Os dias de Verão

Julho 7, 2018 - 2 Respostas

Os dias de verão vastos como um reino
cintilantes de areia e maré lisa
Os quartos apuram seu fresco de penumbra
Irmão do lírio e da concha é nosso corpo

Tempo é de repouso e festa
O instante é completo como um fruto
Irmão do universo é nosso corpo

O destino torna-se próximo e legível
enquanto no terraço fitamos o alto enigma familiar dos astros
que em sua imóvel mobilidade nos conduzem

como se em tudo aflorasse eternidade

Justa é a forma do nosso corpo

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Sophia de Mello Breyner Andresen    em    Obra Poética

Se tu viesses ver-me

Julho 29, 2022 - Leave a Response

Se tu viesses ver-me hoje à tardinha,

a essa hora dos mágicos cansaços,

quando a noite de manso se avizinha,

e me prendesses toda nos teus braços…

.

Quando me lembra: esse sabor que tinha

a tua boca… o eco dos teus passos…

o teu riso de fonte… os teus abraços…

os teus beijos… a tua mão na minha…

.

Se tu viesses quando, linda e louca,

traça as linhas dulcíssimas dum beijo

e é de seda vermelha e canta e ri

.

e é como um cravo ao sol a minha boca…

quando os olhos se me cerram de desejo…

e os meus braços se estendem para ti…

Florbela Espanca em “Charneca em Flor”

Solidão

Julho 18, 2022 - Leave a Response

Por mim, e por vós, e por mais aquilo
que está onde as outras coisas nunca estão,
deixo o mar bravo e o céu tranquilo:
quero solidão.

Meu caminho é sem marcos nem paisagens.
E como o conheces? – me perguntarão.
– Por não ter palavras, por não ter imagens.
Nenhum inimigo e nenhum irmão.

Que procuras? Tudo. Que desejas? – Nada.
Viajo sozinha com o meu coração.
Não ando perdida, mas desencontrada.
Levo o meu rumo na minha mão.

A memória voou da minha fronte.
Voou meu amor, minha imaginação…
Talvez eu morra antes do horizonte.
Memória, amor e o resto onde estarão?

Deixo aqui meu corpo, entre o sol e a terra.
(Beijo-te, corpo meu, todo desilusão!
Estandarte triste de uma estranha guerra…)

Quero solidão.

soledad_y_tristeza_by_magdalena220

Cecília Meireles

IV

Julho 7, 2022 - Leave a Response

E afinal não era uma ilusão,

um sonho de atraente irrealidade…

Essa visão

era a verdade :

.

cá mesmo, neste chão de áspero piso

– com um amor como o teu –

tem a gente o paraíso…

.

Ó mais amada e pura das mulheres,

para mim, a luz do céu

é a sombra que tu deres…

Augusto Gil

Frutos do Acaso

Junho 28, 2022 - Leave a Response

Tal como tudo
o cheiro do lápis acabado de afiar
vai-se embora.
No cinzeiro
a ponta do cigarro que arde
desperta o cedro.
Tal como tu
o cheiro regressa.

Marta Chaves

Sonho

Junho 20, 2022 - Leave a Response

Pintei-te vento
guitarra
à janela alcandorada
de matizes loiros.

Castelo ou fragmento
de nuvem?

És o meu sonho
doçura de uma pétala
de lua
a desfazer-se em poalha
de versos.

Aonde te guardarei
Amor
longe de uivos
de matilhas
do som cavo
da morte ?

Claro
dentro de mim
nas profundezas
elevadas
de uma gota de seiva
a fluir na transparência
do afecto.

Maria Helena Ventura em QUANDO O SILÊNCIO FALAR

Procura a rosa

Junho 13, 2022 - Leave a Response

Procura a rosa.

Onde ela estiver

estás tu fora

de ti.

Procura-a em prosa, pode ser

que em prosa ela floresça

ainda, sob tanta

metáfora, pode ser, e que quando

nela te vires te reconheças

como diante de uma infância

inicial não embaciada

de nenhuma palavra

e nenhuma lembrança.

Talvez possas então

escrever sem porquê,

evidência de novo da Razão

e passagem para o que não se vê.

Manuel António Pina em “A um Jovem Poeta”

Quão pobre o coração

Junho 5, 2022 - Leave a Response

Quão pobre o coração que não sabe amar,

que não pode embriagar-se de Amor!

Se não amas, como explicas

a luz inebriante do sol

e a mais leve

claridade da lua?

Omar al Khayyam

(poeta persa, 1044 – 1125)

Sofrimento

Maio 27, 2022 - Leave a Response

Esta distância, amor, é muito dura…

A esperança já não chega para acalmar

a dor de estar aqui, só, insegura,

longe de ti, amor, do meu lugar…

.

Sofro, pela ausência de ternura,

quando as tuas cartas tardam a chegar…

Vivo absorta, vivo à procura

não sei de quê, talvez do teu olhar…

.

Vens, meu amor, e eu espero a tua vinda

como a do sol, que me reconforta,

o azul do céu, o frémito do mar…

.

Não demores! Quinze dias ainda…

Vem, meu amor! Vem! Eu estou quase morta

de saudades. Vem! Quero-te abraçar!

Diana Sá

Canção com gaivotas de bermeo

Maio 18, 2022 - Leave a Response

É março ou abril?

É um dia de sol

perto do mar,

é um dia

em que todo o meu sangue

é orvalho e carícia.

.

De que cor te vestiste?

De madrugada ou limão?

Que nuvens olhas, ou colinas

altas

enquanto afastas o rosto

das palavras que escrevo

de pé, exigindo

o teu amor?

.

É um dia de maio?

É um dia que tropeço

no ar

à procura do azul dos teus olhos,

em que a tua voz

dentro de mim pergunta,

insiste:

Se te fué la melancolía,

amigo mío del alma?

.

É junho? É setembro?

É um dia

em que estou carregado de ti

ou de frutos,

e tropeço na luz, como um cego,

a procurar-te.

bando

Eugénio de Andrade

Os Justos

Maio 6, 2022 - Uma resposta

Um homem que cultiva o seu jardim, como queria Voltaire.

O que agradece que na terra haja música.

O que descobre com prazer uma etimologia.

Dois empregados que num café do Sul jogam um silencioso xadrez.

O ceramista que premedita uma cor e uma forma.

O tipógrafo que compõe bem esta página, que talvez não lhe agrade.

Uma mulher e um homem que leem os tercetos finais de certo canto.

O que acarinha um animal adormecido.

O que justifica ou quer justificar um mal que lhe fizeram.

O que agradece que na terra haja Stevenson.

O que prefere que os outros tenham razão.

Essas pessoas, que se ignoram, estão a salvar o mundo.

Jorge Luís Borges