Os dias de Verão

Julho 7, 2018 - 2 Respostas

Os dias de verão vastos como um reino
cintilantes de areia e maré lisa
Os quartos apuram seu fresco de penumbra
Irmão do lírio e da concha é nosso corpo

Tempo é de repouso e festa
O instante é completo como um fruto
Irmão do universo é nosso corpo

O destino torna-se próximo e legível
enquanto no terraço fitamos o alto enigma familiar dos astros
que em sua imóvel mobilidade nos conduzem

como se em tudo aflorasse eternidade

Justa é a forma do nosso corpo

SONY DSC

Sophia de Mello Breyner Andresen    em    Obra Poética

Anúncios

Destino 4

Outubro 22, 2019 - Leave a Response

Não te amei sob as árvores.

Nem bebi a tua boca ao pé das fontes.

Respirei-te, na tarde,

quando as sombras do outono

desciam, rápidas, sobre mim.

???????????????????????????????

Luísa Dacosta

Esperança amorosa

Outubro 16, 2019 - Leave a Response

Grato silêncio, trémulo arvoredo,
sombra propícia aos crimes e aos amores.
Hoje serei feliz! – Longe, temores,
longe, fantasmas, ilusões do medo.
.
Sabei, amigos Zéfiros, que cedo
entre os braços de Nise, entre estas flores,
furtivas glórias, tácitos favores,
hei-de enfim possuir: porém, segredo!
.
Nas asas frouxos ais, brandos queixumes
não leveis, não façais isto patente,
quem nem quero que o saiba o pai dos numes.
.
Cale-se o caso a Jove omnipotente,
porque, se ele o souber, terá ciúmes,
vibrará contra mim seu raio ardente…

Bocage

Canção da breve serenidade

Outubro 10, 2019 - Leave a Response

chuva

Ouço a chuva cair. Olho as ruas molhadas.

Penso nas violetas e nos jardins em flor.

Desce ao meu coração uma paz sem memória.

Desce ao meu coração uma doçura imensa…

.

Lembro o amor a dormir tranquilo e sossegado

A rua esquiva e sem pregões, a rua pobre,

a rua humilde e a casa pequenina, em que se abriga

Lembro a infância que foi e outras manhãs já longe.

.

Sinto a vida como a chuva descendo

sobre os quietos beirais, sobre as ruas, descendo.

Sinto que o tempo é bom porque não pára nunca.

.

Um ritmo de abrigo envolve as coisas, tudo,

vontade de dormir o grande sono calmo

ouvindo a chuva triste e mansa a descer sobre mim.

Augusto Frederico Schmidt

Dias há

Setembro 29, 2019 - Leave a Response

Dias há,

em que o teu sorriso

é uma ilha perdida dentro de mim

e o teu nome

o vento que muda as estrelas

para o dorso das andorinhas.

.

Dias há,

em que procuro os teus olhos

e silenciosamente te digo “meu amor”,

como se eles fossem peixes

e as palavras animais estranhos

capazes de turvar a paz

das grandes profundidades.

Risco

Isabel Meyrelles

A minha secretária

Setembro 20, 2019 - Leave a Response

Tenho um ramo

de nuvens

na minha secretária

.

por entre versos

cartas

cadernos e diários

.

uma caneta

com tinta de gardénia

de paixão e soneto

.

E na gaveta de segredo

porque

a poesia salva

.

eu guardo a minha alma

despertares

Maria Teresa Horta

Silêncio

Setembro 12, 2019 - Leave a Response

Sem que eu soubesse,
as coisas não ditas haviam crescido
como cogumelos venenosos
nas paredes do silêncio.

 Lya Luft     em    O Silêncio dos Amantes 

Sede de água

Setembro 5, 2019 - Leave a Response

Em vez da morna crisálida

num casulo apoquentado,

antes ser canteiro regado

ao fim de uma tarde cálida.

.

Num sereno estar profundo,

empapado em poças de água.

Que esta sede imensa trago-a

desde o princípio do mundo.

campo-de-flores

António Gedeão

Onda a onda

Agosto 28, 2019 - Leave a Response

Onda a onda o desejo no

teu rosto de mágoas e de torres

levemente descaídas para

onde não sei se nasces ou se morres

quando os meus dedos cítara a cítara

tocam a música do teu corpo nu

lá onde os teus mistérios serão meus

e chegarei às margens onde tu

talvez então me digas quem é Deus.

Mar e rochas

Manuel Alegre

Cada um cumpre o destino que lhe cumpre

Agosto 20, 2019 - Leave a Response

Cada um cumpre o destino que lhe cumpre.
E deseja o destino que deseja;
nem cumpre o que deseja,
nem deseja o que cumpre.

Como as pedras na orla dos canteiros
o Fado nos dispõe, e ali ficamos;
que a Sorte nos fez postos
onde houvemos de sê-lo.

Não tenhamos melhor conhecimento
do que nos coube que de que nos coube.
Cumpramos o que somos.
Nada mais nos é dado.

soledad_y_tristeza_by_magdalena220
29-7-1923

Ricardo Reis

percurso(s)

Agosto 10, 2019 - Leave a Response

faço parte de um percurso

entre o corpo quente de minha mãe e a terra fria de meu pai

não sei em que ponto da viagem estou

ou sequer se a viagem é curta ou ainda longa

tenho pó nos sapatos, mas as solas não estão gastas

já tenho rugas no rosto e marcas no corpo e no coração

mas ainda terei mais e mais

já caí e já me levantei várias vezes

e continuarei a cair,

esperando levantar-me,

ao menos um dia

Estou em viagem, em trânsito

e estar assim cansa, desilude, apeia

mas também impele, resiste e…

.

é a eterna obrigação da existência

entre dois pontos

ou muitos mais

entre pólos de energias variáveis

que afundam e emergem

que submergem e salvam

.

anda daí e junta o teu alforge ao meu

DSCN0713

André Lamas Leite