Poema a poema
Junho 19, 2017

Poema a poema escrevo poesia

dia após dia, após noite e sobressalto

cerro e sussurro e de novo tumulto

.

Poema a poema escrevo o desassossego

a translúcida lisura da asa, a harmonia

que deseja o verso no corpo da luz

 .

Poema a poema vou tocando, tomando

o corpo da escrita, afagando a linguagem

num lento e indizível prazer indeterminável

.

Sonho, após símbolo, após metáfora

após sintaxe

Palavra após palavra, após palavra

.

após palavra…

we-are-all-poets

Maria Teresa Horta

 

 

O silêncio
Maio 31, 2017

O silêncio dói como pedra na língua.

A vida por vezes não tem esperança nem sentido,

tudo parece em paz e no entanto o amor

tem sempre uma mais fria recompensa.

Desde a primeira flor, pouco ainda mudou

essa face da noite com a face do Homem.

O rouxinol canta, sim, a dor do Homem canta

e à força de a esquecer aprende-se a esquecer.

O silêncio é de passos que atormentam a noite

e que ao fundo do fogo vão buscar a luz

para fazer arder as horas até ao orvalho

onde a manhã se ri com os dentes da água.

Às vezes vagueia pelo pomar da noite

uma égua perdida numa nesga de luz,

é a dor que pergunta e procura uma casa

junto à erva do peito, sob os olhos calados.

novembro2

Joaquim Pessoa

On ne peut me connaître
Maio 13, 2017

On ne peut me connaître
mieux que tu me connais.
.
Tes yeux dans lesquels nous dormons
tous les deux
ont fait à mes lumières d’homme
un sort meilleur qu’aux nuits du monde.
.
Tes yeux dans lesquels je voyage
ont donné aux gestes des routes
un sens détaché de la terre.
.
Dans tes yeux ceux qui nous révèlent
notre solitude infinie
ne sont plus ce qu’ils croyaient être.
.
On ne peut te connaître
mieux que je te connais.

neve

Paul Éluard

Não sei como dizer-te
Março 29, 2017

Não sei como dizer-te que a minha voz te procura
e a atenção começa a florir, quando sucede a noite
esplêndida e casta.
Não sei o que dizer, especialmente quando os teus pulsos

se enchem de um brilho precioso
e tu estremeces como um pensamento chegado. Quando
iniciado o campo, o centeio imaturo ondula tocado
pelo pressentir de um tempo distante,
e na terra crescida os homens entoam a vindima,
– eu não sei como dizer-te que cem ideias,
dentro de mim, te procuram.
Quando as folhas da melancolia arrefecem com astros
ao lado do espaço
o coração é uma semente inventada
em seu ascético escuro e em seu turbilhão de um dia,
tu arrebatas os caminhos da minha solidão
como se toda a minha casa ardesse pousada na noite.
– E então não sei o que dizer
junto à taça de pedra do teu tão jovem silêncio.
Quando as crianças acordam nas luas espantadas
que às vezes caem no meio do tempo,
– não sei como dizer-te que a pureza,
dentro de mim, te procura. Durante a primavera inteira aprendo
os trevos, a água sobrenatural, o leve e abstracto
correr do espaço –
e penso que vou dizer algo cheio de razão,
mas quando a sombra vai cair da curva sôfrega
dos meus lábios, sinto que me falta
um girassol, uma pedra, uma ave – qualquer
coisa extraordinária.
Porque não sei como dizer-te sem milagres
que dentro de mim é o sol, o fruto,
a criança, a água, o deus, o leite, a mãe, o amor,
que te procuram.
margaridas
Herberto Hélder

Dentro da noite
Fevereiro 19, 2017

Dentro da noite que me rodeia
negra como um poço de lado-a-lado
eu agradeço aos deuses que existem
por minha alma indomável.
Nas garras cruéis da circunstância
eu não tremo ou me desespero.
Sob os duros golpes da sorte
a minha cabeça sangra,
mas não se curva,
além deste lugar de raiva e choro
para somente o horror da sombra
e, ainda assim a ameaça do tempo
vai encontrar-me e achar-me, destemido.
Não importa se o portão é estreito,
não importa o tamanho do castigo.
Eu sou o dono do meu destino.
Eu sou o capitão da minha alma.

man_down_the_road_by_goldenso

William Ernest Henley (citado por Nelson Mandela enquanto estava preso).

