Novembro
Novembro 3, 2016

Novembro trouxe o fim.
Nunca houvera antes tal nostalgia.
No entanto, sabíamos que teria de ser assim.
Nossas mãos não se queriam despedir,
Nossos corpos não se queriam largar, .
Náufragos despertos deste infeliz desenrolar.
Nestes dias, sim, agora… Não há mais nada.
Nada que chegue,
nada que escape,
nada que demova, que resista, que fade…
Nada, para além do breve despertar,
Nada, a não ser o ligeiro trautear, bem longe, do teu assobio.
Na desistência leve das vontades sacudidas…
Numa era de tempo em que se foi o tempo.
Nacarada nostalgia borboleteando
nos lábios fartos de soletrar palavras facilmente esquecidas,
negras, envilecidas, graças ao carvão que usámos para aquecer esta vida. Neste agridoce existencial a que chamamos de …
Nada. Porque não há nada que chegue. A ti.
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Sofia Pereira

Gestos
Junho 25, 2014

Gestos,

apenas gestos. A minuciosa ternura

posta nas coisas imediatas,

nas que duram contra a noite,

nas que acendem lâmpadas precárias

e contêm o silêncio,

como se música fossem

e nela nos viéssemos

perder.

.

Gestos,

tu ouves?

Nem o teu coração pode dar guarida

a tanto silêncio da terra.

.

Se agora mesmo devagar nos anoitecesse

e se, mergulhados numa aguda nostalgia

ou na recordação de um rosto,

nos desencontrássemos do mundo,

só esse gesto viria resgatar-nos,

a nós, feridos de amor e de sentido.

.

Por isso, hoje só posso dizer

o que o teu coração abandonou.

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Luís Filipe Castro Mendes

Amigos
Abril 20, 2011

Os meus amigos andam perdidos
um pouco por toda a parte.
De Lausanne ao Rio é o vasto mundo
dos desencontros, os mesmo que
de Naxos a Londres e de Manhattan ao Cabo
animam exílios vários.

Andam em diáspora os meus amigos.
Une-os, porventura, a mesma nostalgia.

Feridas antigas hipotecadas
ao futuro.

Eduardo Pitta  in  Desobediência. Poemas escolhidos

Soneto do amor difícil
Agosto 6, 2009

pacific_ocean_by_barufubeefcake1A praia abandonada recomeça

logo que o mar se vai, a desejá-lo.

É como o nosso amor, somente embalo

enquanto não é mais que uma promessa.

Mas se na praia a onda se espedaça,

há logo nostalgia de uma flor

que ali devia estar para compor

a vaga em seu rumor de fim de raça.

Bruscos e doloridos, refulgimos

no silêncio de morte que nos tolhe,

como entre o mar e a praia um longo molhe

de súbito largado à flor dos limos.

E deste amor difícil só nasceu

desencanto na curva do teu céu.

 

David Mourão Ferreira

Se um dia,no silêncio do teu ser
Abril 22, 2009

para-a-filha

Se um dia, no silêncio do teu ser,

como num sonho, ouvires docemente

o eco triste duma voz dolente,

na morna palidez do entardecer;

e  nessa voz sentires tu viver

a nostalgia, a febre, o sonho ardente,

imensidade cor da selva quente,

as estrelas dos Trópicos a arder…,

fecha teus olhos lindos devagar

e  sonha com palmeiras ao luar,

nas noites de sertão, calmas e puras…

Chama por ti alguém que nunca viste,

poeta que nasceu para ser triste

e  talvez seja a alma que procuras.

 

Tavares Guimarães