O Poeta
Outubro 22, 2018

O poeta não gosta de palavras:
escreve para se ver livre delas.

A palavra
torna o poeta
pequeno e sem invenção.

Quando,
sobre o abismo da morte,
o poeta escreve terra,
na palavra ele se apaga
e suja a página de areia.

Quando escreve sangue
o poeta sangra
e a única veia que lhe dói
é aquela que ele não sente.

Com raiva,
o poeta inicia a escrita
como um rio desflorando o chão.
Cada palavra é um vidro em que se corta.

O poeta não quer escrever.
Apenas ser escrito.

Escrever, talvez,
apenas enquanto dorme.

MIA COUTO

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Primeiro: continuar. Segundo: começar
Abril 15, 2018

Se não escrevo, leio.
Não descanso até encontrar
o poema que me alivie.
Encontrarei palavras
que me emprestem sentido.

É um modo de sobrevivência que pratico,
procurar casas dentro de casa.
Transporto uma candeia discreta e vejo
nos poetas-irmãos e nos poetas-amantes,
sossego para as emoções que me fazem cerco.

Fecharei os olhos
quando me sentir iluminada por dentro.

livros 1

Marta Chaves
   em    Varanda de Inverno

Tanto que fazer
Novembro 9, 2017

Tanto que fazer !
Livros que não se lêem,
cartas que não se escrevem,
línguas que não se aprendem,
amor que não se dá,
tudo quanto se esquece.

Amigos entre adeuses,
crianças chorando na tempestade,
cidadãos assinando papéis, papéis, papéis…
até o fim do mundo assinando papéis.

E os pássaros detrás de grades de chuvas,
e os mortos em redôma de cânfora.
( E uma canção tão bela ! )

Tanto que fazer !
E nunca soubemos quem éramos
nem para quê.

 

Foto de Graça Costa.

Poesia
Outubro 6, 2017

 

Gastei uma hora pensando um verso

que a pena não quer escrever,

no entanto ele está cá dentro

inquieto, vivo.

Ele está cá dentro

e não quer sair.

Mas a poesia deste momento

inunda minha vida inteira.

escrita

Carlos Drummond de Andrade

Forma
Agosto 9, 2016

Procurava um estilo – algo que se pusesse no

poema como um chapéu para a chuva ou para o

sol. Queria vestir a linguagem, a estrofe, o verso

com a insólita elegância do equilibrista. Lia

em voz alta os poemas dos outros como se fossem

seus; e, no entanto, não conseguia sair da

“aurea mediocritas”, do tom baixo que caracteriza

os simples imitadores, Uma noite, aproveitou

o isolamento da rua para se observar a si

próprio no reflexo de uma porta de vidro. “Quem

és?”, perguntou à sua imagem; e não se espantou

com o silêncio que lhe respondeu. Não era ele,

afinal, incapaz de explicar fosse o que fosse

da vida ? Construía ilusões e deixava que elas

se esfumassem sem se preocupar em fixar a

sua imagem – afinal, aquilo de que os poemas são

feitos. E o inverno passou, com o fogo das suas

águas; uma primavera trouxe-lhe o nome que há

muito se desabituara de chamar; julho e agosto

prostraram-no na hesitação das tardes. Para quê

escrever? Porém, as nuvens do outono desceram ao

nível dos telhados; os dias ficavam mais curtos;

o vento do norte chegava com uma dicção de

antigas folhas. Pensa que os mortos te visitam;

abre-lhes a página; e descobre que és um deles,

envolto num lençol de névoa e de retórica.

Moon and cloud.

Nuno Júdice

Procura-te
Março 23, 2015

não procures no que lês
o eu que o escreveu
procura-te

aceitares ou recusares
as palavras lidas
é seres tu

será sempre morta a escrita
que não provoque no leitor
repulsa aceitação ou
no limite da comunhão o
“porque não fui eu?”

se te sentas nas minhas palavras
e adormeces
de nada serviu tê-las escrito

não me procures no que leste
procura-te porque o fizeste

chama-arcoiris

A. H. Cravo

Epitáfio
Março 5, 2015

eu não deixo nada feito

fica tudo por fazer

que eu passei parte da vida

a tentar sobreviver

a outra parte a dormir

e outra parte a comer

ou então a fazer coisas

que não vou aqui dizer

mas não deixo nada feito

fica tudo por fazer

.

