

Que quem já é pecador
sofra tormentos, enfim!
Mas as crianças, Senhor,
porque lhes dais tanta dor?!…
Porque padecem assim?!…

E uma infinita tristeza,
uma funda turbação
entra em mim, fica em mim presa.
Cai neve na Natureza
e cai no meu coração.

Augusto Gil

Sei onde o trigo
Fevereiro 21, 2016

Sei onde o trigo ilumina a boca.
Invoco esta razão para me cobrir
com o mais frágil manto do ar.
.
O sono é assim, permite ao corpo
este abandono, ser no seio da terra
essa alegria só prometida à água.
.
Digo que estive aqui, e vou agora
a caminho de outro sol mais branco.

estátua

Eugénio de Andrade

Por todos os caminhos do mundo
Julho 26, 2015

A minha poesia é assim como uma vida que vagueia
pelo mundo,
por todos os caminhos do mundo,
desencontrados como os ponteiros de um relógio velho,
que ora tem um mar de espuma, calmo, como o luar
num jardim nocturno,
ora um deserto que o simum veio modificar,
ora a miragem de se estar perto do oásis,
ora os pés cansados, sem forças para além.
Que ninguém me peça esse andar certo de quem sabe
o rumo e a hora de o atingir,
a tranquilidade de quem tem na mão o profetizado
de que a tempestade não lhe abalará o palácio,
a doçura de quem nada tem a regatear,
o clamor dos que nasceram com o sangue a crepitar.
Na minha vida nem sempre a bússola se atrai ao mesmo
norte.
Que ninguém me peça nada. Nada.
Deixai-me com o meu dia que nem sempre é dia,
com a minha noite que nem sempre é noite
como a alma quer.
Não sei caminhos de cor.

DSCN0713

Fernando Namora

Amigo
Abril 16, 2015

Procura-se um amigo que me acompanhe até ao fim,
que una nossos caminhos, quando opostos.
Não precisa gostar dos mesmos gostos,
mas que goste de mim.

Preciso de um amigo para partilhar meus momentos,
que se envolva em meus pensamentos
e se comova, quando chamado de amigo.

Que me diga, eu sei que estás errado.
De qualquer forma, estou ao teu lado.
Vou contigo.

Preciso de um amigo que me desprenda da corrente,
que reviva comigo o passado,
sem nunca esquecer o presente.

Um amigo, que faça do longe, perto.
Capaz de atravessar o deserto
só para me ver contente.

Que quando morto, me faça renascer.
Que me ajude a ganhar, em vez de perder.
Que olhe pr’além do seu umbigo.

Que me abrace apertado, sem qualquer medo.
Que se sente do meu lado, que guarde um segredo.
Que goste de mim, que me chame de Amigo.

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José Carlos SC

Aquilo que eu não fiz
Agosto 15, 2014

Eu não quero pagar por aquilo que eu não fiz

não me fazem ver que a luta é pelo meu país

Eu não quero pagar depois de tudo o que dei

não me fazem ver que fui eu que errei

.

não fui eu que gastei

mais do que era para mim

não fui eu que tirei

não fui eu que comi

não fui eu que comprei

não fui eu que escondi

quando estavam a olhar

não fui eu que fugi

não é essa a razão

para me quererem moldar

porque eu não me escolhi

para a fila do pão

este barco afundou

quando alguém aqui chegou

não fui eu que não vi

.

Eu não quero pagar por aquilo que não fiz

não me fazem ver que a luta é pelo meu país

Eu não quero pagar depois de tudo o que dei

não me fazem ver que fui eu que errei

.

talvez do que não sei

talvez do que não vi

foi de mão para mão

mas não passou por mim

e perdeu-se a razão

tudo o bom se feriu

foi mesquinha a canção

de esse amor a fingir

não me falem do fim

se o caminho é mentir

se quiseram entrar

não souberam sair

não fui eu quem falhou

não fui eu quem cegou

já não sabem sair

.

Eu não quero pagar por aquilo que eu não fiz

não me fazem ver que a luta é pelo meu país

Eu não quero pagar depois de tudo o que dei

não me fazem ver que fui eu que errei

.

meu sono é de armas e mar

minha força é navegar

meu norte em contraluz

meu fado é vento que leva

e conduz

e conduz

e conduz

barco 2

Tiago Bettencourt

Caminhante
Agosto 3, 2014

Caminhante, são teus rastos
o caminho e nada mais;
caminhante, não há caminho
faz-se o caminho ao andar.
Ao andar faz-se o caminho,
e ao olhar-se para trás
vê-se a senda que jamais
se voltará a pisar.
Caminhante, não há caminho,
somente sulcos no mar.

caminho 4

António  Machado

Dantes
Julho 28, 2014

Quando ia passear contigo ao campo,
tu ias sempre a rir e a cantar;
e lembra-me até uma cotovia
que um dia se calou pra te escutar,

enquanto eu apanhava os malmequeres
que nos cumprimentavam da estrada,
que, depois esfolhavas, impiedoso,
na eterna pergunta: muito ou nada?

Tu beijavas as f´ridas carminadas
que, em meus dedos, faziam os espinhos
das rosas que coravam, vergonhosas,
zangadas, de nos ver assim sozinhos.

