Na água
Julho 7, 2017

O reflexo da árvore.

Ninguém toca na sua margem.

Permanece. Realidade inteira.

Enquanto a árvore,

ardil dos sentidos,

se desfaz

quando alguém agita

a sua imagem.

Tranquilidade

Pedro Mexia

2º Soneto de Amor da Hora Triste
Janeiro 11, 2017

 

Quando eu morrer – e hei-de morrer primeiro

do que tu – não deixes fechar-me os olhos

meu Amor. Continua a espelhar-te nos meus olhos

e ver-te-ás de corpo inteiro

.

como quando sorrias no meu colo.

E, ao veres que tenho toda a tua imagem

dentro de mim, se, então, tiveres coragem,

fecha-me os olhos com um beijo. Eu, Marco Pólo,

.

farei a nebulosa travessia

e o rastro da minha barca

segui-lo-ás em pensamento. Abarca

.

nele o mar inteiro, o porto, a ria…

E, se me vires chegar ao cais dos céus,

ver-me-ás, debruçado sobre as ondas, para dizer-te adeus.

Mar azul

Álvaro  Feijó

Forma
Agosto 9, 2016

Procurava um estilo – algo que se pusesse no

poema como um chapéu para a chuva ou para o

sol. Queria vestir a linguagem, a estrofe, o verso

com a insólita elegância do equilibrista. Lia

em voz alta os poemas dos outros como se fossem

seus; e, no entanto, não conseguia sair da

“aurea mediocritas”, do tom baixo que caracteriza

os simples imitadores, Uma noite, aproveitou

o isolamento da rua para se observar a si

próprio no reflexo de uma porta de vidro. “Quem

és?”, perguntou à sua imagem; e não se espantou

com o silêncio que lhe respondeu. Não era ele,

afinal, incapaz de explicar fosse o que fosse

da vida ? Construía ilusões e deixava que elas

se esfumassem sem se preocupar em fixar a

sua imagem – afinal, aquilo de que os poemas são

feitos. E o inverno passou, com o fogo das suas

águas; uma primavera trouxe-lhe o nome que há

muito se desabituara de chamar; julho e agosto

prostraram-no na hesitação das tardes. Para quê

escrever? Porém, as nuvens do outono desceram ao

nível dos telhados; os dias ficavam mais curtos;

o vento do norte chegava com uma dicção de

antigas folhas. Pensa que os mortos te visitam;

abre-lhes a página; e descobre que és um deles,

envolto num lençol de névoa e de retórica.

Moon and cloud.

Nuno Júdice

Ausência
Outubro 6, 2014

Eu haverei de erguer a vasta vida
que ainda é o teu espelho:
cada manhã hei-de reconstruí-la.
Desde que te afastaste,
quantos lugares se tornaram vãos
e sem sentido, iguais
a luzes acesas de dia.
Tardes que te abrigaram a imagem,
música em que sempre me esperavas,
palavras desse tempo,
terei de as destruir com as minhas mãos.
Em que ribanceira esconderei a alma
para que não veja a tua ausência,
que como um sol terrível, sem ocaso,
brilha definitiva e sem piedade?
A tua ausência cerca-me
como a corda à garganta.
O mar ao que se afunda.

mar bravo

Jorge Luis Borges, “Fervor de Buenos Aires” (1923) (tradução de Fernando Pinto do Amaral)

O lado de fora
Setembro 25, 2014

Eu não procuro nada em ti,

nem a mim próprio, é algo em ti

que procura algo em ti

no labirinto dos meus pensamentos.

.

Eu estou entre ti e ti,

a minha vida, os meus sentidos

(principalmente os meus sentidos)

toldam de sombras o teu rosto.

.

O meu rosto não reflecte a tua imagem,

o meu silêncio não te deixa falar,

o meu corpo não deixa que se juntem

as partes dispersas de ti em mim.

.

Eu sou talvez

aquele que procuras,

e as minhas dúvidas a tua voz

chamando do fundo do meu coração.

rosto

Manuel  António  Pina

Escrito num livro abandonado em viagem
Dezembro 18, 2013

Venho dos lados de Beja.

Vou para o meio de Lisboa.

Não trago nada e não acharei nada.

Tenho o cansaço antecipado do que não acharei,

e a saudade que sinto não é do passado nem do futuro.

Deixo escrita neste livro a imagem do meu desígnio morto:

fui, como ervas, e não me arrancaram.

Floresta virgem

Álvaro de Campos

Mulher
Março 8, 2011

Ó Mulher! Como és fraca e como és forte!
Como sabes ser doce e desgraçada!
Como sabes fingir quando em teu peito
a tua alma se estorce amargurada!

Quantas morrem saudosas duma imagem
adorada que amaram doidamente!
Quantas e quantas almas endoidecem
enquanto a boca rir alegremente!

Quanta paixão e amor às vezes têm
sem nunca o confessarem a ninguém
doce alma de dor e sofrimento!

Paixão que faria a felicidade
dum rei; amor de sonho e de saudade,
que se esvai e que foge num lamento!

Florbela Espanca – “Trocando olhares”

Sem depois
Fevereiro 4, 2011

Todas as vidas gastei para morrer contigo.

 

E agora

esfumou-se o tempo

e perdi o teu passo

para além da curva do rio.

 

Rasguei as cartas.

Em vão,

o papel restou intacto.

Só os meus dedos murcharam, decepados.

 

Queimei as fotos.

Em vão.

As imagens restaram incólumes,

e só os meus olhos se desfizeram

no dom das cinzas.

 

Com que roupa vestirei a minha alma

agora que já não há domingos?

Depois de te viver, não há poente.

Nem o enfim de um fim.

 

Todas as mortes gastei, para viver contigo.

 

Mia  Couto

Coração sem imagens
Setembro 4, 2009

casa

Deito fora as imagens.

Sem ti, para que me servem

as imagens?

Preciso habituar-me

a substituir-te

pelo vento,

que está em qualquer parte

e cuja direcção

é igualmente passageira

e verídica.

Preciso habituar-me ao eco dos teus passos

numa casa deserta,

ao trémulo vigor de todos os teus gestos

invisíveis,

à canção que tu cantas e que mais ninguém ouve

a não ser eu.

Serei feliz sem as imagens.

As imagens não dão

felicidade a ninguém.

Era mais difícil perder-te,

e, no entanto, perdi-te.

Era mais difícil inventar-te,

e eu te inventei.

Posso passar sem as imagens,

assim como posso passar sem ti.

E hei-de ser feliz ainda que

isso não seja ser feliz.

 

Raul de Carvalho

Chove
Maio 4, 2009

Nesta tarde chove, e  chove pura a

tua imagem. Na minha recordação abre-se o dia.

Entraste.

Não oiço. A memória dá-me só a tua imagem.

Só o teu beijo ou chuva cai em recordação.

Chove a tua voz, e  chove o beijo triste,

o  fundo beijo,

beijo molhado em chuva. O  lábio é húmido.

Húmido de recordação o beijo chora

nuns céus cinzentos

delicados.

Chove o teu amor, molha a minha memória,

e  cai  e  cai.  O  beijo

cai ao fundo. E  cinzenta ainda cai

a  chuva.

chuva4

Vicente Aleixandre