Os dias de Verão

Julho 7, 2018 - 2 Respostas

Os dias de verão vastos como um reino
cintilantes de areia e maré lisa
Os quartos apuram seu fresco de penumbra
Irmão do lírio e da concha é nosso corpo

Tempo é de repouso e festa
O instante é completo como um fruto
Irmão do universo é nosso corpo

O destino torna-se próximo e legível
enquanto no terraço fitamos o alto enigma familiar dos astros
que em sua imóvel mobilidade nos conduzem

como se em tudo aflorasse eternidade

Justa é a forma do nosso corpo

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Sophia de Mello Breyner Andresen    em    Obra Poética

Sempre

Novembro 21, 2020 - Leave a Response

Ao contrário de ti
não tenho ciúmes.

Vem com um homem
às costas,
vem com cem homens nos teus cabelos,
vem com mil homens entre os seios e os pés,
vem como um rio
cheio de afogados
que encontra o mar furioso,
a espuma eterna, o tempo.

Trá-los todos
até onde te espero:
estaremos sempre sozinhos,
estaremos sempre tu e eu
sozinhos na terra
para começar a vida.

Neruda

Pablo Neruda       em      “Poemas de Amor de Pablo Neruda”

O poema

Novembro 11, 2020 - Leave a Response

O poema é um exercício de dissidência, uma profissão de

incredulidade na omnipotência do visível, do estável, do

apreendido. O poema é uma forma de apostasia. Não há

poema verdadeiro que não torne o sujeito um foragido.

.

O poema obriga a pernoitar na solidão dos bosques, em cam-

pos nevados, por orlas intactas. Que outra verdade existe no

mundo para lá daquela que não pertence a este mundo ?

.

O poema não busca o inexprimível: não há piedoso que, na

agitação da sua piedade, não o procure. O poema devolve o

inexprimível.

O poema não alcança aquela pureza que fascina

o mundo. O poema abraça precisamente aquela impureza que

o mundo repudia.

neve

José Tolentino Mendonça

No pasmo do silêncio

Outubro 28, 2020 - Leave a Response

No pasmo do silêncio a procurar

horas perdidas que já não me traem,

pergunto a Deus o que me faz lembrar

mistérios do Impossível que se esvaem.

.

Coisas que não se podem evitar,

mas são ocas em si, fumos que saem

de brasas apagadas, a voar

sem rumo definido, por fim caem.

pena

A Vida é assim: sol, chuva, vento, ar

parado no recôndito assombrado,

momentos que se alongam levemente.

.

Pudera eu controlar o respirar

do tempo que resiste ao limitado

fulgor de uma ausência consequente.

Diana Sá

Acabar

Outubro 18, 2020 - Uma resposta

Tu tens um medo:

acabar.

Não vês que acabas todo o dia.

Que morres no amor.

Na tristeza.

Na dúvida.

No desejo.

Que te renovas todo o dia,

No amor.

Na tristeza.

Na dúvida.

No desejo.

Que és sempre outro.

Que és sempre o mesmo.

Que morremos por idades imensas.

Até não teres medo de morrer.

.

E então serás eterno.

existir

Cecília Meireles

Musica mirabilis

Outubro 6, 2020 - Leave a Response

Talvez a ternura

crepite no pulso,

talvez o vento

súbito se levante,

talvez a palavra

atinja o seu cume,

talvez um segredo

chegue ainda a tempo

.

–  e desperte o lume.

fogo

Eugénio de Andrade

Versos

Setembro 27, 2020 - Leave a Response

Versos! Versos! Sei lá o que são versos…

Pedaços de sorriso, branca espuma,

gargalhadas de luz, cantos dispersos,

ou pétalas que caem uma a uma…

.

Versos!… Sei lá! Um verso é o teu olhar,

um verso é o teu sorriso e os de Dante

eram o teu amor a soluçar

aos pés da sua estremecida amante!

.

Meus versos!… Sei eu lá também que são…

Sei lá! Sei lá!… Meu pobre coração

partido em mil pedaços são talvez…

.

Versos! Versos! Sei lá o que são versos…

Meus soluços de dor que andam dispersos

por este grande amor em que não crês…

flor branca

Florbela Espanca

A Memória

Setembro 16, 2020 - 2 Respostas

Por entre vendavais desfeitos,

procuro no antro da memória,

procuro por sítios inóspitos,

porque nos perdemos no fundir do tempo!

.

Arrastam-se máscaras, esfinges,

que não consigo decifrar,

mas tu és a mesma menina que sempre foste,

o passar dos anos fez-te ainda mais bonita,

fez-te sedutora.

.

Queria perder-me nos teus braços,

acordar e renascer das cinzas,

todo eu ainda tremo ao ouvir os teus passos!

.

Por entre muralhas e sombras que nos enlaçam no nevoeiro,

duas faces, olhos nos olhos,

os meus aproximam-se dos teus,

os meus lábios secam as tuas lágrimas,

beijo-te os olhos,

acabam as tuas mágoas prisioneiras do passado!

meu príncipe

Daniel  Dias

Descrição

Setembro 8, 2020 - Leave a Response

A minha casa tem o tamanho do universo,

nela cresce o trigo sob o vento.

Se me encontro no meio da sala,

cabem outros continentes em poucos passos

e nunca me considero estrangeiro.

.

Moro na vastidão insuperável das galáxias,

na distância intransponível habito.

Se me descubro no seu interior,

com facilidade me aproximo do parapeito das janelas

e nunca estou sozinho.

.

Fiquei sempre por dentro da minha moradia,

desde a primeira aurora.

Se fecho a sua porta e não mais a transponho,

tenho um jardim cultivado no silêncio das palavras

e Deus nunca me abandona.

estrelas 2

Joel  Henriques

Não te rendas

Agosto 31, 2020 - Leave a Response

Não te rendas, ainda estás a tempo

de alcançar e começar de novo,

aceitar as tuas sombras

enterrar os teus medos,

largar o lastro,

retomar o voo.

Não te rendas que a vida é isso,

continuar a viagem,

perseguir os teus sonhos,

destravar os tempos,

arrumar os escombros,

e destapar o céu.

Não te rendas, por favor, não cedas,

ainda que o frio queime,

ainda que o medo morda,

ainda que o sol se esconda,

e se cale o vento:

ainda há fogo na tua alma

ainda existe vida nos teus sonhos.

Porque a vida é tua, e teu é também o desejo,

porque o quiseste e eu te amo,

porque existe o vinho e o amor,

porque não existem feridas que o tempo não cure.

Abrir as portas,

tirar os ferrolhos,

abandonar as muralhas que te protegeram,

viver a vida e aceitar o desafio,

recuperar o riso,

ensaiar um canto,

baixar a guarda e estender as mãos,

abrir as asas

e tentar de novo

celebrar a vida e relançar-se no infinito.

Não te rendas, por favor, não cedas:

mesmo que o frio queime,

mesmo que o medo morda,

mesmo que o sol se ponha e se cale o vento,

ainda há fogo na tua alma,

ainda existe vida nos teus sonhos.

Porque cada dia é um novo início,

porque esta é a hora e o melhor momento.

Porque não estás só, porque eu te amo.

despertares

Mário Benedetti

Eu queria

Agosto 21, 2020 - Leave a Response

Eu queria ter o tempo e sossego suficientes

para não pensar em coisa nenhuma,

para nem me sentir viver,

para só saber de mim nos olhos dos outros.

mulherrosa

Alberto Caeiro   em   Poemas Inconjuntos