Fitávamos as nuvens do espaço.
Que imensas! Que bonitas e que estranhas!
E ficávamos horas a pensar
se seriam castelos ou montanhas…

Que adoráveis canções de mimo e graça
os teus lábios proferiram a cantar!
tão mimosas, que as relvas da campina
ficavam pensativas a sonhar…

As fontes murmuravam docemente,
os teus beijos cantavam namorados;
cintilavam as pedras do caminho,
sorriam as flores pelos valados…

À hora sonhadora do poente
tinham maiores palpitações os ninhos.
Lembras-te? Íamos lavar as mãos,
vermelhas das amoras dos caminhos.

Eu brincava a correr atrás de ti;
uma sombra perseguindo um clarão…
E no seio da noite, os nossos passos
pareciam encher de sol a ’scuridão!

Olhando tanta estrela, tu dizias:
olha a chuva de prata que nos cobre!
Depois, numa expressão amarga e branda
recitavas, chorando, António Nobre!…

Eu tinha medo, um medo atroz infindo
de passar pelos campos a tal hora,
mas, olhando os teus olhos cintilantes,
a noite semelhava uma aurora!

E já passaram esses áureos tempos,
e já fugiu a nossa mocidade!…
Mas quando penso nesses dias lindos,
que tortura, minh’alma, e que saudade!

Em “Trocando olhares” 1915-1917
Florbela Espanca

DANTES</p><br />
<p>Quando ia passear contigo ao campo,<br /><br />
Tu ias sempre a rir e a cantar;<br /><br />
E lembra-me até uma cotovia<br /><br />
Que um dia se calou pra te escutar,</p><br />
<p>Enquanto eu apanhava os malmequeres<br /><br />
Que nos cumprimentavam da estrada,<br /><br />
Que, depois esfolhavas, impiedoso,<br /><br />
Na eterna pergunta: muito ou nada?</p><br />
<p>Tu beijavas as f´ridas carminadas<br /><br />
Que, em meus dedos, faziam os espinhos<br /><br />
Das rosas que coravam, vergonhosas,<br /><br />
Zangadas, de nos ver assim sozinhos.</p><br />
<p>Fitávamos as nuvens do espaço.<br /><br />
Que imensas! Que bonitas e que estranhas!<br /><br />
E ficávamos horas a pensar<br /><br />
Se seriam castelos ou montanhas...</p><br />
<p>Que adoráveis canções de mimo e graça<br /><br />
Os teus lábios proferiram a cantar!<br /><br />
Tão mimosas, que as relvas da campina<br /><br />
Ficavam pensativas a sonhar...</p><br />
<p>As fontes murmuravam docemente,<br /><br />
Os teus beijos cantavam namorados;<br /><br />
Cintilavam as pedras do caminho,<br /><br />
Sorriam as flores pelos valados...</p><br />
<p>À hora sonhadora do poente<br /><br />
Tinham maiores palpitações os ninhos.<br /><br />
Lembras-te? Íamos lavar as mãos,<br /><br />
Vermelhas das amoras dos caminhos.</p><br />
<p>Eu brincava a correr atrás de ti;<br /><br />
Uma sombra perseguindo um clarão...<br /><br />
E no seio da noite, os nossos passos<br /><br />
Pareciam encher de sol a ’scuridão!</p><br />
<p>Olhando tanta estrela, tu dizias:<br /><br />
Olha a chuva de prata que nos cobre!<br /><br />
Depois, numa expressão amarga e branda<br /><br />
Recitavas, chorando, António Nobre!...</p><br />
<p>Eu tinha medo, um medo atroz infindo<br /><br />
De passar pelos campos a tal hora,<br /><br />
Mas, olhando os teus olhos cintilantes,<br /><br />
A noite semelhava uma aurora!</p><br />
<p>E já passaram esses áureos tempos,<br /><br />
E já fugiu a nossa mocidade!...<br /><br />
Mas quando penso nesses dias lindos,<br /><br />
Que tortura, minh’alma, e que saudade!</p><br />
<p>In “Trocando olhares” 1915-1917<br /><br />
Editora Martin Claret</p><br />
<p>Florbela Espancaflorbelaespanca.thumbnail

entrego-te as palavras
Setembro 17, 2013

entrego-te as palavras mais brandas
que entre os meus dedos construí
para alimentar de ti os recantos da casa
invadindo o coração da noite

entrego-te as palavras com a redonda luz
das maçãs sobre a mesa e o rumor da água
rasgando o caminho da paixão
em horas que já não conseguimos sem ajuda recordar
mas que habital a mais frágil memória de nós próprios

palavras jorrando dos meus olhos
invadindo-te o sono e tropeçando
nas esquinas das frases que decoro
ao longo dos veios da tua pele

e a verdade é que nunca terei outra história
para além da que nos aconteceu
e que ficamos à espera de um dia perceber melhor

porque nunca ninguém se prepara convenientemente
para a chegada do amor
e ele é sempre um convidado estranho
sentado em silêncio na penumbra da sala
olhando os quadros o chão o tecto

como um velho parente da província
com medo de dizer o que não deve

anoitecer

ALICE VIEIRA,  em  DOIS CORPOS TOMBANDO NA ÁGUA (Caminho, 2011)