eu não deixo nada escrito

fica tudo por escrever

que eu passei parte da vida

a aprender a saber ler

seria muita arrogância

eu pôr-me agora a escrever

e em verdade se diga

que tive mais que fazer

mas não deixo nada escrito

fica tudo por escrever

.

e até o que foi dito

do que se diz por dizer

às coisas mais delicadas

que põem um tipo a pensar

duvido que alguma coisa

fosse assim tão singular

ou que ainda um dia se diga

sim senhor gostei de ouvir

por isso, p’ra resumir

digo-te sem cortesias

aqui jaz o malaquias

.

viesses mais cedo e ainda o vias

time 2

Pedro Malaquias

Poema Quadragésimo Sexto
Junho 19, 2014

violeta 2

Peço-te. Não pises as violetas
que trago no olhar.

Falemos dos brilhos estilhaçados
desta casa súbita que é o teu corpo
devoluto. A noite devora as palavras possíveis,
o sofrimento que pulsa em tua boca
e torna a minha boca vulnerável.
O amor é um nada que a liberta, uma luz
que desce dos ombros para o ventre
e fecunda as sementes da tua virgindade,
essa que faz agora parte de uma dor quase
amigável, na lividez do tempo,
e que entregas em minhas mãos, beijando-as,
tornando-te parte dos meus versos, da
minha forma mais profunda de gostar
de ti. Amar-te, é escrever-te.
Amar-te é deixar que me toques até ser teu,
até que te deites no meu corpo e adormeças
inteira dentro de mim. Peço-te. Não pises as violetas
que trago no olhar. Cheiram a ti. São para ti.
Um “bouquet” de palavras que floriram
neste tempo de amor..
JOAQUIM PESSOA,   em   GUARDAR O FOGO

Quando eu morrer
Abril 30, 2014

quando eu morrer murmura esta canção

que escrevo para ti. quando eu morrer

fica junto de mim, não queiras ver

as aves pardas do anoitecer

a revoar na minha solidão.

 

quando eu morrer segura a minha mão,

põe os olhos nos meus se puder ser,

se inda neles a luz esmorecer,

e diz do nosso amor como se não

 

tivesse de acabar,

sempre a doer, sempre a doer de tanta perfeição

que ao deixar de bater-me o coração

fique por nós o teu inda a bater,

quando eu morrer segura a minha mão.

Quando eu morrer murmura esta canção</p><br /><br />
<p>que escrevo para ti. quando eu morrer</p><br /><br />
<p>fica junto de mim, não queiras ver</p><br /><br />
<p>as aves pardas do anoitecer</p><br /><br />
<p>a revoar na minha solidão. </p><br /><br />
<p>quando eu morrer segura a minha mão,</p><br /><br />
<p>põe os olhos nos meus se puder ser,</p><br /><br />
<p>se inda neles a luz esmorecer,</p><br /><br />
<p>e diz do nosso amor como se não </p><br /><br />
<p>tivesse de acabar,</p><br /><br />
<p>sempre a doer, sempre a doer de tanta perfeição</p><br /><br />
<p>que ao deixar de bater-me o coração</p><br /><br />
<p>fique por nós o teu inda a bater,</p><br /><br />
<p>quando eu morrer segura a minha mão. </p><br /><br />
<p>Vasco Graça Moura, in "Antologia dos Sessenta Anos"

Vasco Graça Moura,    em    “Antologia dos Sessenta Anos”

escrevo-te a sentir tudo isto
Janeiro 21, 2014

escrevo-te a sentir tudo isto
e num instante de maior lucidez poderia ser o rio
as cabras escondendo o delicado tilintar dos guizos nos sais de prata da
fotografia
poderia erguer-me como o castanheiro dos contos sussurrados junto
ao fogo
e deambular trémulo com as aves
ou acompanhar a sulfúrica borboleta revelando-se na saliva do lábios
poderia imitar aquele pastor
ou confundir-me com o sonho de cidade que a pouco e pouco morde a
sua imobilidade

habito neste país de água por engano
são-me necessárias imagens radiografias de ossos
rostos desfocados
mãos sobre corpos impressos no papel e nos espelhos
repara
nada mais possuo
a não ser este recado que hoje segue manchado de finos bagos de romã
repara
como o coração de papel amareleceu no esquecimento de te amar.

let it go

AL BERTO, em O MEDO (1987)