Archive for Março, 2010

O pequeno sismo
Março 30, 2010

Há um pequeno sismo em qualquer parte

ao dizeres o meu nome.

Elevas-me à altura da tua boca

lentamente

para não me desfolhares.

Tremo como se tivera

quinze anos e toda a terra

fosse leve.

Ó indizível primavera!

Eugénio de Andrade

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Olhar
Março 25, 2010

Em teu macio olhar repousa o meu.

E na face polida, assim formada,

se reflecte e recria o próprio céu.

Daniel Filipe

Eu sou tu
Março 21, 2010

Tu deste-me a alegria deste dia,

deste-me a brisa, o sonho e o amor…

Deste-me, enfim, a tua companhia

e afastaste de mim o tédio e a dor.

No meu silêncio, amor, ouço os teus passos

e aperto as tuas mãos em pensamento,

e o tempo pára, em beijos e abraços,

e o tempo pára, amor, neste momento.

E a distância real que outrora havia

desliza como areia entre os meus dedos.

Eu já não estou aqui, nem tu além.

E não sei se é noite ou será dia.

Fitando o teu olhar de mil segredos,

és tu, vivendo em mim, e mais ninguém!

Maria Aguiar Marçalo

Poema da minha natureza
Março 17, 2010

Crescem as flores no seu dever biológico,

e as cores que patenteiam, por sua natureza,

só podem ser aquelas, e não outras.

Vermelhas, amarelas, cinza, fogo,

lilases, carmesins, azuis, violetas, assim, e só assim,

tudo conforme a sua natureza.

Ásperas são as folhas, macias, recortadas

ou não, tudo conforme ;

e o aprumo como tal,

ou rasteiras, ou leves, ou pesadas,

tudo no seu dever,

por sua natureza.

É como os animais.

Em cada qual, por sua natureza,

todo o dever se cumpre.

Comem, dejectam, dormem,

fazem amor nas horas competentes,

lutam, caçam, agridem,

rosnam à lua, trinam, assobiam,

escondem-se, espreitam, fogem, amarinham,

dançam, mudam de pele, agacham-se, disfarçam-se,

tudo conforme a sua natureza.

Assim eu penso, e amo, e sofro, e vou andando.

Tudo conforme a minha natureza.


António Gedeão

Portas
Março 12, 2010

Portas no desamparo…

A vida abre-se,

horizontes espraiam-se,

é preciso procurar novos rumos.

O passado persiste,

com as suas luzes e sombras.

O futuro é uma incógnita,

depois dos castigos do tempo.

É difícil continuar…

O presente obriga a mudanças.

É preciso recomeçar.

Diana Sá

Soneto para M
Março 8, 2010

Mais que um simples flerte
Angustia que brota do celular inerte
Relembrando palavras
Galanteios e gracejos trocados
Amainando lembranças
Remoçando sentidos e sentimentos
Esquecidos
Tragados pelo cotidiano
Homem e mulher conectados pela esperança.

Mensagens virtuais, fugazes
Aquecem corações partidos
Refeitos na eminência da paixão
Tramada no puro desejo
Intentando a felicidade
Natural caminho para a
Saudade.

Saudade que aflora e enternece a esperança.

Wagner Ricardo dos Santos

Ondas
Março 2, 2010

As ondas de partida e de chegada,

sozinhas, isoladas, vão correndo.

Alguém as quer deter, água vazia

de projectos, de vida entressonhada?

Alguém as colhe, prende, acarinha,

as encerra num lago infinito?

Alguém quer conhecer a sua lenda,

a mensagem que trazem escondida?

Não. Elas morrem ou voltam para trás,

de encontro à sua sina impregnada

no vai-e-vem constante que as assombra…

Diana Sá