Dia
Março 12, 2018

O dia foi de chumbo em sua mansa calma.

E foi um rio bem fundo em que as palavras,

à partida discretas, mais pesaram.

E a morte percutiu (coexistiu)

num gume de espada incendiada.

E as pedras afluíram (confluíram)

num sulfuroso rosto à beira d’água.

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João Rui de Sousa

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Tu és a terra
Julho 20, 2017

 

Tu és a terra em que pouso.
macia, suave, terna, e dura o quanto baste
a que teus braços como tuas pernas
tenha de amor a força que me abraça.

És também pedra qual a terra às vezes
contra que nas arestas me lacero e firo,
mas de musgo coberta refrescando
as próprias chagas de existir contigo.

E sombra de árvores, e flores e frutos,
rendidos ao meu gosto e meu sabor.
E uma água cristalina e murmurante
que me segreda só de amor no mundo.

És a terra em que pouso. Não paisagem,
não Madre Terra ou raptada ninfa
de bosques e montanhas. Terra humana
em que me pouso inteiro e para sempre.

lilás

Jorge de Sena

Na água
Julho 7, 2017

O reflexo da árvore.

Ninguém toca na sua margem.

Permanece. Realidade inteira.

Enquanto a árvore,

ardil dos sentidos,

se desfaz

quando alguém agita

a sua imagem.

Tranquilidade

Pedro Mexia

Espelho
Fevereiro 26, 2017

 

Que rompam as águas:
é de um corpo que falo.
Nunca tive outra pátria,
nem outro espelho,
nem outra casa.

É de um rio que falo,
desta margem onde soam ainda,
leves,
umas sandálias de oiro e de ternura.

Aqui moram as palavras;
as mais antigas,
as mais recentes:
mãe, árvore,
adro, amigo.

Aqui conheci o desejo
mais sombrio,
mais luminoso,
a boca
onde nasce o sol,
onde nasce a lua.

E sempre um corpo,
sempre um rio;
corpos ou ecos de colunas,
rios ou súbitas janelas
sobre dunas;
corpos:
dóceis, doirados montes de feno;
rios:
frágeis, frias flores de cristal.

E tudo era água,
água,
desejo só
de um pequeno charco de luz.

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Eugénio de Andrade

O Amor, meu Amor
Novembro 21, 2016

Nosso amor é impuro
como impura é a luz e a água
e tudo quanto nasce
e vive além do tempo.

Minhas pernas são água,
as tuas são luz
e dão a volta ao universo
quando se enlaçam
até se tornarem deserto e escuro.
E eu sofro de te abraçar
depois de te abraçar para não sofrer.

E toco-te
para deixares de ter corpo
e o meu corpo nasce
quando se extingue no teu.

E respiro em ti
para me sufocar
e espreito em tua claridade
para me cegar,
meu Sol vertido em Lua,
minha noite alvorecida.

Tu me bebes
e eu me converto na tua sede.
Meus lábios mordem,
meus dentes beijam,
minha pele te veste
e ficas ainda mais despida.

Pudesse eu ser tu
E em tua saudade ser a minha própria espera.

Mas eu deito-me em teu leito
Quando apenas queria dormir em ti.

E sonho-te
quando ansiava ser um sonho teu.

E levito, voo de semente,
para em mim mesmo te plantar
menos que flor: simples perfume,
lembrança de pétala sem chão onde tombar.

Teus olhos inundando os meus
e a minha vida, já sem leito,
vai galgando margens
até tudo ser mar.
Esse mar que só há depois do mar.

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Mia Couto    em    “idades cidades divindades”

Caminho sem regresso
Maio 16, 2016

Meus, perdidos, horizontes de lonjura e água,

bebedouro de sonhos, na antemanhã,

onde estais?

.

Tenho sede.

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Luísa  Dacosta

Arte poética
Dezembro 20, 2015

Faço um poema às vezes com a displicência
de um risco sem figura,
como a preguiça de um gesto
sem destino,
às vezes com o adormecimento
no mormaço,
como o tremor de uma lágrima
de espanto;
faço poema às vezes como a faina
de colher flores, de passar os dedos
na água, de voltar-me
por não ver nada mais do que sonhava;
faço poema às vezes como a máquina
regista, como o dedo segue
a linha da leitura,
como a força
invisível de virar
a página de um livro casual;
mas ás vezes faço poema como erguendo
um punhal contra a rosa, ou contra mim,
como quem morre e resiste
e quer morrer assim.
Faço poema às vezes.
.
Faço poema sempre como vivo.

regato 2

Walmir Ayala

Outro Poema de Natal
Dezembro 24, 2014

A alegria permanece incompleta

enquanto os anos te vincam a face,

mas não existe um único dia de Natal

em que ela não nasça.

.

O horizonte esplêndido mata a nossa sede

de um outro horizonte,

e o meu grande amor à alegria renova-se

com um fio de água no teu rosto.

Natal

Joel  Henriques

Contigo
Agosto 8, 2014

Sou eu, sou eu que não durmo,
contigo nos sentidos.
Sinto-te caminhar sobre as águas
do meu corpo – não sejas queimadura
nem boca do deserto.
Nenhum amor é estéril, um filho
pode ser uma estrela ou ser um verso.

we-are-all-poets
Eugénio de Andrade.

A noite na ilha
Maio 29, 2014

Dormi contigo toda a noite

junto ao mar, na ilha.

Eras doce e selvagem entre o prazer e o sono,

entre o fogo e a água.

.

Os nossos sonos uniram-se

talvez muito tarde

no alto ou no fundo,

em cima como ramos que um mesmo vento agita,

em baixo como vermelhas raízes que se tocam.

.

O teu sono separou-se

talvez do meu

e andava à minha procura

pelo mar escuro

como dantes,

quando ainda não existias,

quando sem te avistar

naveguei a teu lado

e os teus olhos buscavam

o que agora

– pão, vinho, amor e cólera –

te dou às mãos cheias,

porque tu és a taça

que esperava os dons da minha vida.

.

Dormi contigo

toda a noite enquanto

a terra escura gira

com os vivos e os mortos,

e ao acordar de repente

no meio da sombra

o meu braço cingia a tua cintura.

Nem a noite nem o sono

puderam separar-nos.

.

Dormi contigo

e, ao acordar, a tua boca,

saída do teu sono,

trouxe-me o sabor da terra,

da água do mar, das algas,

do âmago da tua vida,

e recebi teu beijo,

molhado pela aurora,

como se me viesse

do mar que nos cerca.

ilha

Pablo Neruda