Escrevo-te
Agosto 16, 2018

 Escrevo-te com o fogo e a água.

 Escrevo-te no sossego feliz das folhas e das sombras.

Escrevo-te quando o saber é sabor, quando tudo é surpresa.

Vejo o rosto escuro da terra em confins indolentes.

 Estou perto e estou longe num planeta imenso e verde.

 O que procuro é um coração pequeno, um animal perfeito e suave.

 Um fruto repousado, uma forma que não nasceu, um torso ensanguentado,

 uma pergunta que não ouvi no inanimado,

 um arabesco talvez de mágica leveza.

Quem ignora o sulco entre a sombra e a espuma?

 Apaga-se um planeta, acende-se uma árvore.

 As colinas inclinam-se na embriaguez dos barcos.

 O vento abriu-me os olhos, vi a folhagem do céu,

 o grande sopro imóvel da primavera efémera.

.

 António Ramos Rosa

(Volante Verde – 1986)

Anúncios

Abraça-me
Agosto 8, 2018

Abraça-me.

Quero ouvir o vento que vem da tua pele,

e ver o sol nascer do intenso calor dos nossos corpos.

Quando me perfumo assim, em ti,

nada existe a não ser este relâmpago feliz,

esta maçã azul que foi colhida na palidez de todos os caminhos,

e que ambos mordemos para provar

o sabor que tem a carne incandescente das estrelas.

.

Abraça-me.

Veste o meu corpo de ti,

para que em ti eu possa buscar o sentido dos sentidos,

o sentido da vida.

Procura-me com os teus antigos braços de criança,

para desamarrar em mim a eternidade,

essa soma formidável de todos os momentos livres

que a um e a outro pertenceram.

.

Abraça-me.

Quero morrer de ti em mim, espantado de amor.

Dá-me a beber, antes, a água dos teus beijos,

para que possa levá-la comigo

e oferecê-la aos astros pequeninos. 
Só essa água fará reconhecer o mais profundo,

o mais intenso amor do universo,

e eu quero que delem fiquem a saber

até as estrelas mais antigas e brilhantes. 

.
Abraça-me.

Uma vez mais. Uma vez só.

.

Uma vez que nem sei se tu existes.

 


Joaquim Pessoa    em   Ano Comum

Dia
Março 12, 2018

O dia foi de chumbo em sua mansa calma.

E foi um rio bem fundo em que as palavras,

à partida discretas, mais pesaram.

E a morte percutiu (coexistiu)

num gume de espada incendiada.

E as pedras afluíram (confluíram)

num sulfuroso rosto à beira d’água.

OLYMPUS DIGITAL CAMERA

João Rui de Sousa

Tu és a terra
Julho 20, 2017

 

Tu és a terra em que pouso.
macia, suave, terna, e dura o quanto baste
a que teus braços como tuas pernas
tenha de amor a força que me abraça.

És também pedra qual a terra às vezes
contra que nas arestas me lacero e firo,
mas de musgo coberta refrescando
as próprias chagas de existir contigo.

E sombra de árvores, e flores e frutos,
rendidos ao meu gosto e meu sabor.
E uma água cristalina e murmurante
que me segreda só de amor no mundo.

És a terra em que pouso. Não paisagem,
não Madre Terra ou raptada ninfa
de bosques e montanhas. Terra humana
em que me pouso inteiro e para sempre.

lilás

Jorge de Sena

Na água
Julho 7, 2017

O reflexo da árvore.

Ninguém toca na sua margem.

Permanece. Realidade inteira.

Enquanto a árvore,

ardil dos sentidos,

se desfaz

quando alguém agita

a sua imagem.

Tranquilidade

Pedro Mexia

Espelho
Fevereiro 26, 2017

 

Que rompam as águas:
é de um corpo que falo.
Nunca tive outra pátria,
nem outro espelho,
nem outra casa.

É de um rio que falo,
desta margem onde soam ainda,
leves,
umas sandálias de oiro e de ternura.

Aqui moram as palavras;
as mais antigas,
as mais recentes:
mãe, árvore,
adro, amigo.

Aqui conheci o desejo
mais sombrio,
mais luminoso,
a boca
onde nasce o sol,
onde nasce a lua.

E sempre um corpo,
sempre um rio;
corpos ou ecos de colunas,
rios ou súbitas janelas
sobre dunas;
corpos:
dóceis, doirados montes de feno;
rios:
frágeis, frias flores de cristal.

E tudo era água,
água,
desejo só
de um pequeno charco de luz.

DSC00761

Eugénio de Andrade

O Amor, meu Amor
Novembro 21, 2016

Nosso amor é impuro
como impura é a luz e a água
e tudo quanto nasce
e vive além do tempo.

Minhas pernas são água,
as tuas são luz
e dão a volta ao universo
quando se enlaçam
até se tornarem deserto e escuro.
E eu sofro de te abraçar
depois de te abraçar para não sofrer.

E toco-te
para deixares de ter corpo
e o meu corpo nasce
quando se extingue no teu.

E respiro em ti
para me sufocar
e espreito em tua claridade
para me cegar,
meu Sol vertido em Lua,
minha noite alvorecida.

Tu me bebes
e eu me converto na tua sede.
Meus lábios mordem,
meus dentes beijam,
minha pele te veste
e ficas ainda mais despida.

Pudesse eu ser tu
E em tua saudade ser a minha própria espera.

Mas eu deito-me em teu leito
Quando apenas queria dormir em ti.

E sonho-te
quando ansiava ser um sonho teu.

E levito, voo de semente,
para em mim mesmo te plantar
menos que flor: simples perfume,
lembrança de pétala sem chão onde tombar.

Teus olhos inundando os meus
e a minha vida, já sem leito,
vai galgando margens
até tudo ser mar.
Esse mar que só há depois do mar.

mia_couto1

Mia Couto    em    “idades cidades divindades”

Caminho sem regresso
Maio 16, 2016

Meus, perdidos, horizontes de lonjura e água,

bebedouro de sonhos, na antemanhã,

onde estais?

.

Tenho sede.

ahcravo_olhares_dsc_0882-bateiras-ria

Luísa  Dacosta

Arte poética
Dezembro 20, 2015

Faço um poema às vezes com a displicência
de um risco sem figura,
como a preguiça de um gesto
sem destino,
às vezes com o adormecimento
no mormaço,
como o tremor de uma lágrima
de espanto;
faço poema às vezes como a faina
de colher flores, de passar os dedos
na água, de voltar-me
por não ver nada mais do que sonhava;
faço poema às vezes como a máquina
regista, como o dedo segue
a linha da leitura,
como a força
invisível de virar
a página de um livro casual;
mas ás vezes faço poema como erguendo
um punhal contra a rosa, ou contra mim,
como quem morre e resiste
e quer morrer assim.
Faço poema às vezes.
.
Faço poema sempre como vivo.

regato 2

Walmir Ayala

Outro Poema de Natal
Dezembro 24, 2014

A alegria permanece incompleta

enquanto os anos te vincam a face,

mas não existe um único dia de Natal

em que ela não nasça.

.

O horizonte esplêndido mata a nossa sede

de um outro horizonte,

e o meu grande amor à alegria renova-se

com um fio de água no teu rosto.

Natal

Joel  Henriques