Espelho
Fevereiro 26, 2017

 

Que rompam as águas:
é de um corpo que falo.
Nunca tive outra pátria,
nem outro espelho,
nem outra casa.

É de um rio que falo,
desta margem onde soam ainda,
leves,
umas sandálias de oiro e de ternura.

Aqui moram as palavras;
as mais antigas,
as mais recentes:
mãe, árvore,
adro, amigo.

Aqui conheci o desejo
mais sombrio,
mais luminoso,
a boca
onde nasce o sol,
onde nasce a lua.

E sempre um corpo,
sempre um rio;
corpos ou ecos de colunas,
rios ou súbitas janelas
sobre dunas;
corpos:
dóceis, doirados montes de feno;
rios:
frágeis, frias flores de cristal.

E tudo era água,
água,
desejo só
de um pequeno charco de luz.

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Eugénio de Andrade

O Amor, meu Amor
Novembro 21, 2016

Nosso amor é impuro
como impura é a luz e a água
e tudo quanto nasce
e vive além do tempo.

Minhas pernas são água,
as tuas são luz
e dão a volta ao universo
quando se enlaçam
até se tornarem deserto e escuro.
E eu sofro de te abraçar
depois de te abraçar para não sofrer.

E toco-te
para deixares de ter corpo
e o meu corpo nasce
quando se extingue no teu.

E respiro em ti
para me sufocar
e espreito em tua claridade
para me cegar,
meu Sol vertido em Lua,
minha noite alvorecida.

Tu me bebes
e eu me converto na tua sede.
Meus lábios mordem,
meus dentes beijam,
minha pele te veste
e ficas ainda mais despida.

Pudesse eu ser tu
E em tua saudade ser a minha própria espera.

Mas eu deito-me em teu leito
Quando apenas queria dormir em ti.

E sonho-te
quando ansiava ser um sonho teu.

E levito, voo de semente,
para em mim mesmo te plantar
menos que flor: simples perfume,
lembrança de pétala sem chão onde tombar.

Teus olhos inundando os meus
e a minha vida, já sem leito,
vai galgando margens
até tudo ser mar.
Esse mar que só há depois do mar.

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Mia Couto    em    “idades cidades divindades”

Caminho sem regresso
Maio 16, 2016

Meus, perdidos, horizontes de lonjura e água,

bebedouro de sonhos, na antemanhã,

onde estais?

.

Tenho sede.

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Luísa  Dacosta

Arte poética
Dezembro 20, 2015

Faço um poema às vezes com a displicência
de um risco sem figura,
como a preguiça de um gesto
sem destino,
às vezes com o adormecimento
no mormaço,
como o tremor de uma lágrima
de espanto;
faço poema às vezes como a faina
de colher flores, de passar os dedos
na água, de voltar-me
por não ver nada mais do que sonhava;
faço poema às vezes como a máquina
regista, como o dedo segue
a linha da leitura,
como a força
invisível de virar
a página de um livro casual;
mas ás vezes faço poema como erguendo
um punhal contra a rosa, ou contra mim,
como quem morre e resiste
e quer morrer assim.
Faço poema às vezes.
.
Faço poema sempre como vivo.

regato 2

Walmir Ayala

Outro Poema de Natal
Dezembro 24, 2014

A alegria permanece incompleta

enquanto os anos te vincam a face,

mas não existe um único dia de Natal

em que ela não nasça.

.

O horizonte esplêndido mata a nossa sede

de um outro horizonte,

e o meu grande amor à alegria renova-se

com um fio de água no teu rosto.

Natal

Joel  Henriques

Contigo
Agosto 8, 2014

Sou eu, sou eu que não durmo,
contigo nos sentidos.
Sinto-te caminhar sobre as águas
do meu corpo – não sejas queimadura
nem boca do deserto.
Nenhum amor é estéril, um filho
pode ser uma estrela ou ser um verso.

we-are-all-poets
Eugénio de Andrade.