Príncipe
Dezembro 9, 2016

Era de noite quando eu bati à tua porta
e na escuridão da tua casa tu vieste abrir
e não me conheceste.
Era de noite
são mil e umas
as noites em que bato à tua porta
e tu vens abrir
e não me reconheces
porque eu jamais bato à tua porta.
Contudo
quando eu batia à tua porta
e tu vieste abrir
os teus olhos de repente
viram-me
pela primeira vez
como sempre de cada vez é a primeira
a derradeira
instância do momento de eu surgir
e tu veres-me.
Era de noite quando eu bati à tua porta
e tu vieste abrir
e viste-me
como um náufrago sussurrando qualquer coisa
que ninguém compreendeu.
Mas era de noite
e por isso
tu soubeste que era eu
e vieste abrir-te
na escuridão da tua casa.
Ah era de noite
e de súbito tudo era apenas
lábios pálpebras intumescências
cobrindo o corpo de flutuantes volteios
de palpitações trémulas adejando pelo rosto.
Beijava os teus olhos por dentro
beijava os teus olhos pensados
beijava-te pensando
e estendia a mão sobre o meu pensamento
corria para ti
minha praia jamais alcançada
impossibilidade desejada
de apenas poder pensar-te.
São mil e uma
as noites em que não bato à tua porta
e vens abrir-me.

 

mulher-pensativa

Ana Hatherly      em    “Um Calculador de Improbabilidades”

 

o teu sono
Agosto 21, 2016

o teu sono anoiteceu mais que a noite

e hei-de escrever-te sempre sem que nunca

te escreva sei as palavras que fechaste

nos olhos mas não sei as letras de as dizer

ensina-me de novo se ensinares-me for

ir ter contigo ao teu sorriso ensina-me

a nascer para onde dormes que me perco

tantas vezes numa noite demasiado pequena

para o teu sono num silêncio demasiado fundo

dormes e tento levantar a pedra que te

cobre maior que a noite o peso da pedra que

te cobre e tento encontrar-te mais uma vez

nas palavras que te dizem só para mim

o teu sono anoiteceu mais que as mortes

que posso suportar e hei-de escrever-te

sempre e mais uma vez sozinho nesta noite.

sem-titulo3

José Luís Peixoto

Forma
Agosto 9, 2016

Procurava um estilo – algo que se pusesse no

poema como um chapéu para a chuva ou para o

sol. Queria vestir a linguagem, a estrofe, o verso

com a insólita elegância do equilibrista. Lia

em voz alta os poemas dos outros como se fossem

seus; e, no entanto, não conseguia sair da

“aurea mediocritas”, do tom baixo que caracteriza

os simples imitadores, Uma noite, aproveitou

o isolamento da rua para se observar a si

próprio no reflexo de uma porta de vidro. “Quem

és?”, perguntou à sua imagem; e não se espantou

com o silêncio que lhe respondeu. Não era ele,

afinal, incapaz de explicar fosse o que fosse

da vida ? Construía ilusões e deixava que elas

se esfumassem sem se preocupar em fixar a

sua imagem – afinal, aquilo de que os poemas são

feitos. E o inverno passou, com o fogo das suas

águas; uma primavera trouxe-lhe o nome que há

muito se desabituara de chamar; julho e agosto

prostraram-no na hesitação das tardes. Para quê

escrever? Porém, as nuvens do outono desceram ao

nível dos telhados; os dias ficavam mais curtos;

o vento do norte chegava com uma dicção de

antigas folhas. Pensa que os mortos te visitam;

abre-lhes a página; e descobre que és um deles,

envolto num lençol de névoa e de retórica.

Moon and cloud.

Nuno Júdice

Se eu pudesse
Julho 22, 2016

Se eu pudesse trincar a terra toda
e sentir-lhe um paladar
seria mais feliz um momento
mas eu nem sempre quero ser feliz.

E preciso ser de vez em quando infeliz
para poder ser natural…
Nem tudo são dias de sol
e a chuva, quando falta muito, pede-se.
Por isso tomo a infelicidade com a felicidade
naturalmente, como quem não estranha
que haja montanhas e planícies
e que haja rochedos e erva…

O que é preciso é ser-se natural e calmo
na felicidade ou infelicidade.
Sentir como quem olha.
Pensar como quem anda.
E quando se vai morrer, lembrar-se que o dia morre,
e que o poente é belo e é bela a noite que fica.
Assim é e assim seja…

arame

Alberto Caeiro

Murmúrios
Junho 22, 2016

Perseguem-me dias sempre iguais,
Num cais da infância
Entre as paredes do meu quarto.
Quatro paredes de lágrimas

Por vezes búzios em valsa pela enseada
Dos murmúrios.

A noite persegue-me entretanto
Essências do rosmaninho enlaçados de alecrim,
Cantatas de pinheiros mansos e suas
Resinas frescas.

Perseguem-me as palavras que não sei dizer,
O fado que não sei cantar,
Persegue-me a morte que não sei morrer…

Minha sina é esta,
Ter esta condição!
Não saber o que é o abraço de um irmão,
Ter dançado com as feiticeiras na eira
E observado tarde demais que a Lua era similar
À roda da carroça
Que o meu avô guardava no telheiro.

Ter entendido o amor assim que o perdi
Quando nas minhas asas já quebradas eu deixava sucumbir todo o Infinito, todas as fogueiras, todas as ausências de um querubim
E parti de mim no murmúrio sereno das fontes.

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© Célia Moura, (inédito) 19.IV.2016