Os dias de Verão

Julho 7, 2018 - 2 Respostas

Os dias de verão vastos como um reino
cintilantes de areia e maré lisa
Os quartos apuram seu fresco de penumbra
Irmão do lírio e da concha é nosso corpo

Tempo é de repouso e festa
O instante é completo como um fruto
Irmão do universo é nosso corpo

O destino torna-se próximo e legível
enquanto no terraço fitamos o alto enigma familiar dos astros
que em sua imóvel mobilidade nos conduzem

como se em tudo aflorasse eternidade

Justa é a forma do nosso corpo

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Sophia de Mello Breyner Andresen    em    Obra Poética

A criança que fui

Julho 31, 2020 - Leave a Response

A criança que fui chora na estrada.
deixei-a ali quando vim ser quem sou;
mas hoje, vendo que o que sou é nada,
quero ir buscar quem fui onde ficou.

Ah, como hei-de encontrá-lo? Quem errou
a vinda tem a regressão errada.
Já não sei de onde vim nem onde estou.
De o não saber, minha alma está parada.

Se ao menos atingir neste lugar
um alto monte, de onde possa enfim
o que esqueci, olhando-o, relembrar,

na ausência, ao menos, saberei de mim,
e, ao ver-me tal qual fui ao longe, achar
em mim um pouco de quando era assim.

crianca4[1]

Fernando Pessoa

No teu rosto

Julho 16, 2020 - Leave a Response
No teu rosto
competem mil madrugadas
Nos teus lábios
a raiz do sangue
procura suas pétalas
A tua beleza
é essa luta de sombras
é o sobressalto da luz
num tremor de água
é a boca da paixão
mordendo o meu sossego
.
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.
Mia Couto

Um não acabar mais

Julho 1, 2020 - Leave a Response

Sou quem sou.
Um acaso inconcebível
como todos os acasos.
.
Outros antepassados
poderiam, afinal, ser os meus,
e então de outro ninho
sairia voando,
de debaixo de outro tronco
rastejaria, coberta de escamas.
.
No guarda-roupa da Natureza
há trajes de sobra:
o traje da aranha, da gaivota, do rato do campo.
Cada um assenta de imediato que nem uma luva
e usa-se obedientemente
até se gastar por completo.
.
Eu tampouco tive alternativa,
mas não me queixo.
Poderia ser alguém
muito menos individual.
Alguém do cardume, do formigueiro, do enxame zuninte,
uma partícula de paisagem agitada pelo vento.
.
Alguém muito menos feliz,
criado para dar a pele,
para a mesa festiva,
ou algo que nadasse sob a lente.
.
Uma árvore presa à terra,
pela marcha dos acontecimentos inconcebíveis.
.
Um indivíduo nascido sob a estrela ruim
que para outros seria boa.
.
E que seria se despertasse nas pessoas medo?
Ou só aversão?
Ou só piedade?
.
Se não tivesse nascido
na tribo certa
e todos os caminhos se me fechassem?
.
Até agora, a sorte
mostrou-se-me favorável.
.
Poderia não ter-me sido dada
a recordação dos bons instantes.
.
Poderia ter-me sido negada
a tendência para comparar.
.
Poderia até ser eu própria
mas sem o dom da admiração,
quer dizer – alguém completamente diferente.

Wislawa Szymborska

Sementes

Junho 20, 2020 - Leave a Response

Olhos,

vale tê-los,

se, de quando em quando,

somos cegos

e o que vemos

não é o que olhamos

mas o que o olhar semeia no mais denso escuro.

.

Vida

vale vivê-la

se, de quando em quando,

morremos

e o que vivemos

não é o que a Vida nos dá

nem o que dela colhemos

mas o que semeamos em pleno deserto.

Mia Couto

Lágrima de preta

Junho 14, 2020 - Leave a Response
Encontrei uma preta
que estava a chorar,
pedi-lhe uma lágrima
para a analisar.
.
Recolhi a lágrima
com todo o cuidado
num tubo de ensaio
bem esterilizado.
.
Olhei-a de um lado,
do outro e de frente:
tinha um ar de gota
muito transparente.
.
Mandei vir os ácidos,
as bases e os sais,
as drogas usadas
em casos que tais.
.
Ensaiei a frio,
experimentei ao lume,
de todas as vezes
deu-me o que é costume:
.
nem sinais de negro,
nem vestígios de ódio.
Água (quase tudo)
e cloreto de sódio.
lágrima
António Gedeão

Acidentes de Guerra

Junho 7, 2020 - Leave a Response

Sacudo grão levíssimo
de cima do papel

Não sei se pó,
se uma pequena cinza
que assim se insinuou
neste caderno

a emoção, passado, defesa, antes na prateleira,
preso a outros cadernos, outros livros,
esquecido do olhar
e das pequenas emoções
de dentroÉ livre agora,
e o grão que projectei no ar
entre polegar e dedo médio em riste:
lança-chama de fluídos inflamáveis

com passado a assaltar,
sem defesa possível de vencer,
nem acertado alvo
que resista

livros 1

Ana Luísa Amaral    em    What’s In a Name

Na hora de pôr a mesa

Junho 1, 2020 - Leave a Response

Questões de princípio

Maio 25, 2020 - Leave a Response

Não me exijam
que diga
o que não digo

não queiram
que escreva
o meu avesso

não ordenem
que eu acene
o que recuso

não esperem
que me cale
e obedeça

suave

MARIA TERESA HORTA    em    ESTRANHEZAS (D. Quixote, 2018)

a rosa, timbres

Maio 19, 2020 - Leave a Response

e o outro silêncio enquanto o som repousa:

desfez-se o seu rebordo numa espuma.

de que sombra dos sons se faz a rosa?

da matéria das sombras? de nenhuma?

.

de que fosco murmúrio, cristal, bruma?

de que espirais de noite vagarosa?

do coração desfeito? ou não costuma

a luz gravar-se em sombras numa lousa?

.

coração rouco, o coração, falhada,

a voz vinda do vento se desate

num ramo de penumbras, descontínuo,

.

o mundo passe a ser feito de nada,

só de efémeras rosas a rebate,

como gritos de sangue no destino.

rosas fogo

Vasco Graça Moura

A um jovem poeta

Maio 13, 2020 - Leave a Response

 

Procura a rosa.
Onde ela estiver
estás tu fora
de ti. Procura-a em prosa, pode ser

que em prosa ela floresça
ainda, sob tanta
metáfora; pode ser, e que quando
nela te vires te reconheças

como diante de uma infância
inicial não embaciada
de nenhuma palavra
e nenhuma lembrança.

Talvez possas então
escrever sem porquê,
evidência de novo da Razão
e passagem para o que não se vê.

rosa aberta

Manuel António Pina     em     Nenhuma Palavra e Nenhuma Lembrança