A noite na ilha
Maio 29, 2014

Dormi contigo toda a noite

junto ao mar, na ilha.

Eras doce e selvagem entre o prazer e o sono,

entre o fogo e a água.

.

Os nossos sonos uniram-se

talvez muito tarde

no alto ou no fundo,

em cima como ramos que um mesmo vento agita,

em baixo como vermelhas raízes que se tocam.

.

O teu sono separou-se

talvez do meu

e andava à minha procura

pelo mar escuro

como dantes,

quando ainda não existias,

quando sem te avistar

naveguei a teu lado

e os teus olhos buscavam

o que agora

– pão, vinho, amor e cólera –

te dou às mãos cheias,

porque tu és a taça

que esperava os dons da minha vida.

.

Dormi contigo

toda a noite enquanto

a terra escura gira

com os vivos e os mortos,

e ao acordar de repente

no meio da sombra

o meu braço cingia a tua cintura.

Nem a noite nem o sono

puderam separar-nos.

.

Dormi contigo

e, ao acordar, a tua boca,

saída do teu sono,

trouxe-me o sabor da terra,

da água do mar, das algas,

do âmago da tua vida,

e recebi teu beijo,

molhado pela aurora,

como se me viesse

do mar que nos cerca.

ilha

Pablo Neruda

Eu luminoso não sou
Junho 3, 2012


Eu luminoso não sou. Nem sei que haja
um poço mais remoto, e habitado
… de cegas criaturas, de histórias e assombros.
Se, no fundo poço, que é o mundo
secreto e intratável das águas interiores,
uma roda de céu ondulando se alarga,
digamos que é o mar: como o rápido canto
ou apenas o eco, desenha no vazio irrespirável
o movimento de asas. O musgo é um silêncio,
e as cobras-d’água dobram rugas no céu,
enquanto, devagar, as aves se recolhem.

JOSÉ SARAMAGO, em PROVAVELMENTE ALEGRIA

Não tens perdão
Janeiro 12, 2012

Não me disseste amante, madrugada,
pedra-de-lua, pássaro, viagem.
No meu corpo de Agosto feito à estrada,
não descobriste a sombra da folhagem.
Não murmuraste ao menos solidão.
Amora, mel, morango, não disseste.
Não te pedi nem mar nem coração.
Não tens perdão.
Fui água e não bebeste.

 Rosa Lobato de Faria

A condenação
Dezembro 16, 2011

Cansado da poesia,

o poeta levou os seus poemas

para junto de um rio.

.

Queria rasgar os versos

um por um,

dilacerar a palavra,

truncar a ideia,

desfibrar o coração.

.

Para o fim da poesia,

procurou um rio que não tivesse nome.

Teria que ser assim :

junto a um  rio sem nome.

.

Nele afogaria a letra,

dissolveria a tinta,

liquefaria rima e metáfora.

.

Andou, cirandou : mas onde quer

que corresse um fio de água

fluía junto um nome

como se toda a água nascesse da palavra.

.

Deu volta ao mundo,

chegou onde não havia mais mundo :

em nenhum lado

figurava o inominado riachinho.

.

Cansado,

regressou à sua aldeia

e reincidiu na sua inicial angústia.

Ali, no pequeno ribeiro de sua terra natal,

ele sentou o seu desespero

e decepou os cadernos,

desmembrou a escrita

e afogou os papéis

até que deixaram de respirar.

.

Chegou-se um peixe

e, de um golpe, comeu um verso.

No seguinte instante,

lhe cresceram asas

e o peixe soltou um voo de garça

para ganhar os vastos céus.

.

Dos papéis que restavam em suas mãos

emergiu um braço de mulher

que, em dissolvente carícia,

por sonhos o fez viajar.

.

Nessa noite,

de regresso a si mesmo,

o poeta

escreveu derradeiros versos

para matar de vez a poesia.

.

Acedeu, por fim,

à pequena morte do sono,

desconhecendo

que, mesmo adormecido,

dentro de si

seguia fluindo

o único rio sem nome.

Mia Couto